A estratégia para alavancar o turismo reconhece que devemos começar pelo turismo interno: os nacionais representam 2/3 do turismo angolano e ajudam a criar uma massa crítica relevante para socialização da actividade, com destaque para a comunidade dos estrangeiros residentes. À consolidação do turismo doméstico segue-se o turismo regional e a integração internacional.
Abre-se um pequeno parêntesis para nos referirmos ao turismo regional, particularmente, à região angolana da Área Transfronteiriça de Conservação Ambiental Okavango Zambeze - ATFC-KAZA. Trata-se de uma região que movimenta cerca de dez milhões de turistas todos os anos, o Bico de Angola, no Município do Rivungo, Província do Cuando, está a escassos 300km de Victoria Falls: se conseguirmos desviar para o nosso território 10% do fluxo turístico daquela região, entrariam no nosso país cerca de 1 milhão de turistas, muito acima dos cerca de 120 mil turistas que Angola recebe por ano, actualmente. Daí que estejamos em aceleração das concessões turísticas no Okavango.
Decorrido um ano desde que o Ministério do Turismo ganhou autonomia sectorial, anima-nos o facto de nos ter sido transmitida, pelo Titular do Poder Executivo, uma visão clara para o que se pretende neste sector em Angola: transformar o potencial dos recursos turísticos em produtos de consumo que promovam a criação de empregos, a melhoria da qualidade dos serviços e a prosperidade das comunidades.
Apesar de não tornar mais fácil o nosso desafio, essa clareza na visão, confere um sentido de propósito ao trabalho que fazemos diariamente e deixa à descoberto para todos a importância sistémica do turismo na dinamização da actividade económica, na criação de empregos, na geração de renda e na captação de divisas, bem como na promoção do desenvolvimento regional e empoderamento das comunidades locais.
Estamos convictos de que a dinamização do turismo não depende só da existência de belas paisagens naturais, de uma riqueza e diversidade histórico-cultural, de uma gastronomia apelativa e nem do carácter acolhedor do povo angolano, depende, sobretudo, da existência de uma oferta turística estruturada. Na verdade, estamos cansados de nos referir à Angola como um "país que tem muito potencial". Chega. É hora de sermos uma grande potência do turismo no continente.
Neste contexto, o nosso modelo de abordagem prática para o desenvolvimento do turismo em Angola assenta nos seguintes pressupostos:
Identificar áreas turísticas prioritárias e classificá-las como sendo de interesse turístico, como se fez recentemente com o Mussulo;
Elaborar o plano de ordenamento turístico; e
Concessionar aos privados para o seu desenvolvimento.
Um destaque à especial atenção que prestamos ao ordenamento turístico: a desordem urbanística é um pesadelo para a gestão territorial em Angola. No turismo, queremos corrigir esse erro. Por este motivo, por exemplo, tendo sido incluído o turismo no Aviso n.º 9/25, de 20 de Dezembro, estabeleceu-se que os empreendimentos a financiar estejam localizados em áreas turísticas, como tal classificadas.
Os instrumentos de ordenamento turístico são fundamentais na nossa estratégia para a estruturação dos investimentos no sector do turismo: os master plans que estão em elaboração vão conferir segurança aos investidores, tornam a nossa abordagem ao mercado mais sofisticada e conferem previsibilidade aos investimentos necessários em infraestruturas (estradas, energia, água e saneamento), os quais funcionam como catalisadores para a alavancagem financeira necessária para a construção e gestão dos empreendimentos e equipamentos turísticos. Não haja dúvidas: por cada mil dólares que o Estado investir em infraestruturas nas áreas turísticas, os privados investem um milhão de dólares.
A este respeito, é importante destacar a necessidade de se conceber o guia para o investimento no sector do turismo para Angola (Tourism Doing Business), uma iniciativa já em curso que conta com o patrocínio da Organização das Nações Unidas para o Turismo (ONU Turismo) e deverá ser lançado no segundo semestre deste ano.
Manda a verdade que se reconheça que Angola ainda é muito desconhecida ao nível mundial. Não poucas vezes conhecida por factos que pertencem à história: guerra, minas, insegurança, etc. Este cenário deve mudar para propiciar o aumento do fluxo turístico. A comunicação joga a este respeito um papel crucial. Entretanto, a nossa estratégia, também a este respeito é claro: focarmo-nos nos principais países exportadores de turistas a nível mundial, países como a Alemanha, EUA, Inglaterra, França, Japão, China, Itália, Espanha, etc., cuja renda per capita dos seus cidadãos e a regulação laboral propicie a busca por destinos inexplorados, como é o caso de Angola. A nossa comunicação está, por isso, focada em destinos exportadores de turistas em escala.
No mesmo sentido, temos trabalhado para atrair e fixar em Angola as cadeias internacionais de gestão hoteleira, num esforço de diversificação da oferta hoteleira, profissionalização e capacitação dos quadros angolanos, melhorar a experiência dos visitantes e, assim, consolidar a nossa posição como destino turístico de excelência.
Os resultados dessa nossa abordagem prática já se têm feito sentir como ilustram os contactos avançados com o Grupo Hoti Hotéis que já tem uma operação em curso para instalar em Luanda um hotel da insígnia Meliá, com o grupo Hilton que visitou recentemente o nosso país e tem já em curso várias iniciativas para a eventual fixação de algumas marcas do seu portfolio e com o Grupo Sul Africano Bon Hotels, que recentemente também visitou o nosso país e ainda a iniciativa do grupo Marriot que já tem parceria firmada com o Fundo Soberano de Angola para a gestão de uma unidade de 5 Estrelas em Luanda.
Não pretendemos ficar por aqui e, por isso, temos contactos avançados com o grupo Barceló, com a Radisson e com o grupo TUI que pretendem explorar oportunidades de investimento para fixarem a sua presença no país.
Estamos, por isso, no momento certo para uma abordagem integrada ao mercado da hospitalidade que permita colocar na mesma mesa as instituições financeiras, os construtores/promotores, os proprietários de hotéis e as cadeias internacionais de gestão hoteleira para que, em conjunto, encontrem soluções para estabilizar e melhorar a qualidade da nossa oferta hoteleira.
Last but not least, pretendemos estabelecer um modelo de capacitação dos quadros do sector, ancorado na necessidade de integrar e qualificar a força de trabalho nacional no circuito económico gerado pela actividade turística.
A formação tem um papel central em qualquer estratégia de desenvolvimento que tem como alvo a pessoa humana e, é com este espírito que recorremos à ONU Turismo para nos apoiar a conceber e a implementar a Academia do Turismo de Angola, uma iniciativa que visa promover a formação técnico-profissional neste sector, bem como promover a empregabilidade e o empreendedorismo.
Por outro lado, não podemos deixar de considerar na nossa estratégia de formação de quadros a criação de hotéis-escola, designadamente, através da reconversão dos hotéis INFOTUR de Luanda e de Cabinda, num modelo de parceria com entidades privadas, sem prejuízo de continuarmos a incentivar e a apoiar institucionalmente todas as iniciativas privadas que visam a formação profissional de quadros no sector do turismo.
Notas Finais
Não podemos concluir sem antes referir que as três linhas de actuação identificadas no nosso modelo de abordagem prática ao desenvolvimento do turismo em Angola, não devem ser vistas de forma isolada e nem esgotam todas as nossas responsabilidades nesse domínio, devem, pois, ser enquadradas num contexto mais amplo em que vários outros actores concorrem no âmbito das respectivas atribuições.
Com efeito, é da combinação dos inputs do sector público e do sector privado que se configuram os produtos turísticos, que constituem a âncora de qualquer estratégia de desenvolvimento económico baseada no turismo e, ao contrário dos outros sectores económicos, o produto turístico não é uma commodity única, mas sim uma colecção de diferente bens e serviços, prestados por uma variedade de diferentes actores.
A complexidade do produto turístico, enquanto centro da actuação da nossa estratégia de actuação, é tão intrincada que não pode ser desvelada plenamente num artigo de opinião, nem ser imputada à um único actor, razão pela qual adoptamos, de forma humilde e sabia, o slogan que nos move: JUNTOS E TODOS PELO TURISMO!
*Ministro do Turismo