Fazendo jus ao aforismo: "Abril, chuvas mil!", as enxurradas causaram, à sua passagem, enormes estragos, deixando as ruas intransitáveis, o trânsito caótico, abriram buracos, esventraram crateras, tornaram as casas submersas, e trouxeram à superfície as deficiências e a má qualidade das obras públicas.
Em meio às desgraças, houve o registo de mortes e desalojados como resultado das chuvas que se abateram sobre a megacidade, que alberga um terço dos habitantes do país.
As imagens que circularam nas redes sociais, algumas das quais obtidas, provavelmente, com recurso aos drones, mostraram uma Luanda escancarada pelas águas pluviais que correram soltas pelas ruas, fazendo transbordar as valas de drenagem e bacias de retenção.
Para muitos luandenses, as chuvas já se tornaram num autêntico "fiscal de obras" que, ao contrário dos seres humanos, ela não se deixa corromper ou vergar ao peso do vil metal.
Há seis meses no cargo de governador de Luanda, Luís Nunes foi confrontado com a primeira chuva a sério, o que constitui o primeiro verdadeiro teste à sua governação em época chuvosa. Esta provou-lhe que Luanda não é uma "pera doce" e que não se compadece com meros exercícios de retórica ou promessas vãs.
A chuva, que caiu copiosamente sobre Luanda, desnudou as fragilidades das obras executadas no consulado de Manuel Homem, que governou Luanda de Setembro de 2022 a Outubro 2024, e teve sob gestão o maior orçamento destinado à cidade de cerca de 356 mil milhões de kwanzas (632,1 milhões de euros).
No começo do seu consulado, o então governador de Luanda revelou que, no espaço de três anos, seriam resolvidos os problemas de seis projectos de
macrodrenagem, que atravessam todos os municípios de Luanda, com o objectivo de levar as águas pluviais ao mar.
Segundo o governante, as valas do Senado da Câmara e do Curoca, que atravessam o Cazenga, Maianga, Ingombota e Benfica, iriam desaguarem no mar.
Numa entrevista à ANGOP, disse que "as águas, quer as que saem de Viana, quer as que vêm de Talatona e Kilamba-Kiaxi, possam a ser drenadas para o mar, a nível de Cacuaco ou Benfica. Esses projectos não valem tanto pelos números, mas pela dimensão e pelo impacto que têm. Vão, também, permitir a interligação de valas que deverão trazer as águas das grandes bacias até à rede de macro que está a ser projectada"
Manuel Homem não ficou por aqui: " Temos uma bacia, a título de exemplo, na zona do Kilamba, que, com esses planos, vai permitir escoar a água para as valas que dão acesso ao Benfica".
Manuel Homem não cumpriu os três anos de governação, visto que foi catapultado para o cargo de ministro de Interior, mas esperava-se que as obras feitas no seu reinado fossem melhores do que dos seus predecessores, uma vez que teve maior disponibilidade de recursos financeiros.
Quem observou as imagens dramáticas nas redes sociais dos acessos à centralidade do Kilamba, no mar em que se transformou algumas das suas ruas, pode concluir facilmente que as promessas do antigo governador de Luanda não passaram disso mesmo.
As inundações do "Kilamba", sobretudo a que deu origem ao denominado "rio Kero", convocam-nos para a avaliação da qualidade de obras feitas às pressas pelos chineses, sem a devida fiscalização, e que visou fins eleitoralistas ou de propaganda política.
O "Kilamba" foi, sem dúvida, uma das maiores obras públicas do eduardismo, com recurso ao crédito chinês. Não se sabe ao certo quanto custou aos cofres do Estado angolano, mas diz-se que terá engordado os bolsos de uns poucos "tubarões" afectos à SONIP, o antigo braço imobiliário da SONANGOL.
Num passado recente, foi um «cartão de visitas» que era dado a ver aos inúmeros estadistas africanos que, volta e meia, aportavam em Luanda e cá vinham enaltecer os feitos do "arquitecto da paz"...
Aos olhos dos governantes angolanos, era uma espécie de espelho de «boa governação» que deveria ser seguido pelos estadistas do continente, sobretudo os que pretendiam eternizar-se no poder.
Por detrás dessa ilha da opulência e vaidade escondiam aos olhos dos visitantes os mares de misérias dos musseques e bairros de lata dos descamisados e deserdados que viviam, ou vegetam com menos de dois dólares por dia.
O "Kilamba" é apenas uma das muitas obras públicas que não suportam as chuvas, cuja degradação precoce deveria servir de exemplo para a necessidade de melhorar os mecanismos de fiscalização das empreitadas do Estado.