A razão desse profundo incómodo é a pesada desconfiança que existe sobre a sua idoneidade para ocupar o cargo depois do que a oposição diz terem sido os diversos atropelos à lisura do processo eleitoral em 2022.
Segundo Ernesto Mulato, membro da Comissão Política Permanente da UNITA, é objectivo do partido no poder reconduzir o actual presidente da CNE e, com a ajuda dos tribunais, "manobrar os processos eleitorais que ocorrem em Angola a seu favor".
"É sabido que desde 2008 a nossa Lei eleitoral tem sido alvo de críticas de observadores que por aqui passam. Ocorre sempre um bálsamo a favor do MPLA. Há muito que se esperam correcções, mas estas são sempre nas próximas eleições, o que nunca ocorreu", disse ao Novo Jornal o também ex-vice-presidente da Assembleia Nacional.
Ernesto Mulato informou que o Grupo Parlamentar da UNITA está a trabalhar em projectos de leis inclusive, da Lei eleitoral, a Lei dos Partidos Políticos, para a sua "profunda" revisão.
"Neste momento há necessidade de se rever todo o processo eleitoral, o cadastro dos eleitores, a presidência da CNE e demais. Não queremos ter suspeitas no futuro", acrescentou.
O secretário-geral do PRS, Rui Malopa Miguel, que também defende a revisão "absoluta" da Lei Eleitoral em Angola, disse que o actual presidente da CNE e candidato ao segundo mandato, foi "duramente criticado" pelos partidos políticos e pela sociedade civil por causa do seu manifesto mau trabalho no processo eleitoral.
"Manuel Pereira da Silva carrega com ele uma nuvem negra devido ao seu desempenho nas eleições passadas. Nós, o PRS, estamos preocupados com a decisão do Conselho Superior da Magistratura Judicial que aprovou a sua candidatura", referiu.
O seu homologo do Bloco Democrático, Muata Sebastião, que esta também contra a decisão do Conselho Superior da Magistratura Judicial. que admitiu o antigo presidente da CNE a concorrer novamente ao cargo, antevê a "preparação de nova fraude" nas eleições de 2027.
"O Conselho Superior da Magistratura Judicial, ao aprovar Manuel Pereira da Silva, mostra que está contra a transparência dos processos eleitorais em Angola" referiu.
"Nós o Bloco Democrático estamos a trabalhar para que o mais rápido possível seja revista a Lei Eleitoral. A Lei Eleitoral está formatada para as vitorias do MPLA em todas as eleições", acrescentou.
O Presidente da CASA-CE (coligação extra-parlamentar), Manuel Fernandes, disse que o consulado de "Manico" esta maculado com "irregularidades sem precedentes", porque desde há muito tempo os partidos políticos e a sociedade civil vêem protestando contra a sua direcção.
"Se dependesse dos partidos políticos e da sociedade civil, `Manico', não deveria sequer terminar o seu mandato. Mas como é peça colocada pelo regime para manipular as eleições, mante-se no cargo até agora e vai, pelos vistos, continuar", lamentou.
De acordo com o líder da coligação que não conseguiu eleger deputados em 2022 (perdendo 16 conseguidos em 2017), os partidos políticos e a sociedade civil devem trabalhar "urgentemente" para a revisão do pacote eleitoral vigente.
"Sem uma profunda revisão desta Lei Eleitoral, vamos continuar a ter o MPLA no poder para sempre", concluiu.
O director executivo do Instituto Angolano de Sistemas Eleitorais e Democracia, Luís Jimbo, considera ser "boa pratica" fazer reformas eleitorais em cada ciclo eleitoral de cinco anos.
"A reforma eleitoral consiste em promover o debate das recomendações saídas das missões de observação eleitoral doméstica e internacionais dirigidas à CNE, ao Governo, ao Parlamento e aos tribunais, à sociedade civil e aos partidos políticos", disse.
Na sua opinião, o interesse de reformar a legislação eleitoral não é exclusivo aos partidos políticos, mas sim do interesse maior da sociedade civil e dos eleitores de quem precisam aumentar a confiança nas instituições públicas.
"A nossa instituição tem vindo a recomendar que a Lei Eleitoral defina e regule os centros de escrutínios províncias e nacional nos termos do artigo 117.° da Lei n º 36/11, de 21 de Dezembro - Lei Orgânica sobre as Eleições, de modos que sejam divulgados os resultados dos deputados eleitos nos seus respectivos círculos, ao invés num único centro de contagem", disse.
Alias, este ponto é dos que mais une a oposição contra a actual legislação eleitoral por não ser compreensível que o apuramento dos resultados nos diversos círculos seja feito apenas em Luanda, permitindo um vasto espaço de oportunidades para manipulação dos resultados.
Disse ainda que têm defendido e recomendado a alteração da Lei de Observação Eleitoral e anulação do regulamento da CNE que restringe o direito de participação política do cidadão e o direito das ONG participarem livremente na observação eleitoral.
"Os partidos políticos (da oposição) têm interesse na competição e têm reclamado sobre a imparcialidade e a independência da CNE nas suas deliberações favoráveis à maioria de comissários designados pelo partido no poder, segundo o princípio da maioria estabelecido na Lei", concluiu.