Em Moscovo, a partir do Kremlin, Vladimir Putin olha para oeste e vê que está muito perto de conseguir quase tudo o que disse serem as suas exigências para acabar com o conflito, não porque Kiev tenha capitulado, mas porque Donald Trump parece querer o mesmo.
Que a Ucrânia aceite a perda dos territórios anexados pelos russos, com ligeiras nuances, como, por exemplo, se serão os actualmente ocupados militarmente ou os limites geográficos das regiões agregadas à Federação Russa: Crimeia (2014), Kherson, Zaporizhia, Donetsk e Lugansk, em 2022.
É que dos cinco "oblasts", ou províncias, apenas Crimeia e Lugansk estão totalmente na posse dos russos, porque nas outras três, há largas áreas onde os ucranianos ainda resistem aos avanços russos, que, dia após dia, parecem mais eficazes na tomada de localidades.
E o problema para Moscovo é que Donald Trump se prepara para receber o Presidente ucraniano na Casa Branca, nos próximos dias, para assinar um acordo que vai permitir aos americanos explorar as jazidas de minérios ucranianos.
Sendo que o mapa das minas "ucranianas" indica claramente que a maior parte está nas zonas "russas" ou nas áreas da linha da frente para onde os russos procuram avançar de forma a fazer coincidir a sua ocupação militar com o mapa das anexações de 2022.
Como vai Trump negociar esta delicada situação com o seu "amigo" Putin, é a questão do milhão de dólares, porque, ainda esta semana, os EUA voltaram a colocar a assinatura de um acordo sobre direitos de exploração mineiros na Ucrânia como condição para o fim do conflito.
Se o acordo, do qual ainda não se conhecem os contornos, consubstanciar a atribuição aos EUA de direitos sobre minas nas áreas que os russos consideram como suas, e que coincidem com as mais ricas nestes recursos em toda a Ucrânia, então pode estar erguido um cenário de confronto de interesses entre Washington e Moscovo.
Sabendo disso, Vladimir Putin já veio dizer publicamente que a Rússia está disponível para negociar com os norte-americanos contratos de exploração de `terras raras' nos seus territórios, incluindo nas regiões anexadas no contexto do conflito e na geografia que não está em disputa nas trincheiras.
O desfecho deverá ser conhecida após o Presidente Volodymyr Zelensky se deslocar a Washington nos próximos dias para assinar o acordo, depois de ter recusado fazê-lo já poir duas vezes, exigindo garantias de segurança dos EUA para dar esse passo.
Com este acordo, Trump visa ser ressarcido dos 300 mil milhões USD já entregues a Kiev no âmbito do conflito no leste europeu, sem quaisquer garantias aos ucranianos, mas com a perspectiva de que Moscovo e Washington estão a negociar as condições para o fim das hostilidades.
Aparentemente, segundo Donald Trump, a Ucrânia e a União Europeia serão chamados à mesa das negociações quando russos e americanos tiverem definidos os princípios básicos do entendimento.
Outro assunto que Vladimir Putin exigiu, e o seu amigo americano consentiu, foi a garantia de neutralidade de Kiev, com a sua continuação fora da NATO, sem a presença de tropas ocidentais no território.
Esta exigência está a gerar algum ruído entre os europeus e os ucranianos, porque Zelensky já veio dizer que aceita manter a Ucrânia fora da NATO mas se obtiver garantias de segurança dos EUA e dos seus aliados europeus, com o envio de um contingente europeu para a linha da frente e a garantia de que a Ucrânia tem ajuda para formar um Exército de 1 milhão de soldados.
Vladimir Putin já disse ser inaceitável e o seu amigo americano concorda com ele, o que significa que, provavelmente, também aqui a Rússia terá o que pretende.
E a terceira vitória de Putin também parece estar substanciada nas declarações a esse respeito pelo Presidente norte-americano, que é o levantamento das sanções aplicadas à Rússia pelo ocidente ao longo dos três anos que passaram após a invasão russa, a 24 de Fevereiro de 2022.
Donald Trump admitiu, numa conferência de imprensa esta terça-feira, 25, que as sanções à Rússia deverão ser levantadas a determinada altura, remetendo também essa questão para o contexto das negociações para o fim da guerra.
Embota tenha dito que, para já, as sanções serão mantidas, admitiu que estas venham a desaparecer em breve de acordo com o evoluir das negociações com Moscovo e que esse momento pode ser aquando do seu esperado encontro com Putin, que deverá ocorrer no início ou meados de Março.
Os analistas sublinham que a questão das sanções foi, seguramente, um dos temas abordados na conversa telefónica de hora e meia que ambos mantiveram há duas semanas, e que o chefe do Kremlin dificilmente não terá já o mapa para o fim das sanções definido com o seu amigo americano.
Como cenário de fundo para estas vitórias de Putin garantidas pelo Presidente norte-americano no contexto das negociações para o fim das hostilidades, estão a garantia dada pelo inquilino da Casa Branca de que os EUA não estão actualmente a fornecer assistência militar a Kiev.
Trump garantiu ainda, na mesma conferência de imprensa, com o Presidente francês, Emmanuel Macron, ao lado, na Casa Branca, que eventuais "novos programas de assistência militar a Kiev só serão possíveis depois de os contribuintes americanos serem ressarcidos" de todo o dinheiro investido até agora no conflito com a Rússia e a Ucrânia.
Como alternativa, sugeriu que passem a ser os países europeus a financiar a guerra à Ucrânia e assumir muito mais responsabilidades nas garantias de segurança a Kiev.
A questão que persiste em não ter um esclarecimento cabal é o que pretende Donald Trump do seu amigo russo, Vladimir Putin?
A justificação repetida uma e outra vez por Trump é que é preciso acabar com a mortandade e a destruição gerada por esta guerra, mas os analistas notam que dificilmente será apenas isso, ou ainda a questão do equilíbrio dos mercados energéticos com o regresso do petróleo e gás russos aos mercados, questão essencial para baixar a inflação nos EUA, um dos objectivos reiterados pela Casa Branca.
Por detrás desta aproximação e cedência em toda a linha às exigências russas está, como admitem vários analistas, a tentativa de Washington obter em troca um afastamento gradual de Moscovo da China, com quem a Rússia tem uma parceria estratégica ilimitada e, no dizer do ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, "sólida como uma rocha".
Ora, esse objectivo de separar os dois gigantes asiáticos é fundamental para quando os EUA tiveram de enfrentar de forma mais dura a crescente influência económica e militar de Pequim em todo o mundo e, em especial, na estratégica e vasta região do Indo-Pacífico.
É que, como os estrategas norte-americanos já admitiram publicamente, mais cedo ou mais tarde, os EUA e a China vão ter de medir forças através de acções militares, limitadas ou abertamente.
E se os EUA ainda podem supor que sairão vencedores de um confronto com a China, graças à sua estimada superioridade militar e económica, tal cenário já não se coloca se Washington tiver de enfrentar a gigantesca capacidade industrial chinesa e a sua superior capacidade em número de soldados, aliada aos recursos infindáveis da Rússia e à sua provada capacidade tecnológica militar...
É por isso que alguns analistas chamam a atenção para um momento que pode ser perigoso para o mundo que é aquele em que, eventualmente, os norte-americanos perceberem que a parceria estratégica ilimitada entre Pequim e Moscovo é mesmo "sólida como uma rocha".