Isso foi o que o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, propôs, via Paquistão, aos americanos, na sua recente visita a Islamabad, acrescentando que os dois países se comprometem a resolver o outro problema, o programa nuclear iraniano, mais tarde.
"Eu não gosto da proposta iraniana", foi a resposta do Presidente dos EUA, retirando assim esta possibilidade para devolver a normalidade à economia mundial do centro da mesa, o que fez os mercados petrolíferos voltar a ter a seta para cima em direcção aos 110 USD por barril de Brent.
Os mercados acalmaram ligeiramente quando os media norte-americanos acrescentaram que, apesar de Trump não ter gostado da ideia iraniana, a sua equipa mais próxima está a estudá-la de modo a encontrar um ponto de apoio para encontrar uma solução.
Alguns analistas, como Jeffrey Sachs, um dos mais conceituados analistas na geoeconomia e professor da Universidade de Columbia, admitem que existe potencial nesta nova proposta de Teerão pela simples razão que é estar a ser oferecido a Trump o que Trump quer, na sua remodelada lista de exigências.
Que é, no essencial, conseguir do Irão o que os EUA já tiveram sem restrições antes desta nova fase de hostilidades, que era o Estreito de Ormuz sem restrições e o programa nuclear iraniano controlado e limitado pelo acordo de 2015 conseguido na Administração Obama, com europeus e a Rússia.
Nas próximas horas os analistas antecipam que podem surgir desenvolvimentos relevantes, mas, para já, os mercados ainda estão na fase da digestão da informação e o barril de Brent, a referência maior para as exportações angolanas, está a registar uma subida substantiva.
O Brent atingiu esta terça-feira, 28, os 111 USD, um valor que só compara com o 23 de Março último e depois é preciso recuar a Junho de 2022 para encontrar valor similar e, perto das 11:30, hora de Luanda, o barril valia 11,50 USD, uma subida de mais de 3%, reflectindo precisamente as dúvidas sobre o que pode acontecer nas próximas horas ou dia no Golfo Pérsico.
É que os analistas dos mercados estão cientes da periclitância do cenário actual, onde um reatar da guerra aparece no top 3 das possibilidades mais consentâneas com a realidade, como pode ser revisitado aqui.
Há dois meses que este conflito, nesta sua nova roupagem, dura, embora as hostilidades mais evidentes se tenham registado nas seis semanas após 28 de Fevereiro, dia do ataque ao Irão pela coligação israelo-americana, e até ao cessar-fogo vigente, com os mercados energéticos em bolandas.
E não é para menos, porque por Ormuz não passa apenas 20% do crude e do gás queimados diariamente pela economia planetária, por ali transitam ainda 30%, na forma de compostos vitais para fertilizantes, e 30% do hélio essencial para a indústria global de microchips, que começam a perturbar seriamente a vida de milhões de pessoas em todo o mundo.
Perante a imprevisibilidade deste contexto, como todos os países exportadores e com economias petrodependentes, Angola está numa natural expectativa para ver como correm os dias, ou horas, que se seguem.
Angola soma ganhos, mas...
O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 111, 5 USD, no vaso do Brent, perto de 51 USD acima do OGE do ano corrente.
O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.
