Mas pouco ou nada se tem falado disso porque estes efeitos estão, principalmente, concentrados nos países asiáticos mais pobres, no continente africano, ou nas ruas das cidades desorganizadas da América Latina... até agora.
Porque o efeito do estrangulamento do tráfego marítimo pelos Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo e do gás mundiais, o equivalente em compostos essenciais a 30% dos fertilizantes, e elementos vitais, como o hélio, para a indústria 2.0 dos microchips, está já a cravar-se no tecido económico dos Estados Unidos da América.
Curiosamente, a escassez de fertilizantes parece ser o efeito mais grave até agora nos EUA, mesmo que a inflação já esteja instalada no preço dos combustíveis e dos alimentos há semanas, e isso só emergiu agora da penumbra mediática porque uma aliada de peso do Presidente Donald Trump saiu à rua para falar deste problema.
Marjorie Taylor Green, activo essencial do movimento MAGA (Make America Great Again) que levou Trump de volta à Casa Branca, que se demitiu do Congresso em rota de colisão com o Presidente, mas mantendo-se uma voz activa nas bases, veio agora alertar para aquilo que os media mainstream têm evitado trazer para os seus espaços da frente.
Marjorie Taylor Greene, a former Trump ally turned critic, has taken to social media to condemn the war on Iran and the impact the conflict is having on US farmers, Al Jazeera reports.
Alguns jornais locais e canais das redes sociais há dias que referem uma avalanche de falências entre milhares de fazendeiros dos estados mais agrícolas dos Estados Unidos, porque não existem fertilizantes disponíveis ou não têm dinheiro para os comprar de forma a garantir a próxima colheita de que depende a sua sobrevivência económica.
E, para chamar a atenção sobre essa tragédia galopante entre uma das bases mais largas do tradicional apoio de Donald Trump, Marjorie Taylor Green escreveu no X que "um dia no futuro, os pais americanos terão de explicar aos seus filhos que foi por causa da guerra de Trump no Irão que as suas fazendas faliram por não poderem suportar os custos da actividade e dos fertilizantes".
Esta frase despertou uma boa parte dos media tradicionais nos EUA para um problema que já ali estava há semanas, quase tão flamejante como está a suceder na África, Ásia ou América, onde a falta de fertilizantes está, como adverte a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a condenar milhares de famílias à penúria alimentar nas próximas semanas.
Isto, porque só desta forma o espaço mediático norte-americano concluiu que 70% dos agricultores nos Estados Unidos estão à beira do colapso se a guerra não acabar e as cadeias de abastecimento não normalizarem depressa e os combustíveis baixarem de preço, pondo mesmo em risco a segurança alimentar de uma boa parte da população.
Ora, foi perante o surgimento desta situação dramática que a proposta iraniana para acabar com a guerra, que tinha sido rejeitada liminarmente por Donald Trump está agora a ser recuperada pela sua equipa, mesmo que o Presidente insista que não lhe serve como base de trabalho, mas sem desmentir que o documento está a ser revisitado.
O plano revisto pelo Irão, e que foi entregue ao Paquistão na recente visita a este país do ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, antes de seguir para a Rússia, onde está desde segunda-feira, 27, e que chegou a Washington via Islamabad, propõe uma solução para desencravar o processo negocial.
De acordo com a Al Jazeera, este plano contém como solução que EIUA e Irão deixem para uma nova fase a questão nuclear, visto que o impasse parece ter adquirido raízes profundas, e se concentre na abertura do Estreito de Ormuz.
Para isso, os iranianos, sublinhando que dessa forma, se levaria alívio urgentemente necessário á economia global, propõem que os EUA levantem o bloqueio naval ao Irão no Mar de Omã, contra garantias de que o Estreito de Ormuz volta a ser uma via navegável para todos.
Isso, embora em moldes diferentes dos vigentes antes deste conflito, com uma supervisão reconhecida sobre esta passagem vital para a economia mundial do Irão e de Omã, os dois países em cuja geografia marítima nacional está localizada.
Esta proposta era conhecida há alguns dias, mas foi liminarmente recusada por Trump, tendo os media abandonado o assunto logo a seguir, e só agora volta a ser tema porque jornais como The Guardian ou The New York Times o retomaram na perspectiva da sua revisitação pela equipa do Presidente norte-americano, e num contexto de claro agravamento das consequências globais das restrições impostas pelo Irão no Estreito de Ormuz.
Outra plataforma de pressão sobre Trump está localizada no Golfo Pérsico, onde os países árabes, os chamados petroEstados aliados dos EUA, e onde Washington tem dezenas de bases militares, o denominado Conselho dos Países do Golfo (GCC, na sigla inglesa), onde se destaca a Arábia Saudita, o Catar, Kuwait ou os Emiratos, estão à bera do estrangulamento económico devido a esta situação.
É que estes países vivem quase em exclusivo das suas exportações de energia ou derivados das matérias-primas do sector, gás e crude, mas também o hélio e os fertilizantes do Catar, que dependem do uso intensivo do gás natural, e com o Estreito de Ormuz encerrado, os seus rendimentos milionários estão praticamente a zero, com excepção dos sauditas, que têm um oleoduto que atravessa o país para a costa do Mar Vermelho e por onde escoam cerca de 20% da sua produção de petróleo.
Estes países marcaram uma reunião do GCC de urgência para Jeddah, cidade portuária saudita no Mar Vermelho, para esta terça-feira, 28, e com um único ponto na agenda: como conseguir convencer o Irão e os EUA a um entendimento que permita reabrir Ormuz e deixar que a vida, abundante de recursos, volte ao que era antes.
É que o aperto financeiro destas petro-monarquias não está a gerar apenas problemas de tesouraria, também sociais, porque as suas cidades se estão a esvaziar do estrangeiros ricos que ali procuravam refúgio nas suas legislações "adequadas", e expatriados que garantiam a área dos serviços técnicos, do imobiliário à banca, deixaram a região aos milhares com o início do conflito a 28 de Fevereiro, quando a coligação israelo-americana atacou o Irão.
Isto, num quadro de frenesi diplomático com o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, em Moscovo oude ouvir, de novo, o seu homólogo, Sergei Lavrov, e o Presidente Vladimir Puitn, a reiterarem-lhe o apoio sólido assente na parceria estratégica que a Rússia e o Irão têm há alguns anos já.
E, se, como tudo indica, a actual situação de cessar-fogo (ver aqui) for mesmo e apenas um intervalo para rearmar e voltar à guerra, o Irão sabe que conta também, além da Rússia, com a China, devido ao entrelaçar dos interesses geoestratégicos e geoeconómicos.
Outra nota curiosa marcada pelos analistas é a forma como, contrariando a realidade sobejamente conhecida, Donald Trump tem reafirmado, inclusive logo após o extraodinário episódio do Hotel Washington Hilton, no Sábado, 25, onde alegadamente foi alvo de uma tentativa de assassinato, quando, meia hora depois, friamente, disse que não está com pressa para terminar o conflito com o Irão.
O que serve de contexto para que tanto Araghchi, como o Presidente Massoud Pezeshkian, como as chefias militares iranianas da Guarda Revolucionária (IRGC), já terem avisado que não confiam em Trump e que se estão a preparar para que os EUA repitam a traição de Junho de 2025 e de 28 de Fevereiro, quando o país foi atacado pela coligação israelo-americana no meio de negociações oficiais sobre a forma de se chegar à paz.









