Miles Davis, provavelmente (não tenho certezas "absolutas..., porque, como ensinou Aldous Huxley "a vida é curta e o conhecimento ilimitado", é o criador musical que mais admiro, nasceu em 1926, como Coltrane, e ambos inauguraram, à sua maneira, revoluções que moldaram o Jazz moderno.
Celebrar Miles é lembrar que a genialidade pode ser economia - e elegância crua. A trajetória de Miles é feita de metamorfoses. Bebop jovem, som cool, o cool que parece mistério; depois o jazz modal de Kind of Blue, que se tornou sinônimo de horizonte; mais adiante, a "electricidade"de "Bitches Brew", que rasgou fronteiras e trouxe a cidade, a eletricidade, novos ruídos, foi quando Miles Davis "começou a tocar com a garotada" (1981-1991), como destacou numa análise notável, recheada de um humor fino como um cabelo, Luiz Fernando Veríssimo, que Deus tem.
Miles reinventa o presente como se tivesse sempre pressa - não de fugir, mas de antecipar.
Seria extremamente difícil encontrar, ao longo de um percurso de mais de quatro décadas de intensa actividade conceptual, outro músico que possa comparar-se a Miles, protagonista incontestado de praticamente todos os movimentos de renovação do Jazz moderno pós- 1945.
Os jazzófilos da minha geração (aqueles que já passaram a barreira dos 70 e têm horas quilométricas de audição desta música que se agarra à pele e à alma), conhecem uma história divertida. Miles Davis foi convidado para uma festa na Casa Branca em homenagem a Ray Charles. Nessa festa em honra do cantor, mas também ocasionalmente organista e saxofonista, de Albany, Georgia (oh! "Georgia on my mind") aborrecido e irritado com o que a mulher de um político dizia acerca do Jazz, Miles respondeu-lhe mal. E Miles foi sempre "cool" até ao fim, mas também era polémico, directo, provocador e algumas vezes agressivo (perguntem ao trompetista Winton Marsalis...o que lhe aconteceu quando, sem autorização do "Mais Velho" Miles, num concerto em Vancouver, Canadá, subiu ao palco para se associar à banda, ouviu imediatamente um estrondoso "venha amanhã!!!). Nessa festa, dizia, que várias Administrações organizavam com músicos e cantores de Jazz [Kennedy, que disse: "Dexter Gordon é o meu saxofonista tenor preferido", Reagan, Bush, Bill Clinton, que toca sax, e Barack Obama (presentemente há outras festas...com menos Jazz!!!). E agora termino a história: depois da resposta agressiva e pouco simpática do trompetista, a senhora contestou de forma pouco cordial. "E você, o que fez de tão importante na vida?". E Miles: "transformei a História do Jazz cinco ou seis vezes, acho que foi isso que fiz".
JOHN COLTRANE, o sábio
E agora mudo de tom e de harmonia, regresso a outro músico que também admiro, aliás, admiro tanto que lhe roubei o nome de um dos seus temas para baptizar a minha/ nossa filha ("é impossível ser feliz sozinho- Vinicius de Moraes dixit", com o título do seu tema: Naima, que significa para muitos orientais "presente de Deus".
O saxofonista John Coltrane, aquele que a maior parte dos críticos e amadores considera o génio do saxofone do século XX é, em meu entender, o sopro que atravessa o silêncio. Há um momento - raro e absoluto - em que o som deixa de ser apenas som e transforma-se em palavra sem língua, em mapa do tempo. Esse instante acontece quando o sax de John Coltrane arranca à matéria o que não pode ser dito de outra forma: o mistério, a urgência da busca, a fé transformada em notas. Nasceu num ano que já é memória, 1926, mas foi na respiração que Coltrane inventou o século XX para si e para nós; e agora, cem anos depois, celebramos não apenas o homem que segurou o sopro, mas a força que esse sopro revelou.
Coltrane- John William Coltrane- é considerado pela maior parte dos críticos o maior "jazzman" a seguir a Charlie Parker (1920-1955). Quando falo em mortes precoces no Jazz, penso imediatamente no saxofonista de Kansas City, que morreu de tudo, com a Billie Holiday. Tiveram vidas complicadas, curtas e difíceis, mas foram/ são geniais, como Coltrane e Miles. Já morreram, mas nascem todos os dias.
Coltrane nasceu a 23 de setembro de 1926 em Hamlet no Carolina do Norte.
É quase impossível, em breves linhas, abarcar os aspectos em que a personalidade e a obra de Coltrane se tornaram fundamentais num período muito movimentado da História do Jazz. Há um texto notável, quase insubstituível que Michel Jalard, no "Dossier Coltrane", que a Jazz Magazine nº 59 (já não existe esta revista mensal, que acompanhei com o Zan durante várias décadas, diz que a música do saxofonista e compositor era atormentada pela "obcessão do pleno". O elemento de base do discurso já não era a nota, mas a " superfície sonora" ou o "halo", isto é, segundo vários autores que se inspiraram todos em Jalard ( o muito prestigiado reputado académico, um especialista colossal em História do Jazz, que se dedica particularmente a Miles Davis e a John Coltrane é um deles), o "fluxo", a "bátega", a "enxurrada", o "dilúvio de notas".
John Coltrane (1926- 1967) também viveu pouco. É o artista/ criador excepcional que arrisca tudo para chegar ao núcleo do som. A sua música atravessou o bebop, o hard bop, o modalismo, e alcançou o limiar do espiritual; era como se cada solo fosse uma conversa com o invisível. Escutá-lo hoje é reencontrar uma promessa - a de que a intensidade da busca transforma o ouvido e o coração. A poética da sua arte vinha também do rigor. Diziam que ele praticava até à dor, que repetia escalas como quem ora. Essa disciplina não era mero exercício: era preparação para o encontro.
Coltrane explora emoção, espaço e repetição com enorme subtileza.
Atentemos: "John, quando tocas, para onde vai a tua respiração?" Diz Coltrane:" vou onde a verdade me chama. Toco para me entender - e, se possível, para entender o mundo."
MILES DAVIS este sempre milhas à frente
E agora Miles Davis. Miles, o teu silêncio é parte da música - porquê? Miles: "o silêncio dá espaço para a imaginação. Se eu encho tudo, não deixo nada para o outro completar". -
Qual a tua maior indagação musical?
"A verdade do momento. Não a que se repete, mas a que muda com cada respiração"
As relações de Miles com outros músicos foram tanto epicentro quanto periferia: ele puxava para dentro e também soltava para fora. Trabalhar com Gil Evans, Bill Evans, Coltrane, Herbie Hancock, Wayne Shorter, Chick Corea foi convocar diferentes colorações para um mesmo quadro. Miles era líder que aceitava a contradição!!!
As músicas destes dois músicos geniais persistem na memória como rasto luminoso. Em cada frase, uma pergunta; em cada resposta, outra viagem. E assim, cem anos depois dos seus nascimentos, a trompete de Miles e o sax de Coltrane ainda nos convidam a caminhar mais fundo.
P.S. Em 1955, em setembro, Miles Davis contacta John Coltrane para fazer parte de um quinteto cuja secção rítmica é composta pelo pianista Red Garland, pelo contrabaixista Paul Chambers e pelo seu amigo, o baterista Philly Joe Jones.
Que grupo revolucionário! E um dos mais prolíferos dos anos quarenta!
Até jazz: 100 anos de dois Gigantes - Paisagens sonoras de Miles Davis e John Coltrane
Neste mês de maio celebramos os centenários de dois nomes fundamentais do Jazz moderno: o saxofonista John Coltrane e o trompetista Miles Davis (1926- 2026).
