"África precisa de mais investimentos. Queremos ser parceiros em igualdade"; ou "nós queremos empresas francesas a investirem lado a lado com as empresas africanas"; "Há uma história positiva para construir. Vocês têm de construir a vossa história " e "Nós temos um destino comum" foram algumas das frases de Macron durante o encontro com jovens empreendedores africanos. Disse-lhes que a renovação das relações de França com o nosso continente será baseada em parcerias sólidas e estruturantes, com benefícios mútuos e com partilha de responsabilidade.
A escolha de um país anglófono como o Quénia é reveladora da necessidade que França teve de sair de algumas das suas zonas de conforto e influência para actuar (e não conquistar) noutros palcos. A experiência no Sahel deixou marcas e, sobretudo, uma necessidade de se reposicionar, de fazer menos política e mais negócios. De mudar o foco nas relações, de aprofundar mais e melhor o diálogo com a sociedade civil, de ouvir, trabalhar e apoiar os jovens. A escolha da Universidade de Nairobi para o início da cimeira e centro dos debates foi intencional, procurou levar o evento para um espaço de conhecimento científico, de pensamento crítico e de visão estratégica. Foi o de colocar os jovens como os verdadeiros actores da mudança e "future makers", ou seja, fazedores do futuro. A cultura, o desporto, a educação, a inovação tecnológica, a transição energética, a inteligência artificial, o empreendedorismo, o investimento financeiro e negócios, a agricultura e a segurança alimentar, entre outros, marcam esta nova abordagem no nosso continente.
A África Oriental e também a África Austral começam a ser espaços onde a França pretende actuar, que durante anos foi uma "África perdida", resultado de estratégias anteriores de marcar poder nas suas zonas de influência, os países francófonos. Mas, não deixa de ser outro grande desafio, pois a França vai ter de competir com países com maior influência nestas regiões e com maior capacidade de investimentos como a China.
Estive em Paris no ano passado, e, entre os franceses, há quem não concorde com a estratégia de Macron, que o critique e culpe pela "perda" do Sahel. Mas também entre os africanos há que diga que se trata apenas de um reposicionamento, uma estratégia para conquistar novas zonas de influência. Durante a realização desta cimeira, houve protestos em Nairobi contra a realização do evento no país e mesmo até o "ralhete" que Macron deu aos jovens que estavam a fazer barulho durante um evento serviu para alimentar discussões sobre a nova estratégia de França para África.
Macron é corajoso e determinado. Louvo-lhe a coragem que teve em saber o momento certo para recuar, reposicionar e romper com uma estratégia arcaica e que, na prática, estava falida e a falhar. Mas ele vai conseguir porque tem coragem, determinação, organização, visão e estratégia; porque tem também uma equipa que, a todos os níveis, está bem alinhada, focada e estruturada. Os africanos gostam e respeitam líderes que sabem reconhecer os seus erros, que têm a humildade e vontade de os corrigir e a sabedoria para mostrar caminhos e soluções. Macron é um deles e um dia os franceses saberão honrá-lo dignamente.