A participação do Japão, em 1992, na Missão de Verificação das Nações Unidas em Angola (UNAVEM II) constitui um marco emblemático dos esforços internacionais para a consolidação da paz. À luz do enquadramento jurídico interno então estabelecido para a cooperação internacional para a paz, tratou-se de uma das primeiras iniciativas do Japão nesse domínio e, também no contexto Japão-Angola, de um marco relevante. Posteriormente, a relação bilateral consolidou-se com o reforço da presença diplomática - incluindo a abertura da Embaixada de Angola em Tóquio em 2000 e, em 2005, a inauguração da Embaixada do Japão em Luanda - bem como com intercâmbios de alto nível, como a visita do então Presidente José Eduardo dos Santos ao Japão em 2001 e a visita da então Ministra dos Negócios Estrangeiros do Japão, Yoriko Kawaguchi, a Angola em 2002.
No quadro da segurança humana, a cooperação tem sido contínua e de longo prazo. No sector da saúde, o Japão tem apoiado, entre outros, o Hospital Josina Machel. Na área da desminagem, desde a década de 1990 o Japão tem prestado apoio por meio de financiamento a instituições governamentais e ONGs, de doação de equipamentos, de envio de especialistas e de acções de educação para redução de riscos, num total aproximado de 28 milhões de dólares ao longo de cerca de 30 anos.
Após o cessar-fogo de 2002, a cooperação alargou-se como apoio à reconstrução e à retoma da vida quotidiana, expandindo-se para áreas como educação, agricultura, infraestruturas e recursos minerais. Com base nesse desenvolvimento das relações bilaterais, a cooperação económica com Angola tem sido implementada por meio de uma combinação de modalidades, incluindo cooperação técnica e financeira não reembolsável através da JICA, apoio de base e doações de equipamentos pela Embaixada, bem como empréstimos em ienes. Como resultado acumulado, até ao ano fiscal de 2023, a cooperação japonesa com Angola totaliza: 236,40 mil milhões de ienes (empréstimos); 435,41 mil milhões de ienes (assistência não reembolsável); e 85,90 mil milhões de ienes (cooperação técnica).
Em 1993, num contexto em que, após o fim da Guerra Fria, a atenção internacional a África tendia a diminuir, o Japão lançou, de forma pioneira, a TICAD, desenvolvendo-a como um quadro multilateral assente nos princípios de "ownership" por parte de África e de "partnership" por parte da comunidade internacional. Desde a década de 2010, este quadro passou a dar maior ênfase ao crescimento impulsionado pela iniciativa privada, à melhoria do ambiente de investimento e à importância das infraestruturas. Esta evolução é simbolizada pelo projecto de desenvolvimento da Baía do Namibe: partindo de um projecto de cooperação financeira não reembolsável do Governo do Japão, o esforço foi posteriormente desenvolvido como iniciativa de parceria público-privada, com a participação de empresas japonesas e de instituições financeiras. Além disso, em 2023, por ocasião da visita do Presidente João Lourenço ao Japão, confirmou-se o acordo de princípio relativo ao Acordo de Investimento; posteriormente, o Acordo foi assinado aquando da visita a Angola do então Ministro da Economia, Comércio e Indústria do Japão, Yasutoshi Nishimura. O Acordo entrou em vigor em 2024, reforçando a base institucional que sustenta o aprofundamento das relações económicas.
A TICAD9, realizada em Yokohama, de 20 a 22 de Agosto do ano passado, aprofundou o debate sob o tema "Cocriar soluções inovadoras com África". O Presidente João Lourenço, na qualidade de Presidente em exercício da União Africana, co-presidiu a reunião com o então Primeiro-Ministro do Japão, Shigeru Ishiba, destacando, também no plano multilateral, a cooperação entre os dois países. No período em torno da TICAD9, no quadro da cooperação bilateral, avançaram apoios importantes para infraestruturas que contribuem para a diversificação económica. Em concreto, procedeu-se à troca de Notas relativa ao empréstimo em ienes "Projecto do Reforço dos Sistemas de Transmissão na Região Sul" (cerca de 270 milhões de dólares), bem como à cooperação financeira não reembolsável "Projecto de Desenvolvimento da Rede de Transmissão de Televisão Digital Terrestre" (cerca de 10,8 milhões de dólares) e "Projecto para a Melhoria da Infraestrutura Agrícola Sustentável para Pequenos Agricultores na Região ao Longo do Corredor do Lobito (em parceria com a UNOPS)" (cerca de 6,56 milhões de dólares). Em Outubro, realizou-se a cerimónia de conclusão do Projecto Integrado de Desenvolvimento da Baía do Namibe, com a participação do Presidente João Lourenço.
E, em 2026, ao assinalarmos os 50 anos do estabelecimento das relações diplomáticas, procuraremos alargar ainda mais a cooperação e os intercâmbios culturais e humanos, ao mesmo tempo que dinamizamos a interacção bilateral nos domínios político e económico, apoiando o investimento de empresas japonesas e o diálogo público-privado. Na Expo 2025 Osaka, Kansai, o Pavilhão de Angola recebeu cerca de 500 mil visitantes, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre Angola no Japão. O facto de o edifício ter sido distinguido com a "Medalha de Ouro" na categoria de design exterior de pavilhões modulares evidencia a presença e a criatividade que Angola apresentou ao Japão e parece-nos um símbolo que pode iluminar o futuro das relações entre os dois países. As relações diplomáticas não são uma competição de prémios; ainda assim, trabalhando lado a lado com o Governo e com o povo de Angola, gostaríamos de avançar rumo à nossa própria "Medalha de Ouro": uma parceria entre o Japão e Angola cada vez mais sólida e brilhante.n
*Embaixador extraordinário e plenipotenciário do japão na república de angola
(Nota) TICAD: Sigla de Tokyo International Conference on African Development (Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento Africano). Desde 1993, é liderada pelo Governo do Japão e coorganizada com a ONU, o PNUD, o Banco Mundial e a Comissão da União Africana. A TICAD9 teve lugar em Yokohama (20-22 de agosto de 2025), com a participação de 49 países africanos (33 ao nível de Chefes de Estado/Governo), além de organizações internacionais, empresas e sociedade civil.

