Cumprem-se nesta sexta-feira, 20, três semanas de um conflito iniciado pela coligação israelo-americana contra o Irão onde o plano inicial passava por provocar a queda do regime em menos de uma semana.
Contrariando os planos dos EUA e Israel, o que se está a ver é que a "guerra-relâmpago" que idealizaram é agora uma guerra de atrito sem fim à vista e de consequências impossíveis de prever, mesmo que os sinais de catástrofe económica global sejam já evidentes.
Além do pânico global, que resulta do encapsulamento de 20% do petróleo e do gás LNG no Estreito de Ormuz, que separa o Golfo Pérsico (historicamente visto como o poço de petróleo mundial) do Golfo de Omã (Oceano Índico), a coligação atacante mostra as primeiras fissuras.
Com o barril de crude a preços recorde, e o gás a subir ainda mais, hora a hora, os analistas foram lestos a exprimir a incapacidade para explicar o ataque, na quarta-feira, 18, ao maior campo de gás do mundo, South Pars, no Golfo Pérsico, partilhado pelo Irão e pelo Catar, que elevou ainda mais os preços das energia.
Este campo de gás, o maior do mundo, e que tem em reservas identificadas o suficiente para gerar gás suficiente para todo o planeta durante mais de uma década, foi pelos ares na parte que pertence ao Irão, o que, naturalmente, levou Teerão a ripostar contra o lado catari do mesmo "field".
Só que a grande surpresa viria logo a seguir, quando o Presidente norte-americano se mostrou publicamente surpreendido, numa publicação na sua rede social Social Truth, acusando Israel de ter feito o ataque a South Pars por sua iniciativa sem informar ou consultar o parceiro da coligação atacante.
Isto, numa altura em que as redes sociais fervilham com o inaudito caso da alegada morte de Benjamin Netanyhau, que nem as sucessivas aparições em público parecem estar a conseguir extinguir porque os "especialistas" encontram em todos esses vídeos indícios de manipulação através das ferramentas de Inteligência Artificial.
Como o Novo Jornal identificava logo a 28 de Fevereiro, o primeiro dia desta guerra que, alegadamente, segundo Trump, não deveria durar mais de uma semana, Israel e os EUA surgiram "juntos mas não misturados" porque Telavive chamou à sua operação militar "O Rugido do Leão" e Washington "Fúria Épica".
Mas as diferenças não se ficaram por aí. Porque logo nos primeiros dias, o argumentário norte-americano evoluiu da mudança de regime para a destruição do poder militar iraniano, especialmente impossibilitar que obtenha uma arma nuclear, coisa que Teerão sempre refutou.
Já em Telavive, o foco manteve-se inalterado na decapitação do regime, com evidente sucesso, porque as forças israelitas não liquidaram apenas o Líder Supremo Ali Khamenei no primeiro dia, com cerca de 40 chefes militares de topo, como nestas três semanas, já o fizeram em sucessivas ocasiões, sendo especialmente simbólico o assassinato de Ali Larijani, o secretário do Conselho Supremo de Segurança do Irão, e que era quem geria todas as camadas de gestão desta guerra.
Com a pressão económica a ressurgir a cada manhã que passa devido à subida persistente do preço da energia, gás e crude, nos mercados, na Casa Branca, Donald Trump mostra uma crescente inclinação para desbravar possíveis saídas para este conflito.
Desde logo apontar como certa a "destruição total" do poder militar iraniano, embora a realidade o desminta diariamente, devido às sucessivas vagas de misseis iraniano sobre Israel e as bases dos EUA nos países da região.
Além disso, Trump veio também dizer que Teerão "quer negociar" o fim dos ataques israelo-americanos, apesar de o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, garantir uma e outra vez que não há conversas para ter com os "agressores de uma guerra ilegal" excepto estes pararem os ataques e aceitaram indemnizar o Irão pelo crime que cometeram.
O que é totalmente inverso ao que é o discurso oficial em Israel, onde o Governo de Benjamin Netanyhau, quase sempre pela voz de Israel Katz, o ministro da Defesa, insiste que este conflito só terá fim com o desmantelamento total do regime iraniano dos aiatolas, admitindo que os assassinatos em Teerão vão continuar sem vacilar.
Todavia, esta exposição das diferenças cada vez mais evidentes de perspectiva sobre este conflito entre Washington e Telavive começa a fazer mossa, como se vê quando, na sua última e polémica aparição pública, Benjamin Netanyhau, ou quem fala por ele nas imagens de IA, vem contradizer Trump e garantir que EUA e Israel "sempre estiveram sintonizados sobre o racional desta guerra".
O líder do Governo israelita, respondeu ainda à avalanche de acusações, especialmente relevantes quando saem do interior da Administração Trump, e provocam demissões, como a de Joe Kent, um muito conhecido apoiante de primeira hora do Presidente dos EUA, do cargo de Director do Centro de Contraterrorismo Nacional, de que foi Telavive que empurrou Washington para esta guerra.
Disse a esse propósito Benjamim Netanyhau que tal possibilidade "nem sequer existe" porque, no que é um recurso óbvio ao que se sabe ser o "calcanhar de Aquiles" do Presidente norte-americano, que é o elogio flamejante à sua força e inteligência, o que gera evidentes suspeitas: "Ninguém acredita que é possível seja quem for dizer ao Presidente Trump o que é que ele deve fazer".
E, ainda na passada do elogio ruidoso e, suspeito, a Trump, Benjamin Netanyhau acrescentou que é do conhecimento geral que "o Presidente dos EUA age sempre de acordo com aquilo que entende ser o melhor para os Estados Unidos".
"Eu não enganei ninguém e não tive de convencer o Presidente Trump sobre a necessidade de prevenir que o Irão desenvolva o seu programa nuclear e seja capaz de lançar misseis nucleares sobre os EUA", disse Netanyhau, apesar de o Irão repetir vezes sem conta que não pretende adquirir tais capacidades.
Além de que o Irão demonstrou não querer obter armas atómicas por isso estar garantido no acordo nuclear de 2015, assinado pelo então Presidente Barack Obama, e que Donald Trump revogou unilateralmente em 2016, no início do seu primeiro mandato, numa decisão que também foi então apontada por muitos analistas como pressionada por Benjamin Netanyhau.
Apesar destes sinais de que esta é mais uma guerra que pode resvalar para outro conflito sem sim no Médio Oriente iniciado pelos EUA, e de o mundo estar atónito a olhar para a crescente crise económica global, o primeiro-ministro israelita veio mostrar que o pior ainda pode estar para chegar.
É que Benjamin Netanyhau defendeu na sua aparição de quinta-feira que pode estar para breve uma "invasão terrestre" do Irão, para aproveitar o facto de o regime iraniano "estar na sua fase mais fragilizada em muitos anos" e este ser "o momento mais oportuno para derrubar o poder em Teerão".
Além disso, Netanyhau notou que essa invasão terrestre pode mesmo estar já a ser preparada e que será uma operação conjunta entre israelitas e norte-americanos, envolvendo largos milhares de soldados.
Isto, tudo quando já existem de facto alguns sinais que apontam na direcção de que os 21 dias de sucessivos bombardeamentos sobre o Irão não tiveram o sucesso pensado inicialmente, podem "exigir" uma invasão terrestre, porque os EUA já fizeram deslocar um navio de desembarque anfíbio com quase 3 mil marines a bordo do Pacífico para o Médio Oriente.
E sobre este contexto acresce o anúncio do secretário da Guerra norte-americano, Pete Hegseth, de que foram pedidos ao Congresso mais 200 mil milhões de dólares para financiar a guerra contra o Irão.
Hegseth justificou assim este pedido bilionário de financiamento ao Congresso: "É preciso muito dinheiro para matar homens maus!".

