Com o ataque realizado no fim do dia de quarta-feira, 18, à parte iraniana do maior campo de gás do mundo, South Pars, na fronteira com o Catar, sendo partilhado pelos dois países, mas conhecido no país árabe como North Field, Israel conseguiu alargar o problema energético mundial do Estreito de Ormuz para todo o Golfo Pérsico.
E isso, porque Teerão rapidamente ripostou atacando a parte catari deste gigantesco campo de gás, bem como estruturas relevantes da indústria petrolífera saudita, dos Emiratos... tendo a Guarda Revolucionária, a força militar de elite do Irão, que gere o poder balístico do país, enviado alertas de evacuação para dezenas de áreas de interesse estratégico para o sector do oil & gas do Golfo Pérsico.
Isto, porque o Irão, no minuto seguinte, atacou a parte catari do campo de gás que ambos os países partilham, gerando um efeito na redução de gás disponível no mundo por longos meses, mesmo que o conflito termine hoje, mas também simbolicamente, através da maior bola de fogo capturada em imagens nos 20 dias que já tem esta guerra.
O Catar é o 2º maior produtor de gás do mundo, com 35% de quota, logo a seguir aos EUA, devido ao que produz através da indústria de fracking, não apenas muito mais caro, mas também muito mais poluente, e, por isso, evitado por muitos países, excepto quando não existe alternativa disponível, como é o caso desde que este conflito começou a 28 de Fevereiro.
É por esta razão que alguns analistas, como Anas Alhaji, economista-chefe da NGP Energy Capital Management, integrada num dos maiores grupos do mundo, e um dos mais conhecidos especialistas em mercados energéticos, têm estado a notar com estranheza que o Presidente dos EUA tem estado muito recatado nos comentários sobre a escalada vertiginosa dos preços da energia nos mercados internacionais.
O que significa que entre alguns analistas com créditos firmados, como Alhaji, se olha com estranheza para a forma como Donald Trump tem mantido uma postura ambígua sobre os preços da energia actuais, quando se conhece as suas reacções epidérmicas no passado.
Isto resulta de um entendimento que, se por um lado, a economia norte-americana se ressente da inflação gerada por esta alta do crude e do gás, a indústria extractiva, especialmente a complexa e cara indústria do fracking, atravessa um momento de extraordinário fôlego devido ao seu elevado "breakeven" e isso é um "bónus" para alguns dos seus maiores financiadores da campanha eleitoral, a quem prometeu publicamente apoiar, no exercício do cargo, sem limites nem políticos nem financeiros.
Mas há limites para a gestão que Trump pode fazer deste cenário, porque com o barril em alta, e quando se sabe que nos EUA o preço da gasolina nas bombas tem uma ligação directa e imediata aos resultados eleitorais dos candidatos incumbentes, as eleições intercalares de Novembro deste ano podem obrigá-lo a repensar a estratégia.
Isto, porque se perder a maioria que possui no Congresso, ficará exposto, como o próprio admitiu já, a um processo de destituição pelos Democratas, e aos efeitos abrasivos do escândalo de pedofilia global que está contido nos Ficheiros Epstein.
Ora, no contexto da montanha russa dos mercados energéticos este dado é relevante porque os mercados estão, segundo alguns analistas, a descontar o facto de ser expectável que Donald Trump e a sua Administração tenha um prazo curto para agir no sentido de acabar com a guerra, sendo por isso que o barril, apesar de estar em preços recorde de anos, não estar mais próximo dos 200 USD, como seria de esperar.
Ainda assim, com o Estreito de Ormuz, o canal de ligação entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, por onde passam 20% do crude e do gás mundiais, e agora com bolas de fogo a sair dos campos de gás e de petróleo dos petropaíses da região, o barril de Brent estava esta quinta-feira, 19, perto das 09:15, hora de Luanda, a valer 114.3 USD, mais 6,13% que no fecho anterior. O gás está a subir mais de 25%.
Além de ser contrário aos seus interesses eleitotais manter o Golfo Pérsico a arder, Donald Trump parece estar a ter dificuldades em gerir os problemas internos na sua Administração, desde logo com a diluição da sua base eleitoral, MAGA - Make America Great Again, o que o levou a vir a público fazer um pedido de contenção a Israel e ao Irão no que diz respeito aos ataques à infra-estrutura energética da região.
O que, sendo um dos protagonistas maiores, integrando a coligação atacante com Israel, desta guerra (ver links em baixo), não deixa de ser um pedido visto com estranheza pelos analistas, porque se sabe que sem os EUA, Telavive deixa de poder ter poder de fogo para persistir nos ataques ao Irão, como, de resto, já lhe foi dito quando os israelitas se começam a queixar de falta dos misseis norte-americanos nos seus paióis.
E isto, quando, contrariando todas as expectativas manifestadas em público pela coligação israelo-americana, o Irão não apenas mostra capacidade para manter a chuva de misseis sobre Israel e sobre os países com bases dos EUA nos seus territórios, como apresenta potencial real de aumentar essa cadência destrutiva através dos seus sofisticados misseis balísticos hipersónicos e drones de última geração.
O que não se comparando com o poder de fogo demonstrado por Telavive e Washington, muito maior e mais letal, com milhares de mortes no Irão, incluindo dezenas de chefias de todo no regime, embora em Israel a férrea censura impeça conhecer a realidade, permite perceber que sem uma solução política, esta guerra está para dar e durar.
O que faz com que Angola, um dos países produtores de crude, e também de gás LNG, seja um espectador entre os mais atentos em todo o mundo para o que está a acontecer no Médio Oriente.
Angola soma ganhos, mas...
O actual cenário internacional tende a manter os preços muito acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 114 USD, 55 USD acima do OGE do ano corrente.
O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.
















