O Presidente norte-americano também repetiu a sua versão dos acontecimentos no campo de batalha, anunciando que os EUA destruíram a marinha, a força aérea do Irão e deixaram os seus sistemas de misseis muito debilitados.

Com este discurso, Donald Trump procura convencer a sua massa de apoiantes, denominada MAGA (Make America Great Again), que que o Irão está de joelhos perante ele e que o acordo que está a ser negociado é apenas uma processo burocrático para a capitulação de Teerão.

Com isso, sabendo que entre a sua base de apoio eleitoral, a sua palavra é que conta, independentemente dos factos, Donald Trump está a preparar a campanha eleitoral para as eleições intercalares de Novembro.

E esse pode ser um dos momentos mais importantes da sua carreira política, porque, como todas as sondagens apontam, o seu Partido Republicano está à beira de perder as maiorias que tem no Congresso, no Senado e na Câmara dos Representantes.

Se Trump não conseguir inverter este quadro de iminente derrota, como a oposição democrata já anunciou repetidamente, será aberto contra ele um processo de destituição (Impeachment) assente em razões como a sua intervenção para manter os Ficheiros Epstein - o maior escândalo internacional de pedofilia - longe do público no essencial, porque o seu nome é neles citado largas centenas de vezes.

Outro ponto que ameaça Trump de destituição é o facto de ter lançado, contra o que a Constituição impõe, a guerra contra o Irão sem informar e consultar o Congresso, fazendo disso alarde ao dizer que a sua decisão se sobrepõe a esse procedimento legal.

Mas as coisas não estão a correr bem para Donald Trump, porque, apesar de muito aplaudido pela sua massa de apoiantes mais leais, nas últimas horas, mesmo contando com uma maioria absoluta no Senado, a câmara alta do Congresso votou uma moção contra a guerra com o Irão.

Esta votação, que enfureceu Trump e o levou ás redes sociais criticando ferozmente o Senado e o seu partido, não tem, no entanto, uma dimensão vinculativa, sendo meramente simbólica, mas demonstra que os republicanos não querem mais os EUA em guerra...

Alias, este sinal dado pelo Senado vem mostrar que a crescente vaga contestatãria de nomes sonantes do movimento MAGA, com o mais famoso deles todos, Tucker Carlson, antigo pivot da Fox News, a dizer que se não mudar de rumo, Trump vai levar o Partido Republicano a uma derrota histórica.

Todavia, o Presidente norte-americano parece ter percebido o risco e este processo negocial com o Irão vem dar força a essa possibilidade, porque os EUA estão a sair do conflito claramente na posição de derrotados, mesmo que Trump diga o contrário repetidamente.

Alias, o Presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, que lidera a delegação de Teerão, não teve qualquer receio em vir a publico defender que o Memorando de Entendimento em fase de negociação (MeD) é a "declaração de derrota dos norte-americanos".

Isto, quando a generalidade dos analistas militares coincidem quase sem excepção, sendo esta reservada para os mais caninamente fieis a Washington, que o Irão ganhou sem dúvidas este conflito militar.

Isso, porque o seu sistema de misseis balísticos hipersónicos se mantém quase intocado, ao contrário do que diz Trump, sendo essa a garantia soberana de dissuasão de Teerão e, por isso, inegociáveis.

O Presidente iraniano, Massoud Pezeshkian disse mesmo que sem essa capacidade dissuasora dos seus sistemas de misseis avançados, o Irão "estaria hoje como está Gaza, totalmente destruído".

Outra garantia que o Irão tem de que sai por cima nesta contenda é o Estreito de Ormuz, que voltou a ser aberto mas sob garantia de que Teerão terá o domínio da sua gestão, com a cobrança de "selos" de protecção ambiental, por exemplo.

E ainda o programa nuclear iraniano, que, embora esteja ainda em cima da mesa, Teerão só admite ceder no capitulo da produção de armas nucleares, mas não cedendo na sua futura utilização para fins civis soberanos.

Ora, estes dois pontos são o Alfa e o Omega da declaração de vitória de Donald Trump, mas claramente falaciosa, porque antes do início da guerra, a 28 de Fevereiro, lançada pela coligação israelo-americana, Ormuz estava aberto sem condicionantes e o seu programa nuclear nunca teve objectivo militar.

Porém, neste ponto reside o actual estrangulamento nas negociações, sendo mesmo o "Esteito de Ormuz" em cima da mesa de trabalho, porque os americanos já vieram garantir que a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) vai voltar a ter inspectores no terreno e Teerão já disse que não é verdade.

Todavia, o mais provável é que Teerão apenas esteja a querer controlar a narrativa mediática, porque a própria Agência já avançou a mesma informação dos americanos, o que também não será uma gigantesca vitória de Trump.

É que os inspectores da AIEA já eram parte da paisagem nos centros de pesquisa nuclear iranianos até 2018, devido ao acordo nuclear assinado pelo Presidente Barack Obama, em 2015, que foi anulado unilateralmente no primeiro mandato do actual Presidente.

Embora as negociações se vão prolongar pelos próximos 60 dias, o mundo claramente respira de alívio, especialmente a economia global, porque a energia, petróleo e gás, estão a voltar para valores de mercado semelhantes ao que se verificavam antes de 28 de Fevereiro.

O grande ponto de interrogação neste momento é se não se estará perante mais uma encenação israelo-americana para controlar os mercados, ajudar a economia e salvar Trump de uma derrota catastrófica nas eleições intercalares de Novembro.

É que se, como as sondagens indicam em grande maioria, o Partido Republicano perder as maiorias nas duas câmaras do Congresso, Senado e Representantes, Donald Trump será de imediato alvo de processos sucessivos de destituição, além de que a segunda metade do seu mandato será marcado pelas dificuldades de governação face a um Congresso hostil.