Os cinco detidos na estranha operação policial desencadeada na madrugada de Domingo são todos de nacionalidade britânica e residentes em Londres, além de serem todos caucasianos, o que, pelo menos afasta uma relação sanguínea com o Irão.
A operação policial foi desencadeada após uma habitante da aldeia de Fairford ter ligado para a polícia a avisar sobre a presença de três carrinhas brancas, todas iguais, a bloquear a estrada rural para a pequena localidade na região de Gloucestershire, a escassos quilómetros da base aérea da Força Aérea britânica.
Apesar de terem sido detidos ao abrigo da secção sobre a posse de explosivos da Lei do Terrorismo, os cinco homens não foram detidos sob acusação conhecida, antes de forma preventiva para permitir posteriores tramitações legais e no âmbito da investigação, por 48 horas.
Sabe-se apenas que fontes policiais não identificadas e citadas pelos media britânicos referem que nos veículos foram encontrados vários tipos de materiais, incluindo elementos de uso militar, quando em Teerão já foi refutada qualquer ligação a este episódio, do qual o Irão se distancia de forma veemente e incómoda pelas referências que correm nos media ocidentais.
A embaixada iraniana em Londres refere-se a essas ligações nos media como "especulações maliciosas e sem fundamento" e considera que visam iludir os factos que são o ataque ilegal e não provocado dos EUA e de Israel contra o Irão, servindo apenas o "propósito de incitar à iranofobia e à propaganda anti-iraniana na Europa".
Apesar da estranheza da situação, com cinco indivíduos a conduzirem três veículos de carga ligeiros, todos brancos, para uma estrada rural, que bloquearam pela forma com que dispuseram as carrinhas, num claro exemplo de amadorismo considerando o risco de alguém alertar a polícia, as autoridades britânicas falam de uma "operação altamente complexa".
A vice-chefe da secção de Contraterrorismo da polícia, Vicky Evans, citada pelo Guardian, sublinha tratar-se de "uma enorme e complexa operação de larga escala" que envolve policiais de vários países.
Porém, como já foi notado por alguns analistas, a facilidade com que os indivíduos foram detidos pela polícia local, a estranha disposição das carrinhas, bloqueando uma estrada pública, todas brancas, para facilitar serem vistas de noite, aponta para um amadorismo pouco conciliável com uma operação "altamente complexa" como referem as autoridades.
Ciente de que estes dados geram especulação sobre os motivos dos agora detidos, todos jovens na casa dos 20 anos, residentes em Londres e de famílias tipicamente inglesas, Vicky Evans acrescenta que só a peritagem policial poderá explicar e contextualizar o que se passa do ponto de vista geopolítico.
Porque, como notam a BBC, a Sky News ou The Telegraph, as autoridades policiais estão na senda da ligação entre este episódio e o Irão, visto que a base da Fairford, apesar de pertencer à Força Aérea do Reino Unido é usada amiúde pelos bombardeiros norte-americanos que realizam operações no Médio Oriente.
Mas, se se observar com minúcia a comunicação da polícia britânica sobre este episódio, embora não exclua essa possibilidade, um ataque terrorista com este enquadramento está longe de ser assumido como a única linha da investigação em curso.
Até porque, mesmo que a situação seja potencialmente catastrófica, a descrição dos factos até agora conhecidos, deixam mais dúvidas que certezas sobre o que realmente estava a acontecer na altura das detenções.
Entretanto, as autoridades britânicas enviaram para o local dezenas de meios, incluindo robôs para detonar explosivos à distância, o que ainda não aconteceu mais de 24 horas após o incidente, e quase 100 habitações foram evacuadas das localidades em redor da base, sendo que esta também observou alteração de funcionamento.
A ligação iraniana a este episódio não pode ser afastada totalmente porque a própria Guarda Revolucionária do Irão (IRGC), ao longo destes meses de guerra, fez declarações públicas admitindo poder estar a planear operações no estrangeiro para se proteger dos ataques norte-americanos em casa, tendo mesmo referido nominalmente Fairford devido ao seu uso pelos EUA para lançar ataques ao Irão.
E o assunto ganhou tracção com o Presidente dos EUA, Donald Trump, numa declaração pouco consistente, onde disse que não sabia bem que polícias estiveram envolvidas nas investigações, mas garantiu que Washington estava a par de tudo e contribuiu para o desmantelamento deste "célula".
E também Londres, segundo The Guardian, estava a seguir com atenção estes indivíduos, no âmbito de um trabalho de intelligentsia visando impedir um ataque à base aérea da RAF em Fairford.
Mas, com a recorrência com que em território europeu se têm visto as famosas "operações de falsa bandeira", em que uma das partes em conflito monta acontecimentos para poder acusar o adversário, esta emerge igualmente como potencialmente ser um desses cenários.
O mais recente, e mais mediático, foi o que teve lugar no aeroporto de Leipzig, na Alemanha, a algumas semanas, antes das eleições regionais em duas regiões alemãs, quando o Governo do chanceler Friedrich Merz acusou a Rússia de ter tentado fazer explodir um drone contra um avião de carga ucraniano estacionado naquele aeroporto.
Essas imputações nunca foram provadas e, depois de páginas e ecrãs inundados por este assunto nos media ocidentais, passadas as eleições, onde a CDU de Merz foi historicamente derrotada e humilhada pelo partido fascista Alternativa para a Alemanha (AfD), a polícia não voltou a falar do assunto e este esfumou-se totalmente do espaço mediático.

