É por isso que, neste Dia Mundial da Contracepção, há uma mensagem que precisa de chegar a todas as famílias angolanas: a mulher que usa pílula, injecção, implante ou mola (DIU) pode ter filhos depois de parar o método.
Parece simples, mas não é o que muitos ouvem. Nas nossas casas, nos mercados e nos grupos de WhatsApp circula muitas vezes a ideia contrária: quem usa contraceptivo agora não vai conseguir engravidar mais tarde. Este mito leva algumas mulheres a não utilizar métodos contraceptivos modernos e, em alguns casos, pode contribuir para situações que colocam a sua saúde e a sua vida em risco.
Esses riscos são concretos. Engravidar muito cedo, ainda na adolescência, ou ter gravidezes muito próximas umas das outras pode aumentar os riscos para a saúde da mulher e do bebé. Entre um parto e outro, o corpo precisa de tempo para se recuperar. Em Angola, segundo o IIMS 2023-2024, morrem cerca de 170 mulheres por cada 100 mil nados-vivos durante a gravidez, no parto ou nas semanas seguintes.
A boa notícia é que a ciência desmente o mito. Está amplamente testado e comprovado que a pílula não impede uma gravidez futura: a mulher pode engravidar pouco tempo depois de parar. Com o implante e o DIU acontece o mesmo, porque a fertilidade volta rapidamente quando são retirados. No caso da injecção, a famosa "pica", a fertilidade volta depois de terminar o efeito da última dose.
Só a laqueação e a vasectomia funcionam de forma diferente. São definitivas e destinam-se a quem já decidiu, de forma livre e informada, não ter mais filhos.
Desfazer os mitos, porém, é metade do caminho. A mulher precisa de encontrar o método que escolheu no posto de saúde, na cidade e no campo. Hoje, apenas 8 em cada 100 mulheres em união nas zonas rurais usam contraceptivo. Nas zonas urbanas, o número sobe para 23. Reduzir esta diferença exige stocks regulares, mais variedade de métodos e enfermeiros preparados para explicar cada um deles.
Os dados mostram que é possível avançar. Entre os inquéritos IIMS 2015-2016 e 2023-2024, a fecundidade das adolescentes dos 15 aos 19 anos baixou de 163 para 122 nascimentos por cada 1000 raparigas. No mesmo período, o número médio de filhos por mulher desceu de 6,2 para 4,8. É um avanço alinhado com a prioridade do Plano de Desenvolvimento Nacional 2023-2027 de ajustar a dinâmica demográfica ao potencial económico do país.
Para manter este caminho, os métodos têm de chegar às unidades de saúde sem interrupções. Foi nesse sentido que, em Março deste ano, o Ministério da Saúde, com o apoio do UNFPA, estimou as necessidades de contraceptivos modernos para 2026 e projectou as de 2027 e 2028, iniciando um processo de aquisição. Este exercício permite planear a compra de pílulas, injectáveis, implantes e preservativos e evitar rupturas de stock. Saudamos esta iniciativa, que promete levar mais métodos às unidades de saúde de todo o país.
No fim de contas, o contraceptivo não tira à mulher a possibilidade de ser mãe. Dá-lhe autonomia para escolher o momento certo: depois de terminar os estudos, quando tiver trabalho, quando o corpo estiver preparado. Cada mulher deve poder dizer sim, não ou ainda não.
Em caso de dúvida, vá ao centro de saúde mais próximo e pergunte. Informação correcta protege mais do que qualquer boato.
Marina Coelho* Representante Assistente do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) em Angola, também conhecido como a Agência das Nações Unidas para a Saúde Sexual e Reprodutiva. Presta apoio técnico ao Governo de Angola em saúde sexual e reprodutiva, planeamento familiar e educação sexual para adolescentes e jovens.
