Reabrir este estratégico ponto de passagem entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, por onde, em tempo de paz, passam 20% do petróleo e do gás mundiais, é o mais repetido objectivo do Presidente Donald Trump e é isso que o "inimigo" foi propor aos EUA.
A proposta entregue aos norte-americanos pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, em Nova Iorque, garante a abertura de Ormuz pelo Irão em apenas sete dias, mas tamanho sucesso para Washington vem com um preço pendurado.
É que o que o Irão está a dizer a Donald Trump é que pode contar com o crude e o gás (LNG) a fluir de novo dos petroEstados do Golfo Pérsico para o mundo no prazp de uma semana se os EUA pagarem esse "favor" com um conjunto de medidas imediatas.
Entre essas medidas estão nada mais nada menos que o grosso das medidas inseridas nos 14 pontos do Memorando de Entendimento (MdE) que EUA e Irão assinaram em 15 de Junho e que deveria ser implementado em 60 dias, prazo em que a guerra estaria "fechada".
Levantar o bloqueio dos EUA aos portos iranianos, devolver os activos financeiros congelados no estrangeiros há décadas - algumas fontes apontam para até 120 mil milhões USD -, eliminar as sanções comerciais e sobre o petróleo, incluindo as da ONU, e, entre outras, acabar com a guerra em todas as suas frentes, incluindo no Líbano e o Iémen, onde Israel prossegue uma invasão do sul deste país há longos meses.
Depois de conhecerem o conteúdo da proposta do Irão, que tem duas singularidades, sendo a primeira o facto de todos estes pontos já terem sido aprovados por Donald Trump no MdE de Junho deste ano, do qual os EUA saíram unilateralmente, e a procura de condensar os 60 dias do "Memorando" em apenas sete agora.
A isto, os EUA não disseram que não... nem que sim. Um porta-voz sénior do Departamento de Estado, Tommy Pigott, disse à Al Jazeera que a Casa Branca não tem pressa em responder a esta proposta iraniana "porque o Presidente tem todas as cartas não mão" e há notícias por confirmar de que Donald Trump se prepara para anunciar uma recusa liminar desta proposta, assumindo o ónus dessa decisão num momento em que a economia mundial asfixia sob o peso das restrições energéticas geradas pelos conflitos em curso.
O que é o mesmo que dizer que os EUA entendem que esta proposta iraniana, levada para Nova Iorque pela comitiva do próprio Presidente, é uma demonstração de fraqueza, e que se está perante um iminente colapso da estrutura de poder em Teerão, como apontam vários analistas.
Outros analistas, menos impressionáveis pela retórica norte-americana, notam que o Irão condensou os 60 dias do Memorando de Entendimento em sete dias, proporcionando a Donald Trump uma saída airosa deste conflito, porque Teerão levou essa proposta de paz à casa do "inimigo", e tal "oferta" acontece a escassas semanas das eleições intercalares de Novembro nos EUA...
... onde o Partido Republicano de Trump está prestes a sofrer uma histórica e pesada derrota, de acordo com todas as sondagens, e quando a guerra com o Irão, ao contrário do que este insiste em afirmar, elemento inclusive sublinhado por analistas pró-Ocidente, está a ser uma catástrofe para os EUA e pode levar à perda das duas câmaras do Congresso.
O que o Irão oferece a Donald Trump é poder vir a público gritar vitória, alegando que o "inimigo" lhe foi oferecer a vitória a sua casa, e poder assim ir a tempo de tentar, pelo menos, salvar a honra nas eleições intercalares de Novembro de forma a poder manter o Senado na posse dos Republicanos, porque a câmara dos Representantes deve estar já perdida para a oposição Democrata.
Até o facto de a Administração Trump ter vindo dizer que não tem pressa em responder, sem ignorar a proposta, e quando se sabe que o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, ao contrário da restante comitiva, não regressou de imediato a Teerão, mostra que algo de novo pode estar a emergir.
Para já, sabe-se, as conversas entre os iranianos e os norte-americanos decorrem sob intermediação do Catar, mas existe uma forte possibilidade de Araghchi ter ficado em Nova Iorque para, nos próximos dias, se sentar à mesa com a parte americano, se não com o seu homólogo Marco Rubio, secretário de Estado, com os dois enviados especiais de Trump, que são Jared Kushner e Steve Witkoff.
Além de ser evidente que esta proposta tornada pública este Sábado ser uma cópia "apressada" do MdE, o que mostra que o Irão apenas está a jogar com as fragilidades do "inimigo" geradas pelo calendário eleitoral dos EUA, e não a ceder em pontos fundamentais, Araghchi avisou que o Irão "jamais se deixará pressionar" ou cederá na "defesas dos seus interesses soberanos".
A vantagem iraniana neste momento é o impacto que a limitação impactante do tráfego marítimo em Ormuz nestes quase sete meses, e agora, nas últimas semanas, no Estreito de Baba al-Mandeb, que liga o Mar vermelho/Canal do Suez ao Oceano Índico, devido ao conflito reatado entre a AnsarAllah, do Iémen, e a Arábia Saudita, na economia global e, especialmente, na dos EUA.
Apesar de os EUA serem grandes produtores de crude e gás, o facto de estes conflitos no Médio Oriente, a que se cola com ruído intenso, a da Ucrânia, os combustíveis, gasóleo e gasolina, estão a bater recordes históricos, com o galão (3,78 litros) estar a custar até 10 USD, valor nunca visto neste país, onde o custo da gasolina decide mais eleições que o preço do pão e o emprego.
Talvez por isso, e olhando +para as sondagens, que maltratam como nunca o Partido Republicano e lhe dão taxas de popularidades - menos de 30% - igualmente recorde, muito abaixo dos mínimos atingidos por Joe Biden, que já eram um descalabro de popularidade, Donald Trump elogiou por várias vezes as conversas que estavam a decorrer entre americanos e iranianos na sede da ONU.
E há uma coisa que Donald Trump sabe, porque Abbas Aragchi lho disse em Nova Iorque, onde o Presidente dos EUA tem o seu "castelo" privado mais antigo: "Os dados estão lançados e cabe aos Estados Unidos da América mostrarem o que querem".
Nas escassas horas em que os mercados petrolíferos estiveram abertos na sexta-feira, 24, após este emolduramento positivo das "negociações" EUA/Irão através do Catar, o barril de Brent, que serve de principal referência para as exportações angolanas, passou de quase 108 USD para pouco mais de 104 USD.
Com o actual desenrolar das conversas entre Washington e Teerão, é de esperar que na segunda-feira o petróleo volte a escorregar com estrondo, mas será preciso ver como se comporta Trump, que acaba de se despedir do Presidente da China, Xi Jinping, que esteve nos EUA para uma visita de 72 horas, onde os analistas viram mais pompa que resultados, mas que pode ter sido fundamental para dar um rumo positivo aos conflitos no Médio Oriente.









