O Presidente norte-americano apontou para as 15:00, hora de Luanda (14:00 GMT), o início do bloqueio naval ao Irão, o que se traduz, como o próprio explicou na sua rede social Truth Social, no impedimento de trânsito de todos os navios com destino aos portos iranianos ou oriundos da costa iraniana, e, ao mesmo tempo, anunciou que não descarta a possibilidade de novos ataques ao Irão nos próximos dias.
Com este anúncio, Donald Trump conseguiu duplicar as restrições no trânsito marítimo pela Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, por onde passam 20% do crude e do gás mundiais, e no qual o Irão já tinha imposto um controlo férreo deixando apenas passar embarcações que tivessem um acordo prévio com Teerão.
Esta medida, que, como os analistas já tinham alertado no Domingo, assim que foi anunciada, iria impactar fortemente os mercados energéticos e a economia mundial, está a incendiar o preço do barril de petróleo e também do gás (LNG), voltando a desestabilizar a economia mundial.
Isto, quando os mercados, como se viu na descida abrupta no barril de crude na semana passada, com uma queda histórica de mais de 35 anos, passando de 115 USD para pouco mais de 90 USD em apenas duas horas, logo após o anúncio do cessar-fogo, esperavam um período sólido de normalização.
Todavia, como fez questão de sublinhar Larry Johnson, antigo analista da CIA, em vários podcasts, Trump tem agora um problema, que é lidar com a ameaça conhecida da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) sobre os navios de guerra norte-americanos que se aproximarem da costa do Estreito de Ormuz.
É que, aponta este antigo analista da intelligentsia norte-americana, "a única forma de os EUA garantirem o bloqueio naval ao Irão é colocar navios de guerra nas proximidades" desta ligação marítima, o que os deixa claramente vulneráveis aos misseis anti-navio da IRGC.
Isto, quando a IRGC, já nesta segunda-feira, 13, emitiu um comunicado, citado por The Guardian, onde adverte que a aproximação de navios da marinha dos EUA da costa iraniana é "uma flagrante violação do acordo de cessar-fogo", logo, uma ameaça á retoma das hostilidades acordadas para negociar possíveis termos de paz, que deverão ter, ainda, duas semanas de duração.
A IRGC avisou ainda que considera o bloqueio anunciado por Trump como "um acto de pirataria" e que se vier efectivamente a ser implementado, "nenhum porto do Golfo Pérsico estará a salvo".
"As restrições impostas pelo país criminoso à navegação em águas internacionais são um ato de pirataria", declarou o porta-voz do Comando Central, o coronel Ebrahim Zolfaqari, em declarações divulgadas pelos media iranianos e citadas pela Al Jazeera..
"Se a segurança dos portos do Irão nas águas do Golfo Pérsico e do Mar Arábico estiver ameaçada, nenhum porto no Golfo Pérsico e no Mar Arábico estará seguro", advertiu ainda a mesma fonte.
Perante este cenário, com o bloqueio norte-americano ao bloqueio iraniano ao Estreito de Ormuz, uma formulação irónica para descrever a situação que deverá ocorrer já a partir das 15:00 desta segunda-feira, 13, hora de Luanda, nem os petroleiros e navios de transporte de LNG oriundos dos países árabes do Golfo, nem os oriundos dos portos iranianos deverão poder atravessar o canal.
Por outro lado, John Mearsheimer, um dos mais reputados especialistas norte-americanos em política internacional e geoestratégia, professor da Universidade de Chicago e prolixo autor sobre conflitos mundiais, lembra que esta jogada arriscada de Trump é injustificável sem a ideia de desespero.
Alega Mearsheimer que Trump e a sua Administração sabem do erro que estão a cometer porque ainda há duas semanas levantaram as sanções ao crude iraniano, permitindo a sua chegada aos mercados internacionais.
"E isso só aconteceu porque os EUA precisam de libertar o petróleo do Irão para normalizar os mercados, baixar os preços e reduzir o impacto deste contexto perigoso na sua economia", descreve este professor da Universidade de Chicago, acrescentando que este bloqueio é. Assim, "um passo em falso de Washington" para o qual não existem explicações.
Na mesma toada, Mearsheimer aposta que se os EUA avançarem mesmo com este bloqueio, o Irão, através dos seus aliados no Iémen, a Ansar Allah (Houthis) deverá fechar o acesso ao Mar Vermelho e ao Canal do Suez, no Estreito de Bab Al-Mandab, como já aconteceu em 2024, com consequências trágicas para a economia mundial, visto que por ali passa 15% do comércio mundial geral.
Recorde-se que até ao momento, apenas embarcações com destino a países que o Irão considerava imparciais, através do pagamento de uma "portagem", ou amigos, com acordos prévios sobre os quais não existe informação das condições, estavam autorizados a passar do Golfo Pérsico para o Oceano Índico (Golfo de Omã) e vice-versa, situação que agora se agrava com o bloqueio dos EUA, o que, no limite, poderá levar a que a economia mundial fique sem um conjunto de matérias-primas absolutamente vitais.
Desde logo 20% do LNG e do petróleo que são produzidos diariamente no Golfo Pérsico, mas não menos relevante, os compostos para fertilizantes que alimentam as terras de todo o mundo, cerca de 50% do hélio, essencial na indústria dos chips, e o ácido sulfúrico, composto menos falado mas que tem ali a maior parte da sua produção e é fundamental na fabricação de fertilizantes, refinação de petróleo, produção de baterias, detergentes, papel, corantes e no tratamento de metais e águas.
O objectivo de Donald Trump, explicou-o o próprio na sua rede social, é secar as fontes de rendimento do Irão, que tem a sua produção de crude e LNG quase integralmente escoada para a Ásia, especialmente para a China, mas, alguns analistas admitem que pode não ter pensado nessa consequência, vai igualmente secar a exportação de países como o Catar, Emiratos, Bahrein ou Kuwait, e quase toda a produção da Arábia Saudita, porque perto de 1/3 do seu crude é desviado pelo oleoduto que atravessa o país em direcção ao Mar vermelho.
Como os especialista reconhecem, esta medida pode ser eficaz na pressão sobre o Irão, mas resta saber se as consequências para a economia mundial não serão ainda mais pesadas e, com isso, sobre a economia norte-americana, onde a inflação, o preço dos combustíveis e o mercado do trabalho podem ser um golpe fatal nas aspirações políticas de Donald Trump para as eleições intercalares de Novembro.
É que nas eleições de meio mandato, o Partido Republicano de Trump pode perder as maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado, o que deixará o Presidente â merce da oposição Democrata, que já o ameaçou de abertura de um processo de destituição (impeachment) por razões que vão de não ter pedido autorização ao Congresso para a guerra com o Irão, como a Constituição obriga, ou a sua envolvência nos Ficheiros Epstein, o maior escândalo de sempre de pedofilia internacional.
Questionado pelos jornalistas sobre como é que esta decisão pode influenciar o curso das negociações com o Irão, Donald Trump respondeu, no seu estilo, que não quer saber, acrescentando: "Se não voltarem a negociar, não quero saber, por mim tudo bem".
No fim-de-semana, delegações do Irão, chefiadas pelo presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, e dos EUA, liderada pelo vice-Presidente JD Vance, reuniram durante mais de 20 horas em Islamabad, Paquistão, para desenhar os termos de uma paz longeva, mas falharam nesse propósito.
Trump e Vance justificaram o insucesso das conversações com a recusa do Irão em ceder em pontos fulcrais, como a questão do enriquecimento do urânio e na questão do Estreito de Ormuz, enquanto a parte iraniana sublinhava "alguns aspectos onde as duas partes se aproximaram" mas sem as especificar, apontando para novas etapas negociais no futuro.
Uma das possibilidades para nova ronda negocial é Moscovo, depois de o Presidente russo, Vladimir Putin, se ter disponibilizado a mediar futuros encontros entre norte-americanos e iranianos.
Entretanto, à margem desta "guerrilha" negocial, onde as partes procuram pressionar o outro lado, sejam os EUA com o bloqueio sobre o bloqueio, ao Irão, seja o Irão com a resiliência que levará o preço da energia para patamares insustentáveis para a economia norte-americana, há uma outra frente onde os impactos podem resultar em catástrofe para milhões de pessoas.
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), esta situação no Golfo Pérsico está a gerar riscos existenciais para mais de 30 milhões de pessoas no imediato, em países de todo o mundo, que podem mergulhar na pobreza extrema ao serem sufocados pelo triplo choque do fraco crescimento, escassez energética e produção agrícola.
Além disso, em suspenso permanece a ameaça de Donald Trump sobre os negociadores iranianos, neste caso Mohammad-Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento, e Abbas Araghchi, chefe da diplomacia, quando este, na semana passada, escreveu na Truth Social, que só estavam vivos para poderem negociar, o que foi e é visto como uma clara ameaça de morte sobre aqueles que devem ou podem, chegar a um acordo com Washington.










