Pelo menos parcialmente, porque tem de se admitir que os segredos mais profundos sobre os objectivos de um e do outro lado das trincheiras estão bem enterradas na lama, neve e no gelo que cobrem por esta altura o leste ucraniano.
Uma geografia gelada por temperaturas que chegam aos 20º negativos e onde há, faz a 24 de Fevereiro próximo, quatro anos, se desenrola uma das mais mortíferas guerras no continente europeu desde 1945, quando acabou a II Guerra Mundial, que já todos querem acabar mas ninguém parece saber como fazê-lo sem um longo calvário negocial.
Mas são as condições brutais em que a guerra colocou ucranianos, com milhares de prédios de habitação, só na capital, Kiev, sem electricidade, aquecimento e água, devido aos ataques russos, e as evidentes dificuldades de recrutamento, que estão a amolecer a posição de Volodymyr Zelensky.
Zelensky tem pressa
Claramente mais inclinado para acelerar as negociações de paz com Moscovo, o Presidente da Ucrânia veio esta terça-feira, 27, desafiar o Kremlin para antecipar a reunião entre russos e ucranianos em Abu Dhabi, que ficou agendada para Sábado próximo.
Depois das negociações trilaterais na capital dos Emiratos Árabes Unidos, mediadas pelos enviados de Donald Trump, de onde russos e ucranianos saíram optimistas, Zelensky não quer esperar tanto e propôs que isso aconteça já esta quarta-feira, 28.
Em Moscovo, Vladimir Putin ainda não respondeu, mas deve fazê-lo em breve, positivamente, porque esse será o corolário lógico das declarações optimistas com que o seu porta-voz, Dmitri Peskov, se referiu ao encontro de Abu Dhabi deste fim-de-semana.
E, se é verdade, como dizia ainda há duas semanas o Presidente dos EUA, que Putin e Zelensky se "odeiam de morte", a verdade é em conflitos severos entre Estados, o pragmatismo acaba por se impor à deliquescência das relações pessoais.
Kiev já não esconde "apertos"
O que pode, e está, a gerar a diminuição da espessura das barreiras entre um e outro lado é que os ucranianos (ver aqui) já não conseguem repor as perdas humanas - baixas, deserções e fugas ao recrutamento - e os russos começam a ver a sua economia a perder tracção.
A par desta realidade, as actuais circunstâncias são especialmente dramáticas para Kiev, o que explica em grande medida a pressa negocial de Zelensky, como a redução quase a zero do fornecimento de energia no país, o frio glacial em todo o território e a escassez de sistemas de defesa antiaérea para proteger as cidades ucranianas.
E do lado russo, mesmo com outra capacidade de recrutar, os 20 pacotes de sanções europeias, a forma como Washington está, com sanções, a castigar o sector energético russo, começam a fazer-se sentir no Outlook económico já para este ano.
Se em 2025, FMI e Banco Mundial colocavam a economia russa a desacelerar, depois dos dois primeiros anos a aquecer, devido à mudança de agulha para uma crescente economia de guerra, para 2026 esse arrefecimento começa a consolidar-se, como o gelo nos pés dos seus soldados nas trincheiras da frente de batalha.
Economia russa encolhe
De facto, para este ano, as instituições de Bretn Woods colocam a economia russa muito abaixo do crescimento das economias dos países emergentes (4,2%) e mesmo das desenvolvidas (1,8%), com o próprio Banco Central em Moscovo a projectar um crescimento que pode ser de apenas 0,5%.
Apesar disso, há um dado que os analistas pró-russos não abordam e é cada vez mais insistentemente referido pelos media com posturas anti-Rússia, que são quase todos os media ocidentais, que é a evidente dificuldade de Moscovo avançar no terreno.
E já não colhe a narrativa de que a Rússia conduz uma guerra de atrito onde se privilegia a destruição do potencial, humano e material, inimigo ao invés das conquistas territoriais, porque o próprio Kremlin admite agora que a questão territorial é o principal imbróglio negocial sobre a mesa em Abu Dhabi.
Ou seja, a posição negocial de Moscovo será tão mais vantajosa quanto menor for o território ainda sob domínio ucraniano nas quatro regiões que anexou em 2022, que são Lugansk, onde falta cerca de 5%, Donetsk (15%), Kherson e Zaporizhia, ambos ainda com cerca de 20% da área controlada por Kiev.
Portanto, a Rússia só não avança mais sobre as posições ucranianas nas "suas" regiões, porque não consegue, apesar de o CEMGFA russo, general Valeri Gerasimov ter vindo já esta terça-feira, 27, dizer que em Janeiro Moscovo conquistou 17 localidades e mais de 500kms2 aos ucranianos.
Esta declaração de Gerasimov é, em si, uma demonstração de que a questão territorial, afinal, tem uma importância estratégica para os russos, ao contrário do que estes têm afirmado e sido replicado pelos analistas que lhe são mais próximos.
Paz mais lucrativa para Moscovo
O que, na perspectiva das negociações de paz, pode ser visto, mesmo em Moscovo, nas alas do Kremlin mais empenhadas em acabar com esta guerra, como positivo, porque conduz Vladimir Putin para um tom menos carregado quando se trata de negociar o essencial.
Apesar disso, e da pressa demonstrada por Zelensky, que também pode ser um sinal de que em Kiev a ligeira amenização de tom dos russos está a ser interpretada como um sinal de fraqueza, o porta-voz de Putin atirou um copo de água para as chamas...
Dmitri Peskov pediu, citado pela RT, que todos os envolvidos nas negociações tenham paciência, alertou para a circunstância de já ser positivo as "muito complexas" conversações trilaterais sobre "questões muito melindrosas" terem começado.
Aos jornalistas em Moscovo, Peskov chamou a atenção ainda para a ideia de que "seria um erro muito grande esperar que algo de muito significativo saísse destes contactos iniciais", sublinhando assim que não é isso que se deve esperar da diplomacia real.
Apesar de considerar positivo estarem a acontecer conversações em Abu Dhabi, o porta-voz de Vladimir Putin veio igualmente sublinhar que "ainda há muito trabalho pela frente para que algo de sólido possa resultar" destes encontros de equipas de especialistas, de onde se destacam as sobre elementos militares do conflito no leste europeu.
O elefante "americano" na sala
E Dmitri Peskov voltou a referir aquele que parece ser o elefante de três toneladas no meio da sala de cristais, como a isso se referiu Steve Witkoff, o enviado especial de Donald Trump para chefar a delegação dos EUA, que são os assuntos territoriais.
Mas Peskov deixou cair uma perquena granada de fumo mesmo no centro da mesa das negociações: "As questões territoriais, que são parte da fórmula de Anchorage (Alasca), são um elemento de importância vital".
Ora, o que esconde o "fumo" desta granada lançada por Peskov? Desde logo, não se sabendo o que é a fórmula de Anchorage, porque isso ficou no segredo dos deuses do Alasca e entre Trump e Putin, no seu encontro em Agosto de 2025, não se pode saber o que é que os russos querem ver os americanos pressionarem os ucranianos a aceitarem.
E depois, pelo que se sabe, porque é factual e público, é que nem os russos arredam pé das exigências formuladas por Putin em Julho de 2024, nem os ucranianos já vieram dizer sem titubear que aceitam qualquer alteração à sua posição conhecida desde o início da invasão russa a 24 de Fevereiro de 2022.
Exigências...
O que querem os russos: (1)Que as causas profundas deste conflito sejam analisadas e resolvidas, (2)que os ucranianos deixem militarmente o que ainda controlam nas regiões anexadas em 2022 e (3) que reconheçam a soberania de Moscovo.
Que (4) abdiquem definitivamente de aderir à NATO (a única cedência que Kiev admite), (5) que nenhuma força ocidental seja enviada para a Ucrânia no âmbito das garantias de segurança que Zelensky exige e que Putin já admitiu ser uma exigência razoável.
O que os ucranianos exigem: (1) Que nenhum território ucraniano deixe de ter efectiva soberania de Kiev (Zelensky repetiu-o no contexto das negociações em Abu Dhabi), mesmo que temporariamente sob domínio russo.
Que (3) os EUA entrem de corpo e alma nas garantias de segurança para prever eventuais futuros ataques russos, (4) que a Ucrânia tenha, efectivamente, uma entrada acelerada na União Europeia e que (5) o país tenha um apoio concreto e inequívoco para o seu desenvolvimento e a sua reconstrução.
A frase "mística" de Putin
Perante isto, uma frase de Vladimir Putin sobrevoa todas as discussões, notícias, opiniões e reportagens sobre o mais mortífero conflito que a Europa viveu em muitas décadas: A Rússia prefere resolver as coisas de forma negociada e pacífica, mas se tiver de ser pela via militar, não deixará de o fazer sem titubear.
E, olhando para as posições de ambos os lados que podem ser vistas como concretas, para já, porque é normal que estas se extremem em contexto negocial para procurar minorar perdas, nada há que indique que a guerra vá acabar antes de chegar ao seu 4º aniversário, a 24 de Fevereiro próximo.








