Afinal, não estamos por cima de uma falha geológica que nos faça tremer com o receio de que a terra se desloque, tudo abanando e destruindo, nem temos ventos cataclísmicos que elevem, em remoinhos doidos, o que esteja à flor da terra, e mesmo o nosso simpático vulcão descansa pachorrento. Não trememos com um frio de rachar, nem torramos sob um Sol inclemente que nos retire o bom humor ao ponto de nos tornar azedos e cruéis. E, se é verdade que o clima se vem alterando, as secas mais assíduas e prolongadas, e as chuvas, que faltam, parece virem todas de uma vez quando, de facto, ainda as esperamos, temos a sensação que, mesmo assim, as ferramentas de que dispomos poderiam prevenir algumas das consequências que tais acontecimentos provocam, trazendo consigo dor e desolação.

O que aconteceu em Luanda, em Benguela, no Cunene ou à ponte sobre o rio Halo, as ravinas que se estendem, e se aprofundam, um pouco por todo o país, o desespero que se sente em tantas pessoas que de repente são afectadas profundamente por estes acontecimentos, não se pode dizer que seja uma surpresa. Factos semelhantes têm ocorrido ano após ano, com graus distintos de intensidade, e, quando chega esta época, que deveria ser uma época de alegria - pois chuva é vida - repete-se o coro de lamentações dos que são afectados pelas consequências dos fenómenos naturais, que, na grande maioria dos casos, poderia ser evitado se um atempado plano de prevenção tivesse sido posto em prática.

Um plano que evitasse construir onde não se deve, respeitasse as margens dos cursos de água, reforçasse as estruturas que previsivelmente serão submetidas a um maior esforço neste período, impedisse a devastação da vegetação que garante a permanência dos solos, limpasse os caminhos para o escoamento das águas para os rios e para o mar, educasse os cidadãos a ter uma atitude responsável para com o ambiente que o rodeia, começando pela forma como se desfaz do que considera lixo, não ocupasse desmedidamente todo o espaço disponível, mesmo aquele que as águas procuram para poder repousar, sazonalmente, mantendo os ecossistemas saudáveis, e a vida dos que também usufruem da região, tranquila.

O que assistimos nestes dias, é o resultado do descaso com que vivemos. E se é verdade que o que agora há a fazer é o de atender, o mais urgente e da melhor forma possível, aos que foram vítimas das catástrofes que não soubemos evitar, é fundamental que a lição não seja, uma vez mais, descurada: o futuro cuida-se hoje. Só com uma atitude responsável, que obrigue a um cuidadoso planeamento (ao invés das orientações intempestivas nos momentos de desgraça), a vontade de seguir o planeado independemente dos interesses de quem quer que seja, e com acções de conservação e manutenção adequadas, se poderão evitar as catástrofes anunciadas, que levarão, ciclicamente, a dor e o luto às famílias angolanas, em particular, e como (quase) sempre, àquelas que já no seu dia-a-dia mais sofrem.

Não nos resta senão "enterrar os mortos e cuidar dos vivos", mas é imperioso tirar as lições que se impõem, para evitar, tanto quanto possível, a repetição deste tipo de calamidades no futuro.