A partir desse 19 de Setembro de 1956, Amílcar Cabral, filho de pais cabo-verdianos nascido a 12 de Setembro de 1924 em Bafatá, na Guiné-Bissau, lidera com sucesso o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), até ser assassinado a tiro em Conakry por elementos do próprio partido, a 20 de Janeiro de 1973.
A sua liderança, a organização da guerrilha e o seu pensamento, tornaram-se uma referência da luta pela liberdade, dignidade e igualdade nos seus países de origens (Guiné-Bissau e Cabo Verde), em África e no mundo.
O "simples africano", como se definia, continua, 53 anos após a sua morte, a ser estudado, nomeadamente no que se refere ao seu pensamento e a ligação à acção revolucionária, ou seja, a prática e teorização da luta de libertação nacional, que classificava como "um acto de cultura".
Nos 70 anos do PAIGC, destaca-se a maior conquista da sua história: a proclamação unilateral da Independência da Guiné-Bissau, a 24 de Setembro de 1973, dez anos após o início da bem sucedida luta contra o regime colonial fascista português.
Embora abalado com o assassinato de Cabral, o PAIGC não abrandou a luta e, oito meses depois, em honra da memória e do legado do seu líder histórico, proclamou a Independência da Guiné-Bissau, nas zonas libertadas, mais concretamente em Madina do Boé.
A 24 de Setembro de 1973, dezasseis anos após a fundação do PAIGC por Cabral e outros companheiros, nasce um novo Estado livre e independente, assente na dignidade humana e com a educação como base para a construção de uma sociedade de igualdade, seguindo o exemplo da "Escola Piloto", criada por Amílcar Cabral, durante a luta.
A Independência da Guiné-Bissau foi o golpe de misericórdia que abriu caminho ao golpe de Estado militar em Portugal, a 25 de Abril de 1974, que derrubou o fascismo e pôs fim ao império colonial português em África.
Setembro é também o mês em que se comemora Agostinho Neto, líder revolucionário que proclamou a Independência e foi primeiro Presidente de Angola. Comemora-se a vida, os ideais e a obra do político e poeta que sintetizou a prioridade dada pelo seu MPLA à dignidade humana numa só expressão: "o mais importante é o resolver os problemas do Povo".
Recorda-se o legado de um homem que foi preso político e esteve encarcerado em várias prisões do regime salazarista, nomeadamente Caxias, Aljube, Porto, Luanda ou Cabo Verde, bem como o seu panafricanismo, expresso nas afirmações: "na Namíbia, no Zimbabwe e na África do Sul está a continuação da nossa luta" e "Angola é e será por vontade própria trincheira firme da revolução em África".
Slogans postos em prática através do apoio de Angola em meios humanos, logísticos, políticos, financeiros, militares e diplomáticos aos movimentos de libertação da Namíbia (SWAPO) e do Zimbabwe (ZANU e ZAPU) e da África do Sul (ANC) na luta contra os regimes de apartheid e racista de Ian Smith e pela libertação de Nelson Mandela e de todos os presos políticos sul-africanos. Destaque para a instalação do quartel general da SWAPO em Angola.
Neto e Cabral, companheiros de luta e ideais, juntamente com Marcelino dos Santos da FRELIMO de Moçambique, foram os protagonistas de uma das maiores derrotas diplomáticas infligidas ao regime fascista salazarista.
A 1 de Julho de 1970, o Papa Paulo VI recebeu os três líderes da CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas) em audiência no Vaticano, durante sete minutos. Este encontro provocou uma grave crise diplomática entre Lisboa e a Santa Sé, que abalou profundamente as relações entre as partes.
Nascido a 17 de Setembro de 1922 em Kaxicane, Icolo e Bengo, Neto morreu em Moscovo, vítima de doença, a 10 de Setembro de 1979, dois meses antes da comemoração do quarto aniversário da Independência de Angola e pouco mais de dois anos após os acontecimentos trágicos de 27 de Maio de 1977, que causaram milhares de mortes entre angolanos do MPLA.
"A escola é a base para o Povo tomar o Poder", defendia Samora Machel, pai da Independência de Moçambique, conquistada pela FRELIMO, depois de 10 anos de luta armada pela libertação do País.
Para o panafricanista Machel, nascido a 29 de Setembro de 1933 em Chilembene, na província moçambicana de Gaza, "a unidade dos povos" africanos é fundamental para a conquista da independência económica.
Neste sentido, durante a sua liderança, Moçambique, tal como Angola, apoiou e envolveu-se directamente na luta de libertação da África Austral contra os regimes de apartheid e de Ian Smith.
Por causa deste gesto de solidariedade panafricanista, à semelhança de Angola, o País de Samora Machel pagou um preço alto. Foi vítima de atentados, assassinatos de políticos, e diversos actos de sabotagem à sua frágil economia.
A criação, financiamento e apoio material e militar ao MNR (actual Renamo) por parte de Ian Smith e do regime de Pretória, com o objectivo de combater o Governo de Samora Machel, fazem parte desse projecto de desestabilização de Moçambique.
Machel e Neto integraram a Linha da Frente, uma organização de chefes de Estado da África Austral, que incluía também os presidentes Julius Nyerere (Tanzânia), Kenneth Kaunda (Zâmbia) e Seretse Khama (Botswana) que se batiam pela libertação total da África Austral.
Samora Machel, que se propunha a fazer de Moçambique "trincheira da dignidade dos Povos", morreu num estranho acidente de aviação em Mbuzini, na África do Sul, em 1986, aos 53 anos, quando regressava de uma Cimeira da Linha da Frente na Zâmbia.
Também em Setembro, em 1974, no dia em que o PAIGC comemorava o 18º aniversário, na capital santomense, um grupo de mulheres mostrou a sua bravura revolucionária ao realizar uma marcha anti-colonial inédita.
Vestidas de preto, símbolo de luto, e lideradas pela panafricanista Alda do Espírito Santo, as mulheres santomenses saíram à rua e marcharam até ao Palácio Colonial, exigindo o fim da colonização e o reconhecimento do MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, fundado em 1960 como Comité de Libertação de S. Tomé e Príncipe, CLSTP) como representante legitimo do Povo, bem como a Independência total do arquipélago.
Hoje, o 19 de Setembro é feriado nacional no arquipélago, Dia Nacional da Mulher Santomense e da Organização das Mulheres de São Tomé e Príncipe (OMSTP). A data presta homenagem às "guerreiras de 1974" e representa um importante marco na história da luta pela Independência do País proclamada a 12 de Julho de 1975.
A revolta de Setembro de 1974 abriu caminhos para a inclusão de mulheres em lugares de tomada de decisão política. Desde a Independência do País, as santomenses têm-se destacado em funções como presidente do Parlamento, primeira-ministra e ministras de importantes pastas nomeadamente Defesa, Negócios Estrangeiros, Educação, Cultura e Justiça, entre outras.
Nas comemorações do 19 de Setembro do ano em curso, para além da celebrar o centenário de Alda do Espírito Santo, "matriarca da nação", politica e poetisa, autora do Hino Nacional do País, as mulheres santomenses homenagearam Conceição Lima, jornalista e escritora de referência, falecida recentemente, bem como debateram problemas actuais do arquipélago, nomeadamente a emigração, igualdade de género, pobreza e participação social e política das mulheres.