Não é a primeira vez que grupos de cidadãos de Gaza se manifestam contra o Hamas, mas esta foi de longe a maior concentração de pessoas com esse objectivo desde Outubro de 2023, o que os analistas sublinham mostrar um cansaço muito grande deste conflito.
Isto, apesar de Israel ter sido responsável pelo desmoronamento do cessar-fogo acordado há pouco mais de um mês entre Israel e o Hamas, com o recomeço dos ataques aéreos a áreas fortemente habitadas com centenas de mortos registados em pouco mais de uma semana.
Mortos e feridos, incluindo dezenas de crianças, que se juntam aos mais de 50 mil - crianças e mulheres na sua maioria alargada - registados desde o início da invasão (ver links em baixo) que foi antecedida do ataque do Hamas e da Jihad Islâmica ao sul de Israel, onde ficou um rasto de korte, com mais de 1200 pessoas mortas e centenas de feridos, além dos cerca de 250 reféns levados para Gaza.
E são precisamente esses reféns que ainda não foram libertados, num número estimado de perto de 30, ao longo do cessar-fogo interrompido há dias, que estão por detrás da justificação do Governo israelita de Benjamin Netanyhau em retomar os ataques contra áreas densamente habitadas sob justificação de que os alvos seriam dirigentes do Hamas.
O protesto interno contra o Hamas foi rapidamente diluído pelas forças do Hamas, que dispersaram os manifestantes com bastonadas, como relatam alguns media, mas o risco mais sério para Gaza continua a ser Israel.
É que o primeiro-ministro israelita, que tem na guerra a sua maior defesa política para se manter no poder, porque é fortemente contestado internamente e porque é devido à guerra que os vários processos judiciais que enfrenta acusado de corrupção e peculato têm sido contornados, veio agora ameaçar de novo anexar em definitivo a Faixa de Gaza se o Hamas não libertar os reféns.
Além disso, Netanyhau tinha uma nova pressão para regressar à guerra, porque o seu próprio homem que chefiava o Shin Bet, a intelligentsia interna, Ronen Bar, que acaba de demitir com ruído incessante nos media israelitas menos alinhados com o poder, como o Haaretz, acusa o primeiro-ministro de ter permitido o financiamento do Catar ao Hamas por interesses pessoais.
Por seu lado, Netanyhau disse que não confiava mais em Ronen Bar devido à sua inabilidade para evitar o ataque de 07 de Outubro de 2023 pelo Hamas, sendo que existem sérias suspeitas de que o próprio primeiro-ministro permitiu esse ataque de forma a justificar a guerra aberta contra o Hamas.
Porém, a demissão de Bar foi travada pela justiça israelita, o que deixou Benjamun Netanyhau em sérias dificuldades, porque tem agora um adversário declarado no comando da sua secreta interna e com crescentes suspeitas sobre a forma como está ligado ao ataque do Hamas em 2023.
Entretanto, pouco depois desta ameaça de anexação de Gaza, o Hamas veio publicamente reiterar a sua disponibilidade para negociar com Israel de forma a conseguir os objectivos que faziam parte do acordo assinado em Janeiro com mediação norte-americana.
O Hamas, através de um oficial sénior, avança ainda que o objectivo maior é parar as hostilidades e dar por finda a mortandade em Gaza, passando isso pelo fim dos combates e a retirada das forças israelitas de todo o território, com a pressuposta troca de prisioneiros até que todos os reféns sejam enviados de volta a Israel, incluindo os corpos daqueles que entretanto morreram.
Só que Netanyhau não acredita nas palavras do Hamas, porque a retoma da agressão, que a justiça internacional diz ter contornos claros de genocídio, é a alegada resposta israelita à recusa do Hamas de entregar os reféns.