E isso está na origem de um tremendo recuo no valor do barril de crude a partir do recorde muitos meses, depois de bater nos 70 USD na semana passada, porque a conversa do Presidente Donald Trump sobre o Irão é agora mais... aveludada.
Com efeito, o barril de Brent, que serve de referência para as ramas exportadas por Luanda, está este início de tarde, perto das 12:30, hora angolana, a valer 65,96 USD, menos 4,95% que no final da semana passada, num recuo muito relevante de quase 5 USD.
Com os olhos postos no Médio Oriente, onde há pelo menos duas semanas se agiganta o risco de um conflito entre o Irão e os EUA/Israel, o crescendo da tensão deu lugar nas últimas 48 horas (ver aqui) a um recuo na agressividade retórica de Washington.
E é assim de tal modo que a Reuters, nas notas sobre a evolução deste sector ao início da manhã sublinhava a queda de 5% no valor do crude empurrado gráficos abaixo pela divulgação de negociações entre Washington e Teerão pela voz de Trump, que a elas se referiu como "conversações sérias".
No cerne destas conversas está agora a exigência de Donald Trump para que o Irão desmantele o seu programa nuclear, mesmo que o próprio tenha dito nos últimos meses um punhado de vezes que em 22 de Junho de 2025 os EUA "obliteraram totalmente" toda a infra-estrutura nuclear controlada por Teerão.
Mas para os analistas dos mercados o que interessa não é a coerência do Presidente norte-americano, o que conta é que estão a diminuir os riscos de disrupções no fornecimento e afasta-se o perigo de bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde escorre 35% do crude global, que separa o Golfo Pérsico do Oceano Índico, e que é totalmente controlado por Teerão.
Esta queda do Brent, e também do WTI em Nova Iorque, segue-se a uma igualmente subida abrupta para valores recorde de meados do ano passado, tendo chegado aos 70 USD no final da passada semana.
E 70 USD são 9 USD acima do valor médio de referência usado pelo Executivo angolano para elaborar o OGE 2026, que foi de 61 dólares, facto que a manter-se, permite uma lufada de ar fresco nas apertadas contas públicas nacionais.
Isto, numa altura em que a OPEP+ está a recuar também na linha que manteve ao longo de quase todo 2025 com mensais e substanciais acréscimos de produção, o que gerou uma desvalorização acentuada da matéria-prima da qual ainda muito depende Angola.
Com efeito, em Novembro o "cartel" congelou o seu programa de recuperação de quota devido a um evidente e crescente excesso de produção, tendo agora, neste Sábado, em nova reunião de peritos, decidido por manter intocada a produção para Março. Uma boa nova para o Governo angolano.
Todavia, ainda com uma dependência tão vincada das exportações de crude, mesmo que a diminuir ano após ano, em Angola, como, de resto, noutras dezenas de países com as mesmas características em todo o mundo, este momento...
... é mais uma razão para não se perder os mercados de vista
O actual cenário internacional tende a manter os preços ainda acima do valor estimado para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, valor conservador mas aconselhável, atendendo aos altos e baixos e ás incertezas globais...
Ainda assim, Angola é um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.

