Sabendo que está a encostar Vladimir Putin às cordas e que existe de facto o risco de uma escalada da guerra para o ataque directo aos centros de decisão em Kiev, bem como aos decisores ucranianos, Volodymyr Zelensky procura diluir a fúria russa com nova proposta para conversas directas.

Depois de dezenas de drones ucranianos terem atacado com sucesso que se via a dezenas de quilómetros em forma de colunas de fumo negro que saiam dos depósitos de combustível do porto de São Petersburgo, a Ucrânia conseguiu manchar o arranque do Fórum Económico Internacional (SPIEF) que anualmente se realiza naquela cidade.

O SPIEF é uma das grandes apostas da Federação Russa para combater o isolamento internacional provocado pelas sanções ocidentais e nele, anualmente, Vladimir Putin dedica longas horas entre discursos e conversas com os jornalistas para enfatizar os sucessos da economia e militares do país.

O também conhecido como "Davos Russo", uma referência ao Forum de Davos, na Suíça, que todos os anos acolhe as elites da economia e política mundiais, e Putin deixou de frequentar em 2022, após a invasão da Ucrânia, começou esta quarta-feira, 03, e termina Sábado, 06, sendo que na sexta-feira nele deverá brilhar o próprio Presidente russo.

Deverá porque já há quem, entre os analistas russos e no ocidente também, admitam que o chefe do Kremlin possa vir a alterar a sua agenda para evitar expor-se ao risco, porque ainda fresco na memória está o ataque, igualmente com drones, à sua casa, na região de São Petersburgo, em 2025.

Todavia, mais relevante que a mancha que Kiev conseguiu colocar em cima do "Davos Russo", onde estão e são aguardados mais de 20 mil visitantes, incluindo uma delegação dos EUA, pela primeira vez em quatro anos, é a discussão flamejante que está a acontecer nos media russos e nas redes sociais sobre que resposta Moscovo dará a estes ousados actos militares ucranianos.

Até porque é já claro e inequívoco que dentro das paredes do Kremlin se "digladiam" duas posições cada vez mais diluídas, face aos desafios colocados pelos ataques ucranianos que não se notam apenas o fumo sobre São Petersburgo, incendeiam ainda as páginas e ecrãs dos media internacionais.

A ponto de, só nas últimas 24 horas, o secretário-geral da NATO, Marco Rutte, numa visita oportuna a Kiev, ter dito que "A Rússia nunca ganhará esta guerra" e está à beira de sucumbir à persistência ucraniana.

Quase ao mesmo tempo, Kaja Kallas, a chefe da diplomacia europeia, disse mesmo que "A Rússia está à beira do desespero" e pode desmoronar a qualquer momento, naquilo que é claramente uma intenção de atingir o orgulho de Putin e da sua equipa governativa.

Outro elemento de drama para Moscovo é que, numa frente mediática bem planeada, os media ocidentais alinhados com Kiev voltam a apostar tudo na ideia de que também na frente de batalha a Rússia está a claudicar e os ucranianos não apenas travaram a ofensiva da primavera russa como estão a obrigar as suas unidades a recuar.

O jornal britânico The Guardian, um dos mais fervorosos apoiantes de Kiev na cena mediática internacional fala mesmo no "falhanço" dos russos na tentativa de avançar no terreno como razão principal para apostarem agora nos ataques massivos com misseis e drones.

O que é outra forma de alfinetar o orgulho russo, visto que o Kremlin deixou claro que os recentes ataques em larga escala contra Kiev, incluindo dezenas de misseis hipersónicos, é uma resposta ao acto "terrorista" dos ucranianos em Starobelsk,Lugansk, a 22 de Maio, quando uma vaga de 16 drones atacou o dormitório de uma escola matando 21 estudantes adolescentes e feriu perto de 40.

Todavia, os analistas mais próximos de Moscovo, e os media russos contam uma história diferente, sublinhando que as forças russas têm mantido um avanço contínuo no terreno, estando mesmo a aproximar-se de objectivos estratégicos como as cidades de Zaporizhia, ou dos últimos redutos de Donetsk,que são as cidades de Kramatorsk, Sloviansk e Kostiantynivka.

É, no entanto, evidente que em Moscovo alguma coisa está a mudar e a ala mais moderada corporizada pelo próprio Presidente Putin estará a repensar essa moderação, desde logo com Sergey Karaganov, um dos "gurus" da política russa mais relevantes, a repetir ultimamente que não há alternativa ao uso de armas nucleares se Moscovo não quiser continuar a ser humilhada pelo ocidente.

E ainda porque Vladimir Solovyov (Solowjow), um famoso e radical entrevistador e jornalista russo, que tem milhões de seguidores nas redes sociais, ter, numa curiosa entrevista dada à revista semanal suíça Die Weltwoche, voltou a defender que "é inevitável o recurso ao nuclear" se a Rússia tiver de continuar a lutar contra toda a NATO.

Sem referir a questão do nuclear, cuja doutrina conhecida russa impõe que seja usado apenas em resposta a um ataque de grande envergadura por uma outra potência nuclear ou se a Rússia estiver em risco soberano, alguns políticos do Governo russo começam a defender abertamente uma nova postura, claramente mais agressiva.

É o caso de Sergei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros, que é uma das vozes que no Kremlin defendem uma escalada na guerra redesenhando o mapa dos alvos considerados pelos militares em Kiev, incluindo nesses não apenas os centros de decisão, mas ainda os autores das ordens por detrás de ataques terroristas como o de Srarobelsk.

No que diz respeito ao novo "convite" de Zelensky a Putin para um tête-à-tête, sabe-se de registos anteriores que o Presidente russo não está disponível para esse encontro sem que antes estejam definidos os "pormenores técnicos" de um acordo de paz, mas o que falta perceber na totalidade é que tipo de escalada está o Kremlin a preparar na guerra com a Ucrânia.

Porque essa escalada é já certa.