A investigação sobre arquitectura angolana não pode começar por uma definição fechada daquilo que é ou não é angolano. Se assim fosse, correríamos o risco de seleccionar previamente os exemplos que confirmassem uma ideia de identidade construída antes da investigação. É precisamente o contrário que importa fazer.

É necessário investigar a arquitectura angolana a partir daquilo que foi produzido, apropriado, transformado, habitado, ensinado, documentado e transmitido em Angola desde 1975. E, a partir desse universo, procurar compreender como se constituíram as relações entre arquitectura, território, sociedade e cultura. A investigação começa, assim, em 1975, não como simples marco cronológico. O período posterior constitui um campo histórico próprio, com transformações políticas, económicas, sociais, demográficas, territoriais, tecnológicas e culturais que alteraram profundamente as condições de produção da arquitectura. Estudar a arquitectura angolana dos últimos cinquenta anos significa, por isso, estudar uma sociedade em transformação através daquilo que construiu - mas também através daquilo que não conseguiu construir, preservar, documentar ou transmitir.

É aqui que a questão cultura ganha importância na definição de arquitectura angolana. Uma arquitectura não se torna angolana simplesmente porque foi construída em Angola. Da mesma forma, não deixa de poder participar na arquitectura angolana apenas porque foi concebida por alguém de outra nacionalidade. A pertença arquitectónica não pode ser reduzida à nacionalidade do autor, à origem dos materiais ou à localização geográfica de um edifício. É necessário observar relações, respeito pelo território e clima, respeito pelos modos de habitar e formas de organização social. Relações com a memória.

Relações com as técnicas. Relações com os recursos disponíveis. Relações com a cidade. Relações com as práticas culturais. Relações com as transformações económicas e políticas. E, sobretudo, relações entre aquilo que uma sociedade reconhece como seu e aquilo que recebe, apropria, transforma ou rejeita. Esta abordagem permite compreender a arquitectura angolana não como uma linguagem formal única, mas como um campo de produção cultural e territorial. Investigar uma arquitectura angolana através de elementos formais imediatamente reconhecíveis poderia conduzir-nos à construção artificial de uma identidade arquitectónica. Investigar a arquitectura angolana significa, pelo contrário, procurar compreender os processos que produziram essa arquitectura. É possível encontrar referências culturais directamente incorporadas na arquitectura.

É possível encontrar interpretações contemporâneas de práticas construtivas ou espaciais anteriores. É possível encontrar apropriações de modelos internacionais transformados pelas condições locais. É possível encontrar arquitecturas que respondem de forma particular ao clima, à economia ou ao território. Mas também é possível encontrar o contrário. Arquitecturas desligadas das condições culturais do lugar. Modelos importados sem transformação significativa. Edifícios que pouco dialogam com a cidade onde são implantados. Espaços que reproduzem referências externas sem estabelecer relações consistentes com os modos de vida locais. E isto também pode ser a arquitectura angolana. Não porque seja necessariamente uma boa ou má arquitectura, mas porque pertence ao campo histórico e cultural que estamos a investigar. A ausência de uma relação evidente com a cultura angolana não elimina uma obra do objecto de estudo. Pode constituir, precisamente, um dos seus resultados mais importantes. Esta questão é particularmente relevante depois de 1975.

A independência política não produziu automaticamente uma ruptura cultural na arquitectura. A transformação de um território político em Estado independente não significou, por si só, a criação imediata de uma linguagem arquitectónica nacional. Muitas estruturas espaciais, técnicas, urbanas e institucionais permaneceram. Outras foram transformadas. Novas referências chegaram. Novos actores apareceram. Outros desapareceram. O resultado não pode ser presumido. Tem de ser investigado. É por isso que estudar a arquitectura angolana desde 1975 exige construir um conhecimento sistemático sobre a produção arquitectónica desse período. Quem projectou? Quem construiu? Quem encomendou? Quem financiou? Que instituições participaram? Que escolas formaram os profissionais? Que referências circulavam? Que projectos foram desenhados e quais foram efectivamente construídos? Que materiais e tecnologias foram utilizados? Que conhecimentos locais foram incorporados? Quais foram abandonados? Como os edifícios foram apropriados? Como foram transformados? Que relação estabeleceram com as cidades e com os territórios? Que obras desapareceram? Que documentos sobreviveram? Estas perguntas não constituem apenas uma metodologia de inventário. Constituem uma forma de produzir evidência.

A investigação histórica da arquitectura não pode depender exclusivamente dos edifícios que ainda conseguimos observar. A arquitectura também existe nos desenhos, nos projectos, nos arquivos, nas fotografias, nos concursos, nos contratos, nos regulamentos, nos testemunhos, nas publicações, nas escolas, nas obras desaparecidas e nas transformações posteriores à construção. A documentação é, por isso, parte do próprio objecto científico.

O trabalho desenvolvido sobre períodos anteriores a 1975 demonstra a importância desta perspectiva. A investigação de Maria Manuela Fonte sobre Urbanismo e arquitectura em Angola - de Norton de Matos à Revolução, por exemplo, estudou a produção entre 1920 e 1974 através da relação entre território, urbanismo, arquitectura, autores, influências e processos de adaptação ao contexto angolano. O desafio que permanece para o período posterior a 1975 é construir um conhecimento de escala comparável sobre a arquitectura angolana produzida desde então.

E é precisamente aqui que a investigação dos 50 Anos de Arquitectura Angolana encontra a sua razão de ser. Não se trata de provar antecipadamente que existe uma determinada arquitectura angolana. Trata-se de investigar a arquitectura angolana como fenómeno histórico, cultural, territorial e disciplinar. Isto significa aceitar que a investigação poderá encontrar continuidades, rupturas, contradições, apropriações, reinvenções e também ausências.

Pode revelar arquitecturas profundamente relacionadas com contextos culturais angolanos. Pode revelar arquitecturas que resultaram sobretudo da circulação internacional de modelos. Pode encontrar situações híbridas. Pode encontrar diferenças significativas entre Luanda e outras cidades, entre litoral e interior, entre diferentes regiões culturais, entre arquitectura pública e privada, entre habitação, equipamentos, espaços religiosos, infra-estruturas ou arquitectura informal. Pode ainda demonstrar que determinadas ideias que hoje associamos à arquitectura angolana têm uma história mais complexa do que supomos. Tudo isso é conhecimento.

E esta é uma condição essencial da investigação científica: não saber antecipadamente qual será o resultado. Por isso, a questão da influência internacional só pode aparecer depois. Como poderemos afirmar que a arquitectura angolana influenciou a arquitectura global se ainda não conseguimos estabelecer, com suficiente rigor, quais foram as suas próprias características, os seus processos de produção, os seus actores, os seus conhecimentos e as redes através das quais esses conhecimentos circularam? É necessário estabelecer relações de circulação. *

*Arquitecto e Investigador, PhD em Arquitectura