Com mais 10 milhões de votos que na primeira volta, Lula da Silva acabou por superar Flávio Bolsonaro, o filho do ex-Presidente Jair Bolsonaro, que assim já não vai ser posto em liberdade da cadeia onde está por tentativa de golpe de Estado, como lhe prometeu o agora candidato derrotado.

Foi num "sprint" histórico que o antigo operário metalúrgico, aos 80, anos, acabou por ultrapassar o jovem Flávio, de 45 anos, numa segunda volta onde o eleitorado de esquerda se mobilizou por uma causa acima de todas as outras: consolidar a democracia.

O Presidente Lula chegou aos 51,7%, contra os 48,23% de Bolsonaro, deixando as hostes do liberalismo económico radical a ferver tanto internamente como no cenário internacional.

Cenário onde o candidato preferido de Donald Trump, como já o seu pai Jair fora, foi fortemente ajudado tanto com gestos políticos de Washington - fechar consulados alegando insegurança - como através das redes sociais da Meta de Mark Zuckerberg, que procurou extinguir o crescente "fogo" de popularidade com truques de algoritmo.

Esta guerra ainda não acabou, contudo, porque Flávio Bolsonaro não se conforma e já anunciou um recurso para a Suprema Corte Federal alegando irregularidades assente numa decisão de um juiz federal em prolongar a votação por duas horas sob a justificação de que muitos brasileiros não estavam a conseguir chegar ao local de voto.

Numas regiões, devido a problema com transportes, noutras devido aos efeitos prolongados das cheias recentes, mas, no fim, o que o Tribunal garantiu foi que quem queria votar o fizesse apesar dos constrangimentos.

Apesar de ser muito difícil a reviravolta legal, essa possibilidade existe, mas dificilmente Flávio vai poder, como prometeu insistentemente, tirar o seu pai da cadeia, que era, como o frisou nalgumas ocasiões, o seu maior objectivo.

Este resultado tem ainda um impacto em catadupa no mundo, porque o Brasil, o gigante da América do Sul, desempenha um papel fulcral em vários palcos globais, sendo um elemento de equilíbrio nas Américas entre os EUA e o resto do continente, bem como no equilíbrio geoestratégico, desde logo nas organizações internacionais, como é disso exemplo os BRICS, onde está com a Rússia e a China entre outros 13 países.

Noutro campo, relevante para Angola, Lula é claramente mais próximo da ideia de apostar na CPLP que o clã Bolsonaro, que, como disse Flávio, a sua prioridade seria pavimentar o caminho de Brasília para Washington, secundarizando o resto do Planeta.

O que disse Lula

Nas suas primeiras declarações, Lula da Silva agradeceu aos brasileiros e começou o discurso na sua sede de campanha agradecendo aos eleitores, destacando a "generosidade da juventude brasileira".

"Esta eleição foi uma derrota do negacionismo. Foi uma derrota da mentira", vincou, citado pela Lusa, referindo-se ao adversário Flávio Bolsonaro.

"Cada vez que eu ia num debate eu ficava constrangido. Porque eu já debati com muita gente, já participei em muitas eleições (...) mas eu nunca pensei deparar-me com um representante genuíno do milicialismo desse país".

"Nunca imaginei que uma pessoa pudesse mentir tanto", acrescentou Lula.

O presidente reeleito defendeu ainda que "o crime do mundo digital tem de ser tratado como o crime da vida real" e frisou que não podemos ter empresas que ganham "milhões e milhões e não pagam nenhum imposto neste país e tentando direcionar o resultado eleitoral".

O que disse Bolsonaro

Flávio Bolsonaro, por sua vez, vai pedir anulação das eleições presidenciais devido à prorrogação da votação por duas horas.

"O que aconteceu hoje não foi algo normal. Foi algo, inclusive, inaceitável. Um ministro da Suprema Corte, pela primeira vez na história - ex-advogado do Lula - (...) muda a regra do jogo no meio do jogo", criticou, citado igualmente pela Lusa.

O filho de Jair Bolsonaro vincou que "às 17h01 o ministro (...), atropelando a justiça especializada, toma uma decisão prorrogando por duas horas as eleições. Isso nunca tinha acontecido na história do Brasil".

"Eu nunca vou saber se num Estado onde as urnas não foram reabertas, quantos votos eu poderia ter. É inexplicável ter acontecido o que aconteceu", insistiu.

Por esse motivo, "vamos pedir a anulação dessas eleições", anunciou na sede de campanha, terminando assim o breve discurso.