Uma é a Angola dos indicadores oficiais macroeconómicos, das grandes obras, do investimento estrangeiro, do Lobito, da banca, da Bolsa, do turismo, da diplomacia económica e da recuperação do acesso aos mercados financeiros.
A outra é a Angola quotidiana: a do desemprego, dos baixos rendimentos, do custo dos alimentos, da informalidade, das dificuldades de acesso à saúde, educação, água e habitação e de uma juventude que continua a perguntar onde estão as oportunidades concretas.
É precisamente entre estas duas Angolas que deve ser lido o Estado da Nação de 2026.
O discurso de 15 de Outubro não será apenas uma prestação de contas sobre o último ano. Será, politicamente, uma espécie de balanço do segundo mandato e, simultaneamente, o primeiro grande discurso presidencial num país que já entrou no ciclo eleitoral de 2027.
A macroeconomia melhorou - mas a vida das famílias não acompanha na mesma velocidade
O FMI reconhece a melhoria da posição externa, a redução da inflação, a recuperação da actividade não-petrolífera e o regresso de Angola aos mercados internacionais. Mas alerta, igualmente, que a economia continua vulnerável à volatilidade do petróleo, ao financiamento externo e à lentidão das reformas estruturais.
O problema é que a estabilidade macroeconómica não é sinónimo de bem-estar social.
O INE estima uma população de pelo menos 38,8 milhões de habitantes em 2026. A inflação homóloga estava em 8,78% em Agosto, mas o desemprego continuava em 21,5% no segundo trimestre. E há um dado particularmente revelador: no segundo trimestre, Angola tinha aproximadamente 2,79 milhões de desempregados, enquanto a taxa de emprego dos jovens entre 15 e 24 anos era apenas 21,9%.
Ou seja: a inflação pode estar a cair, mas o problema central de Angola continua a ser a capacidade de transformar crescimento económico em emprego, rendimento e mobilidade social.
Angola continua presa a uma contradição estrutural. O petróleo continua a representar cerca de 60% das receitas públicas e 95% das exportações, segundo o Banco Africano de Desenvolvimento. Ao mesmo tempo, agricultura, mineração, indústria e outros sectores começam a contribuir mais para a actividade não-petrolífera.
É aqui que aparece a grande pergunta para o discurso presidencial: Que economia está, realmente, a nascer para substituir a economia do petróleo?
Diversificar significa produzir alimentos em escala, industrializar matérias-primas, desenvolver cadeias de valor, criar empresas nacionais competitivas, financiar pequenas e médias empresas, transformar agricultura em negócio, explorar mineração com maior valor acrescentado e criar milhões de empregos fora do Estado.
Parece estar fora de questão que a diversificação é condição para o crescimento a médio-prazo.
Crescimento sem transformação suficientemente inclusiva
O Banco Africano de Desenvolvimento coloca o problema de forma particularmente dura: 40,6% da população vive abaixo da linha de pobreza, enquanto o desemprego jovem permanece muito elevado. É esta realidade que frequentemente desaparece atrás dos grandes números.
Os projectos faraónicos palacianos ou de infra-estruturas aliados aos elefantes brancos de retorno duvidoso, que alimentam vorazmente a dívida pública, os crónicos ajustes directos que de excepção passaram a ser regra, a cultura do exibicionismo de grandes eventos e montra de luxos - não conseguem apagar o alastramento das crises económica e social, num contexto geopolítico cada vez mais tenso e impactante a nível global.
Interessa responder à pergunta fundamental de milhões de angolanos: Como melhorar o rendimento da família e acudir a demanda de emprego, acesso à escola, saúde, habitação, saneamento básico, energia, mobilidade urbana e interprovincial?
Angola financeira e a Angola informal
Existe, hoje, uma espécie de separação entre a economia que aparece nos fóruns empresariais e a economia em que vive a maioria dos cidadãos.
De um lado estão a banca, a BODIVA, os fundos de investimento, os eurobonds, o private equity, o investimento estrangeiro, o petróleo e os grandes projectos, a recorrente narrativa oficial.
Do outro, estão os mercados informais, o pequeno comércio, as cantinas, os vendedores-ambulantes, os transportadores, os pequenos agricultores, os armazéns, as oficinas e as milhares de microempresas.
A primeira Angola discute com pompa e circunstância, capitalização bolsista. A segunda discute como comprar comida amanhã. O desafio do próximo ciclo económico é aproximar estas duas economias.
Não através da criminalização da informalidade, mas através da sua formalização progressiva, acesso ao crédito, fiscalidade simplificada, formação profissional, segurança jurídica e integração nas cadeias formais de fornecimento.
O petróleo continua a financiar a transição que deveria conduzir para além do ouro negro. Esta é, talvez, a maior contradição económica do País.
Angola quer diversificar, mas continua a depender do petróleo para financiar a própria diversificação. O FMI alerta que a produção petrolífera mantém uma tendência estrutural de declínio e projecta crescimento de apenas 2,3% em 2026, abaixo das expectativas oficiais de crescimento superior a 3%.
A pergunta para 15 de Outubro é, portanto: Quanto tempo resta para transformar a renda petrolífera em capacidade produtiva não-petrolífera? O tempo está a diminuir.
Existe ainda um segundo grande desafio: a (des) confiança nas instituições.
Angola já entrou formalmente no ciclo eleitoral de 2027. A campanha de actualização dos dados dos cidadãos, através da chamada prova de vida, decorre de 15 de Junho de 2026 a 31 de Março de 2027, estando previstos 634 BUAP e mais de 10 mil brigadistas.
E a confiança não será construída apenas através da realização formal das eleições. Organizações da sociedade civil têm colocado no centro do debate a transparência do registo eleitoral, votação, contagem, transmissão e publicação dos resultados, bem como o acesso equitativo aos meios de comunicação e a participação dos observadores.
A ferida de Julho de 2025 continua politicamente aberta. Há também uma memória recente que não pode ser apagada pelos indicadores económicos.
A repressão dos protestos associados à greve dos taxistas de Julho de 2025 deixou dezenas de mortos, centenas de feridos e mais de 1.200 detenções, segundo a Human Rights Watch. A organização afirma que, até Setembro daquele ano, os resultados da investigação anunciada pelas autoridades ainda não eram públicos.
Um Estado da Nação que pretenda ser verdadeiramente nacional não pode falar apenas das alegadas realizações do Estado.
Tem, também, de falar das feridas do Estado. A confiança pública depende de justiça, responsabilização e transparência. A continuidade sistemática da intolerância política e dos obstáculos ao exercício da cidadania, liberdades, direitos e garantias dos cidadãos, a captura do Estado, fere a Nação.
O discurso de 15 de Outubro terá inevitavelmente uma dimensão pré-eleitoral, para dentro e fora do partido da situação, ainda que não seja formalmente um discurso de campanha.
A economia está, realmente, a criar oportunidades para a maioria? A diversificação está a produzir empresas e empregos ou continua excessivamente concentrada em grandes projectos? As instituições estão suficientemente aptas e independentes da armadura do partido-Estado, para garantir transparência e confiança nas eleições de 2027 como livres e justas? Como pretende o Estado reconstruir a relação de confiança com uma juventude que não encontra correspondência entre as suas expectativas e as oportunidades existentes?
O Estado da Nação não pode ser apenas o estado das contas públicas, das infra-estruturas ou da diplomacia económica. É também o estado da família angolana, do jovem desempregado, do professor, do enfermeiro, do camponês, do comerciante, do empresário nacional, do trabalhador informal, do estudante e do cidadão que espera justiça.
E há uma contradição fundamental que o discurso terá de enfrentar: Angola apresenta uma relativa estabilidade macroeconómica, mas continua a ter uma instabilidade social latente; apresenta grandes projectos de alegada transformação, mas uma capacidade limitada de transformar esses projectos em emprego massivo; apresenta relativo crescimento económico, mas ainda não produz crescimento suficientemente inclusivo.
Ao invés de escutar e ver nas TV até à exaustão os presumíveis méritos das obras do Governo, o cidadão comum demanda: "Que Angola está a ser construída - para quem, com que recursos e com que perspectivas para a maioria dos angolanos? O dia seguintes às eleições de 2027 pode ser aguardado com esperança e tranquilidade ou suspeição e dúvidas?
