Raras têm sido as medidas governamentais que tenham tanta aprovação popular como esta. Os angolanos adoram viajar. Do mesmo modo que quem ganha salários de miséria arranja dinheiro para bate-portas e pedidos e consequentes festas de casamento, também se desenrasca para as passagens e outras despesas. A TPA está sempre presente para dar a conhecer a grande satisfação de quem desfruta do prolongado.

A medida satisfaz quem vai para o Mussulo para o desperdício gastronómico usual e para o consumo compulsivo de álcool. Faz as delícias de quem aproveita para fazer cruzeiros de luxo, para participar num casamento em Singapura ou Londres ou dar uma festa a propósito do primeiro aniversário de um filho numa fazenda com centenas de convidados da elite angolana ou vindos de Portugal, todos viajando em jactos disponibilizados pelo endinheirado. Viva o petróleo, depois da seca que vinha desde 2014. Com a ajuda desinteressada do senhor Trump a engordar o orçamento.

O prolongado permite perceber que, apesar dos persistentes muros levantados pelos gestores do Estado na sua arte de mal governar, a sociedade vai costurando os fatos que lhe permite dar a volta por cima, ou seja, ser resiliente, como agora se diz. Vão aparecendo ofertas na restauração mais ao alcance de quem vive longe dos círculos que vivem à sombra do rentismo. Ouve-se falar de projectos turísticos que, se forem por diante, e apesar de estarem voltados para as elites, podem dinamizar certos nichos de mercados. E gerar empregos. E permitir o desenvolvimento de habilidades e capacidades.

O Executivo angolano tem insistido numa abordagem departamentalista da agricultura. Fala de fertilizantes como se fosse a solução mágica para o aumento da produção. Ou de tractores. Ou de correcção de solos. Fala de sistemas ou de cadeias de valor, mas isso não tem tradução na prática. Daí uma sucessão de fogachos sem lógica e sem coerência. As excepções - que existem, embora em dimensão reduzida, é bom ter isso em mente - produzem resultados evidentes.

Com o turismo acontece exactamente o mesmo. Malanje tem belezas naturais extraordinárias. As mais conhecidas são as Quedas de Kalandula, as Pedras Negras de Pungo e o santuário da Palanca Negra Gigante em Cangandala. Mas há muitas outras. As características do relevo permitem aos rios outras quedas (Musseleji, Bem Casados), rápidos (Cangandala) ou cachoeiras (Lutete). Outras belezas e locais históricos são o Miradouro de Kabatuquila, sobre a majestosa Baixa de Cassanji, a Mesa da Rainha Njinga, o túmulo de Ngola Kiluanje e o túmulo do Zé do Telhado, entre muitas outras.

Para se desenvolver o turismo não bastam belezas. É necessário muito mais. Estradas asfaltadas e sem buracos. As de Malanje são más. Foram reabilitadas nos últimos 20 anos e algumas re-reabilitadas. Mas estão cheias de buracos. Padecem do mesmo mal das outras estradas de Angola. O buraco, consequência natural da "mixa", surge, não é tratado, aumenta com o andar do tempo, aparece outro, e rapidamente a estrada é uma sucessão de buracos. Ninguém explica porque razão não há um serviço de manutenção das estradas. O Fundo Rodoviário, criado há vários anos para esse fim, não funciona. Obviamente, ganha adeptos a ideia de que é a expectativa da "mixa" numa nova reabilitação que determina tão estranho procedimento.

Quando se aproximava o fim da guerra, no princípio dos anos 2000, falou-se da possibilidade de ser criado um 4º ramo das Forças Armadas Angolanas com os efectivos excedentários. Para gerir a reconstrução, incluindo a manutenção das estradas. Nunca se percebeu a razão do descarte da ideia. Especula-se, apenas. Que o autor da ideia deveria ser descartado, como foi. Por razões políticas e financeiras. Surgiu em seu lugar o Gabinete de Reconstrução Nacional de triste memória. A nossa ciosa comunicação social pública deve ter pensado que não era assunto de interesse público. Silenciou. Penso que este assunto deveria voltar a ser abordado. Passou demasiado tempo, os efectivos não têm a mesma idade, mas o problema persiste. Trata-se de assunto de primeira prioridade e um modo para reduzir os efectivos e a despesa pública.

Mas não são apenas as estradas a condicionar o turismo. Exceptuando o caso de Kalandula, onde há algum serviço de hotelaria e restauração (caro ou de má qualidade) em todos os pontos turísticos atrás mencionados um turista não consegue comprar uma garrafa de água e muito menos fazer uma refeição. São locais malcuidados e sem saneamento básico. Nos postos de combustíveis, casas de banho funcionais (limpas e com água) são extremamente raras. O recurso é a "sentina". E como atrair turistas em grande número sem que o turista tenha garantias de assistência médica em caso de acidente ou de doença?

O desenvolvimento do turismo, afinal, padece das mesmas doenças que afectam o desenvolvimento do País. Desaproveitamento das capacidades humanas por razões de política partidária, que resulta na constante degradação das instituições públicas. Disfuncionamento do mercado por sobreposição de regras administrativas sobre regras económicas. Incapacidade de perceber e tirar partido da economia informal. Mau ambiente de negócios. Estabelecimento de prioridades em função de interesses partidários e outros e em prejuízo da solução dos problemas que afectam a população e a economia. Os investimentos no novo brinquedo da Chicala nos últimos três anos representam cerca de 10 (?) vezes os gastos no sector agrícola no mesmo período. Priorizar as estradas de Moxico Leste e Cuando em prejuízo das estradas Luanda-Benguela e Lubango-Huambo (que serve, ou deveria servir, o triangulo do milho) é sobejamente uma preciosa demonstração da arte de mal governar.

Insistir numa governação centralizada com base em instituições económicas extractivas que não criam as motivações e os incentivos necessários para as pessoas pouparem, investirem e inovarem é trilhar o caminho do fracasso. As instituições políticas extractivas condicionam as instituições económicas favorecendo o poder de quem beneficia da extracção. Esta é a razão Porque Falham as Nações, título do livro de Daron Acemoglu e James A. Robinson, que esteve na base da atribuição do Prémio Nobel da Economia de 2024.

Terminado o prolongado, o cidadão, a quem obrigam a fazer um registo oficioso ilegal, pois o que tem de fazer, face à lei, é apenas a prova de vida - que com tanta digitalização deveria ser da responsabilidade das instituições - regressa a casa. Descansado. Apesar de viver na Baixa de Luanda, não tem água em casa desde há 15 dias, e de "esquebra" também não tinha luz. É Angola daqui prá frente!