Recorro agora a duas obras essenciais, basilares: "Les Grands Créateurs de Jazz", de Gérald Arnaud e Jacques Chesnel e também "Aux sources du Jazz Noir- de Congo Plains à Léopoldville", cujo autor é Antoine Manda Tchebwa; três renomados académicos, para sublinhar, que a partir dos anos 20, em África, surgem versões que conjugam as músicas locais com o Jazz:
No Gana nasce o high- life, cujo grande criador é E.T. Mensah, a Ju-Ju, na Nigéria. Na África central, a música dos campos de trabalho coloniais, evolui com a independência para os Soukos e a Rumba do Congo, hoje património imaterial da humanidade, cuja grande referência é Franco TPOK Jazz; No Senegal, via Youssou N"Dour e Ismael Lô, o Mbalax. Nos townships sul-africanos desenvolvem-se nos anos 30 o Mbaqanga e o Jive, muito influenciado pelo Swing.
O "Jazz africano" e o "Jazz americano" têm em comum vários factores: dança e convívio, mas também uma "atitude militante, anti-colonial e pan-africana.
A partir dos anos 50, África torna-se para muitos jazzmen americanos um local de peregrinação, ou melhor, de encontros, de troca de experiências. De Armstrong, a Art Blakey, de Archie Shepp a Randy Weston, entre muitos outros, realizaram reuniões com os seus "soul brothers" africanos, o que facilitou o surgimento de grandes criadores: Manu Dibango (Camarões)Fela Kuti (Nigéria); Ahmed Abdul- Malik, de origem sudanesa. E na África do Sul, surgem figuras monumentais: o genial Abdullah Ibrahim (Dollar Brand), Hugh Masekela, Chris McGregor, Dudu Pukwana ou a eterna Miriam Makeba, que demonstraram, com doses quilométricas de talento, que o Jazz sul-africano não imita: africaniza!
A África independente reconheceu o valor, a beleza, a força e o encantamento do Jazz, mas uma parte significativa dos países africanos (África do Sul, Senegal, Nigéria e ainda Moçambique são excepções honrosas) - e das suas elites, as classes dominantes e/ou instaladas- nunca o interiorizou verdadeiramente, "nunca o absorveu no seu mosaico cultural", como mencionou o jazzófilo e crítico, António Curvelo.
O JAZZ em Angola
Em Angola, a sua presença não pode ser compreendida apenas como resultado de uma circulação passiva de modelos culturais coloniais, mas antes como parte de um processo activo de apropriação, ressignificação e afirmação identitária protagonizado por elites africanas urbanas. Estas elites - formadas por intelectuais, poetas militantes, ensaístas, músicos e estudantes - encontraram no Jazz uma linguagem estética capaz de articular modernidade, cosmopolitismo e consciência negra num contexto colonial marcado pela hierarquização racial e cultural.
Ao difundir-se por círculos privados, algumas emissões radiofónicas e encontros sociais restritos, o Jazz tornou-se simultaneamente um símbolo de distinção social e um espaço discreto de produção de pensamento crítico. Mais do que entretenimento, funcionou como mediador cultural entre Angola e a diáspora africana, conectando Luanda a outros centros do Atlântico Negro e oferecendo referências alternativas à narrativa colonial dominante. Este artigo propõe analisar o papel do Jazz em Angola enquanto prática cultural das elites africanas, destacando o seu valor simbólico, político e estético, bem como as suas interações com as tradições musicais locais e os projetos de emancipação intelectual e nacional.
A presença do Jazz em Angola revela-se, à luz desta análise, como um fenómeno profundamente político, ainda que raramente explícito. Ao ser apropriado pelas elites africanas urbanas, o Jazz deixou de ser apenas um produto cultural transatlântico para se tornar um instrumento de autoafirmação, distinção social e resistência simbólica. Através dele, essas elites reivindicaram o direito de serem simultaneamente modernas e africanas, recusando a dicotomia colonial que opunha tradição a progresso e negritude a sofisticação.
Mais do que um simples gosto musical, o Jazz configurou-se como um espaço de sociabilidade e de produção intelectual, onde se ensaiavam ideias de pertença, liberdade e futuro. A sua convivência com géneros musicais angolanos não resultou numa substituição cultural, mas num diálogo fértil que ampliou horizontes estéticos e contribuiu para a emergência de linguagens musicais híbridas no período pré e pós-independência. Assim, compreender o Jazz em Angola é compreender também as estratégias subtis através das quais as elites africanas promoveram poder, identidade e modernidade num contexto colonial adverso.
Termino esta segunda parte do artigo sobre a invisibilidade do Jazz que afecta as actuais elites africanas, recordando alguns factos essenciais, que convém não esquecer:
A Poética Militante e empenhada
Na chamada África lusófona, sobretudo a partir da segunda metade da década de 40 do século XX, o odioso comércio transatlântico de escravos africanos para as América (séculos XVI- XIX), o negro-americano, sua história, lutas e aspirações, constituíram área temática expressiva e facilmente destacável. Entre nós, esse papel de polarizador de energia de um grupo, sua referência activa e activista não parece ser excessivo atribuí-lo a Agostinho Neto, Viriato da Cruz, António Jacinto, Mário Pinto de Andrade (Bibi), Mário António [Angola], Noémia de Sousa [Moçambique] e Francisco José Tenreiro [São Tomé] - todos eles entenderam o Jazz não como exotismo importado, mas como linguagem de dor, insubmissão e modernidade negra. Isso cria uma base africana sólida antes de atravessar o Atlântico.
Por outro lado, convém igualmente ter presente que pensadores, sociólogos, teóricos, activistas políticos muito empenhados e diferenciados como William Du Bois, Frantz Omar Fanon (ponte directa entre África e a diáspora), os escritores James Baldwin, Richard Wright, Le Roi Jones e Malcom X ajudaram a criar um vocabulário de libertação que circulou entre Harlem, Paris, Conacri, Argel e Luanda.
Perante todas estas evidências, face ao silêncio do continente africano e das suas "novas elites" interrogo-me, baixinho:
- Onde estão, em África, os arquivos sérios de Jazz, os programas públicos de formação, os Festivais de referência, a crítica especializada, as políticas culturais consequentes? Onde está o reconhecimento de que esta música, nascida na diáspora africana, também nos pertence?
"Não me responde, avó Naxa?" (Viriato da Cruz, In: Sô Santo).