O documento apresenta uma riqueza estatística rara no nosso panorama desportivo e permite compreender melhor não apenas a realidade actual do basquetebol angolano, mas também os seus desafios estruturais.
A primeira reflexão surge da relação entre população e praticantes. Angola possui actualmente cerca de 36 milhões de habitantes e pouco mais de 4.500 atletas federados. Para um país que conquistou inúmeros títulos africanos e construiu uma história respeitada no continente, este número parece modesto.
Os dados mostram que continuamos a ser uma potência competitiva, mas ainda não somos uma potência de massificação.
Quando observamos experiências internacionais, percebemos melhor a dimensão do desafio. Portugal, com uma população próxima dos 10 milhões de habitantes, possui uma base de praticantes muito superior. Espanha e Brasil apresentam números incomparavelmente mais elevados, sustentados por fortes ligações entre escola, comunidade e clubes. O Egipto e a África do Sul, nossos concorrentes directos no contexto africano, também têm vindo a investir no aumento da base de recrutamento.
A questão central é simples: nenhum país consegue sustentar o sucesso desportivo durante décadas sem uma ampla base de praticantes.
É neste contexto que os números do Município do Cazenga merecem especial atenção.
Com uma população estimada em cerca de 1.750.000 habitantes, o Cazenga apresenta, através dos clubes Formigas do Cazenga e Rosinhas do Cazenga, um total de 197 atletas federados. Isto corresponde a aproximadamente 11,3 atletas por cada 100 mil habitantes.
O dado é particularmente interessante porque coloca o município acima de várias províncias angolanas em termos de densidade de participação no basquetebol organizado, ficando atrás apenas dos índices observados em Luanda e Benguela.
Mais impressionante ainda é perceber que este resultado é produzido essencialmente por dois clubes.
Isto demonstra que a questão não é apenas financeira. Liderança local, organização comunitária, capacidade de mobilização e trabalho de base continuam a fazer a diferença.
As Formigas do Cazenga e as Rosinhas do Cazenga mostram que projectos comunitários bem estruturados podem gerar impacto relevante mesmo em contextos marcados por limitações económicas e sociais.
Os dados da FAB revelam ainda uma forte concentração de atletas nos escalões de formação, sobretudo Sub-14, Sub-16 e Sub-18. Este é um sinal positivo, pois indica que existe uma base de renovação. Mas também representa uma responsabilidade acrescida para dirigentes, treinadores e decisores públicos.
O futuro do basquetebol angolano não será decidido apenas nos campeonatos séniores. Será decidido nas escolas, nos bairros e nos clubes de formação.
Se Angola pretende continuar entre as referências africanas da modalidade, terá de transformar a sua força demográfica numa força desportiva organizada. O verdadeiro desafio das próximas décadas não é apenas ganhar mais um Afrobasket. É multiplicar o número de praticantes, democratizar o acesso ao basquetebol e garantir que milhões de jovens tenham oportunidade de entrar em contacto com a modalidade.
Os títulos conquistam-se nos campos. Mas as grandes potências desportivas constroem-se muito antes disso, através da massificação, da inclusão e do investimento na base.
E os números agora divulgados pela FAB mostram claramente que ainda existe um enorme potencial por explorar.
*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga
