O Irão recusa deste o primeiro minuto que tenha estado por detrás da queda do helicóptero Apache AH-64 na segunda-feira, 08, como acusa o Presidente norte-americano, que usou esse "abate" para justificar a "punição" em curso contra Teerão.

A questão em cima da mesa de quase todos os analistas é saber se o Irão abateu mesmo o Apache sobre o Estreito de Ormuz, em água territoriais do Irão e de Omã, porque não há registo de a Guarda Revolucionária iraniana (IRGC) não reivindicar este tipo de "sucesso".

Pelo contrário, ainda o tinha feito horas antes da alegada queda do helicóptero norte-americano, que, segundo Donald Trump, apesar de ninguém ter visto imagens do aparelho ou dos pilotos, que conseguiram sair ilesos do seu interior "pousando" na água.

Com efeito, o Irão anunciara antes, com gáudio, o abate de um drone de vigilância e ataque MQ-4C Triton, o mais sofisticado do arsenal dos EUA, que custa 250 milhões USD, o que não ajuda a perceber porque negaria o abate do Apache AH-64, que tem um valor de cerca de 50 milhões USD e, ainda por cima, tendo os seus dois pilotos sido salvos.

Esta sucessão de episódios torna bastante plausível a tese que está a correr entre vários analistas, como Daniel Davies, um antigo coronel das forças especiais dos EUA, no seu podcast Deep Dive, de que o abate do Apache é "uma invenção" para justificar os ataques.

E com isso, a nota de que Trump não tem apenas como estratégia impor a paz pela força mas também pela... farsa, porque o Irão, como o próprio disse na sua rede social Truth Social, "está a levar muito tempo para aceitar um acordo" que permita acabar com a guerra " e agora tem de pagar a factura" dessa teimosia.

Com efeito, na noite de quarta-feira, 10, para hoje, quinta. 11, centenas de misseis Tomawahk atingiram perto de uma dezena de alvos no Irão, com especial incidência no sul do país e na capital, Teerão.

A resposta do Irão foi, como a IRGC tem repetido insistentemente, e foi sublinhado de novo pelo Presidente Massoud Pezeshkian ainda esta semana, imediata e dezenas de misseis balísticos e drones atingiram bases dos EUA na Jordânia, no Kuwait e no Bahrein.

E, como também estava previamente anunciado por Teerão, assim que os tomahawk foram lançados, o Estreito de Ormuz, que estava a ser reaberto por etapas, foi novamente integralmente encerrado com todos os navios, sem excepção, de novo sob a mira dos misseis e drones iranianos.

Donald Trump, após a vaga de misseis desta noite, até porque o Estreito de Ormuz fechado é o "calcanhar de Aquiles" norte-americano nesta guerra, devido ao impacto que isso tem na economia global, veio anunciar que, por agora, a retaliação pelo abate do Apache estava concluída.

Mas, dando asas à tese de que se tratou de uma forma de tentar "apressar" os iranianos a assinar um acordo, ameaçou que se não houver avanço claro na formatação de um memorando de entendimento, haverá novos ataques.

Ao raiar da aurora nesta quinta-feira, 11, sobre o Golfo Pérsico, tanto iranianos como norte-americanos, deixaram arrefecer as armas, havendo mesmo sinais de que também em Teerão se procura não fazer implodir totalmente o cessar-fogo, apesar de pouco mais que escombros dele restar ao fim de quase dois meses e meio em que, na verdade, as armas nunca se calaram.

Com efeito, depois de seis semanas de guerra de alta intensidade, começada por americanos e israelitas a 28 de Fevereiro, com intensos bombardeamentos sobre o Irão, marcados pela morte do então Líder Supremo Ali Khamenei, e 168 crianças assassinadas por dois tomahawk dos EUA, no início de Abril Washington e Teerão anunciaram um cessar-fogo.

Desde então, rara foi a semana em que as tréguas não foram desafiadas, desde logo no sul do Líbano, que é para Teerão parte da frente desta guerra, onde Israel insiste em manter uma ocupação ilegal e agressiva, estando a proceder, tal como fizera em Gaza, ao arrasar de localidade após localidade.

Face a essa invasão israelita do Líbano, o Irão atacou na passada semana o norte de Israel, com Telavive, com apoio dos EUA, a ripostar com uma chuva de misseis sobre o Irão, até que na segunda-feira desta semana surgiu o episódio do Apache alegadamente abatido, que serviu a Trump para justificar os ataques ao Irão da noite passada.

"Levaram muito tempo para assinar um acordo que seria muito bom para eles e agora vão ter de pagar o preço", escreveu Donald Trump na sua rede social, desfazendo assim a tese de que os ataques foram uma resposta ao "abate" do helicóptero sob o Estreito de Ormuz.

Mas se o abate do Apache é uma farsa evidente, a ideia de que Trump persegue sem titubear a sua estratégia de querer chegar á paz pela força é tão real como as explosões que se ouviram nas últimas horas de ontem para hoje, quinta-feira, 11.

Só que em Teerão não parece haver qualquer disponibilidade para recuar na igualmente conhecida estratégia das autoridades iranianas de não abdicarem das suas posições negociais iniciais.

Que passam por não abdicar do seu programa nuclear civil ou dos seus misseis balísticos dissuasores, do controlo soberano do Estreito de Ormuz, de exigir a devolução de mais de 20 mil milhões USD congelados no exterior, o levantamento das sanções e que nas frentes do Líbano e de Gaza os israelitas sejam obrigados a desocupar as terras que não lhes pertencem.

Todavia, se o Irão tem mantido as suas exigências de forma coerente, do lado norte-americano, as condições maximalistas de total submissão do Irão têm vindo a ser fortemente diluídas, sendo que hoje Donald Trump só fala, praticamente, em evitar que o Irão não adquira uma arma nuclear e que o Estreito de Ormuz seja reaberto.

Ora, o que não se percebe é como é que se chegou aqui, porque estas duas condições nem sequer eram um problema antes deste ciclo de guerras que começou a 12 de Junho de 2025 e ganhou maior dimensão a 28 de Fevereiro deste ano.~

Desde logo porque foi Trump que retirou os EUA do acordo nuclear com o Irão, a Rússia, China e países europeus que foi assinado em 2015 por Barack Obama e garantia que o Irão jamais avançaria para a dimensão militar do seu programa nuclear.

Além disso, os iranianos sempre insistiram que não querem inscrever o seu nome na lista das potências nucleares, e existem mesmo duas fatwas (decretos religioso) do Líder Supremo do Irão a proibir que esse caminho seja trilhado.

E depois porque o Estreito de Ormuz, antes de Fevereiro último estava aberto e sem quaisquer condicionamentos por parte do Irão à passagem livre de todas as embarcações, incluindo de Israel e dos países aliados de Israel e dos EUA no Golfo Pérsico.

Essa a razão pela qual alguns analistas, como Douglas MacGregor, antigo coronel norte-americano e conselheiro da primeira Administração Trump, notarem que esta guerra "nada tem a ver com os interesses dos EUA mas corresponde integralmente ao que Israel persegue" e é resultado da "tremenda influência" do lobby israelita em Washington.

Também Larry Wilkerson, ex-chefe de gabinete do então secretário de Estado Colin Powell na Administração Bush, aponta como "verdadeira motivação de Donald Trump" o apoio "incondicional e submisso" à estratégia do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyhau e não os interesses dos EUA e dos norte-americanos.

Isto, no sentido em que Netanyhau diz claramente e sem titubear, repetidamente, que o seu objectivo maior é "desmantelar o regime iraniano" e substituir a liderança dos aiatolas por um regime leal ao ocidente e a Israel, fazendo regressar ao poder em Teerão a monarquia do antigo Xá Reza Pahlevi.

Isso seria possível apenas com a queda do actual poder em Teerão e colocando o filho do antigo Xá, que foi deposto pela revolução islâmica em 1979, Reza Pahlevi júnior no poder, como o próprio "monarca" no exílio não esconde que está a procurar conseguir com apoio de Telavive e de Washington.