E isto é uma metáfora que cheira mal. Porque em Angola não tratamos mal o lixo. Tratamos mal a ideia de que ele existiu. Tratamos mal a memória do que consumimos. O plástico da água que bebemos, a casca da fruta que mastigámos, a embalagem do óleo que fritou o peixe. Tudo isso, depois de nos servir, torna-se invisível. Tiramos os olhos de cima e o problema dissolve-se. Como mágica. Como política. Como promessa.

Fala-se muito, por estas bandas, em economia circular. É uma expressão bonita, redonda, que dança. Cheira a sustentabilidade, a futuro verde, empregos verdes, a selos europeus. A logística reversa então, essa é quase poesia: o produto volta à origem, a embalagem reencarna, o planeta dá um suspiro e diz "obrigado". O problema é que, em Angola, a economia circular tem outra forma: é dar a volta ao quarteirão com o saco na mão, a pingar, à procura de um contentor que não tenha sido raptado por um camião fantasma. É circular, sim. Mas é a ciranda da canseira.

E já que estamos a falar de contentores, permita-me uma confidência: nós não fazemos gestão de resíduos. Fazemos gestão de contentores. Começa no balde pequeno, lá em casa, onde o lixo dorme ao lado da paz doméstica, o resto que sobra. Depois migra para o contentor da rua, onde há, pois, a regra dos 300 metros não se aplica na periferia. Esses contentores de tamanho médio ou caçambas de tamanho maior. Esses que aparecem quando o mau cheiro já subiu ao primeiro andar. Depois sobe para um contentor ainda maior, barulhento, que passa quando passa. Já foi pior, há que reconhecer. E finalmente desagua no contentor supremo: o aterro. Um contentor gigante, sem tampa, sem paredes, sem vergonha.

Um contentor que uns insistem em chamar "sanitário", quando todos podemos ver que de santo aquilo só tem o cheiro.
E assim vamos empurrando o problema para contentores cada vez maiores. Até que um dia o maior de todos, os Mulenvos, por exemplo, se recusa a receber mais. Fecha a porta. Dá com a chave na consciência. E nós, pasmados, percebemos que nunca gerimos o lixo. Apenas o fomos empurrando com a barriga. Como quem varre o capim seco para debaixo da cama e depois troca de quarto.

Os deputados não conseguiram entrar. Talvez o caminho estivesse mesmo intransitável. Ou talvez, e a ironia é esta, tenham sido confundidos com mais um monte de resíduos, desses que ninguém recolhe, ninguém trata, ninguém quer.

Há, porém, quem entre sem cartão de deputado. São as famílias que ali buscam o que o país lhes negou. Mulheres de pés descalços, crianças de olhos grandes, homens de saco na mão. Para eles, o aterro não é um problema. É a mercearia do impossível. O plástico vende-se, o ferro pesa-se, a comida vencida ainda alimenta. Enquanto os eleitos discutem o acesso, os eleitores já lá estão. E não precisam de ponte. Precisam que o lixo não falte. Essa é a economia circular verdadeira: os de cima empurram, os de baixo apanham. E o círculo fecha-se, todos os dias, sem selo europeu, sem sustentabilidade, sem vergonha.
Que se lixe o lixo?