Apesar de Lionel Scaloni ter procurado transmitir, na antevisão, que este seria apenas mais um jogo, tornou-se evidente desde o apito inicial que a dimensão do embate transcendia o relvado. Para os jogadores dos "Três Leões" e para a Argentina, carregada pela memória de séculos de disputa e décadas de reivindicações, das Malvinas ao eco de Wembley 1966 e México 1986, tratava-se de um confronto de enorme intensidade. As duas selecções respeitaram-se mutuamente, mas também recorreram a entradas fortes e faltas tácticas para impor a sua presença.

Durante a primeira parte, as oportunidades escassearam e o equilíbrio falou mais alto. Na segunda metade, surgiram os golos e aumentou a ameaça junto das balizas. A Inglaterra adiantou-se por Anthony Gordon, que se antecipou a Nahuel Molina após cruzamento de Morgan Rogers, finalizando com frieza perante Emiliano Martínez.

A resposta sul-americana veio por intermédio do perigo criado por Alexis Mac Allister, que acertou no poste, e pelos remates de meia-distância de Enzo Fernández, antes de o médio do Chelsea encontrar espaço para bater Jordan Pickford, que fez uma grande exibição, e devolver a esperança à "Albiceleste".

Pelo caminho, Lionel Messi mostrou novamente como identificar clareiras onde poucos as vislumbram, aproveitando os espaços que foram aparecendo à medida que a Inglaterra recuava para proteger demasiado cedo a vantagem e reforçava o sector defensivo. Uma escolha de Thomas Tuchel que os ingleses pagariam caro.

Aos 85 minutos, um canto batido de forma curta por Messi libertou Enzo Fernández, que calçou as chuteiras de Qatar 2022 por superstição e reencontrou a mesma aura vencedora do Mundial conquistado no Catar, com um remate colocado para o fundo das redes. Mas foi Lautaro Martínez, lançado do banco, a completar a reviravolta aos 90+2 minutos, de cabeça.

"La Scaloneta" construiu o triunfo entre passado e presente. Com duas assistências, aos 39 anos, Lionel Messi continua a alterar o destino dos grandes jogos através da inteligência, da leitura e da capacidade de adaptação ao que cada momento exige. O 10 prolongou o eco de Maradona e levou a equipa aos ombros frente à Inglaterra com um recital na segunda parte.

Para os homens às ordens de Thomas Tuchel, fica a sensação de uma oportunidade perdida e resta disputar o terceiro lugar frente à França, depois de terem estado perto de transformar a resistência num resultado histórico. No entanto, uma Argentina que nunca deixou de acreditar e lutar até ao fim voltou a operar a reviravolta.

Agora, a "Albiceleste" regressa à final do Mundial, onde terá pela frente a Espanha, o último obstáculo rumo ao bicampeonato. Entre o tango e o ritmo do flamenco, a competição prepara-se para coroar os argentinos com a quarta estrela ou os ibéricos com o segundo título no torneio.