Com as duas últimas semanas claramente marcadas pelo crescente das tensões militares entre os EUA e o Irão, com os norte-americanos a estacionaram uma poderosa armada militar nos mares da região do Golfo Pérsico, os mercados portaram-se como de costume: a matéria-prima protegeu-se aumentando o seu valor.
Sendo o verde uma camuflagem difícil para o "ouro negro", os analistas dos mercados não tiram os olhos da Casa Branca, em Washington, onde Donald Trump tem, quase em simultâneo, feito ameaças a Teerão e propostas de paz condicionais.
O resultado foi um sobe e desce permanente, correspondendo as subidas à percepção de um ataque iminente dos EUA ao Irão e as descidas à amenização do tom ameaçador do Presidente norte-americano e à retórica iraniana no sentido de que a reacção a um ataque não será "soft".
Actualmente está e cima da mesa uma proposta de Trump - havendo rumores de que estejam a decorrer conversações entre delegações em Omã -, ao Irão para que aceite negociar um acordo sobre o seu potencial nuclear civil, a sua capacidade de dissuasão através dos seus sistemas de misseis e o apoio aos aliados regionais..
Tudo aquilo que Teerão já fez saber que é intocável nos termos colocados por Washington, porque atenta à sua autonomia e soberania, mas que está em cima da mesa a possibilidade de negociar se os EUA aceitarem falar de igual para igual sem a ameaça da ponta das armas...
Facto é que os analistas entendem que Trump está a recuar na sua impetuosidade e acreditam que não haverá uma guerra desenfreada, pelo menos, com o Irão, mas não acreditam tanto que os problemas já estejam sanados.
É por isso que o barril de Brent, o que serve de referência maior para as ramas exportadas por Angola, estava esta quinta-feira, 05, perto das 12:30, hora de Luanda, a valer 68,7 USD, uma ligeira quebra de 0,6% face ao fecho de ontem.
São bons números para Luanda, cerca de 7 USD acima dos 61 usados para referência médio na OGE 2026, mas também inquietantes porque mostram á saciedade que uma "melhoria" acentuada das relações entre iranianos e norte-americanos rapidamente atiram os gráficos para o vermelho, e no vermelho é mais fácil que no verde o barril de crude camuflar-se...
Isto, numa altura em que a OPEP+ está a recuar também na linha que manteve ao longo de quase todo 2025 com mensais e substanciais acréscimos de produção, o que gerou uma desvalorização acentuada da matéria-prima da qual ainda muito depende Angola.
Com efeito, em Novembro o "cartel" congelou o seu programa de recuperação de quota devido a um evidente e crescente excesso de produção, tendo agora, neste Sábado, em nova reunião de peritos, decidido por manter intocada a produção para Março. Uma boa nova para o Governo angolano.
Todavia, ainda com uma dependência tão vincada das exportações de crude, mesmo que a diminuir ano após ano, em Angola, como, de resto, noutras dezenas de países com as mesmas características em todo o mundo, este momento...
... é mais uma razão para não se perder os mercados de vista
O actual cenário internacional tende a manter os preços ainda acima do valor estimado para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, valor conservador mas aconselhável, atendendo aos altos e baixos e às incertezas globais...
Ainda assim, Angola é um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.

