Há vozes e vozes de instrumentos que me acompanham desde as primeiras blue jeans, que moldaram a minha paixão pelo Jazz. São Artistas que, mesmo vindos de outras décadas, falam connosco como se estivessem aqui.
O Jazz tem esse poder: atravessa tempos e fronteiras, liga-nos uns aos outros e devolve-nos a sensação rara de pertença.
Mas, deixem-me dizer-vos isto bem do fundo do coração: o Jazz enfrenta algumas patologias: a primeira, e de longe a mais frequente, é um certo racismo estético. A segunda, que não é necessariamente a última, chama-se invisibilidade.
A Pertinência de se regressar a Ralph Ellison, hoje
É neste horizonte que a reflexão de Ralph Ellison (1914-1994) se impõe com renovada urgência. Em "Invisible Man" (O Homem que ninguém via, Portugália Editora), Ellison não escreveu apenas um grande romance sobre o racismo na sociedade norte-americana; escreveu uma obra seminal sobre a invisibilidade como condição humana moderna. O seu protagonista não é invisível por inexistir, mas porque não é reconhecido. A violência maior não é apenas a exclusão social, mas a negação da escuta. O racismo surge, assim, não como um problema restrito a uma comunidade, nem como um conflito entre negros e brancos, mas como uma expressão extrema de um problema mais vasto: a falha do homem em reconhecer plenamente o outro como igual.
Ellison compreendeu que romper essa invisibilidade exige voz, risco e imaginação. Não por acaso, o seu pensamento dialoga intimamente com o Jazz, música que conhecia profundamente e sobre a qual escreveu com rara clareza intelectual. Tal como o sujeito invisível, o Jazz nasce num espaço de tensão permanente entre marginalidade e afirmação, entre exclusão e criação.
A expressão "homem invisível" significa, no contexto deste romance, que abarca não apenas a questão racial, mas também algo muito mais amplo: a problemática do indivíduo em busca da sua identidade. O héroi explica-o nas primeiras páginas da sua confissão: "Sou invisível, porque as pessoas se recusam a ver-me. Entende-me?". De acordo com John Brown, autor da obra "Panorama da Literatura Americana do século XX", editada pela Dom Quixote, em 1973, a personagem - que não tem nome- é negra. Mas, "não é invisível por causa da sua cor; cada homem, seja de que raça for, partilha dessa invisibilidade numa civilização em que o indivíduo perdeu a sua identidade, onde vive encerrado em si mesmo, sem verdadeira comunicação com os outros" (pg. 218).
Ellison nasceu em Oklahoma City, onde iniciou uma carreira de músico de Jazz, que terá marcado muito o seu percurso. Estudou depois música e, mais tarde, escultura em Nova Iorque, onde encontrou vários escritores negros, nomeadamente Richard Wright e James Baldwin, que o encorajaram a escrever.
Entre invisibilidade, orfandade e regresso: Ellison, Langel e Dollar Brand
Ralph Ellison mostrou, em "Invisible Man", que a modernidade negra nasce de uma ferida: a de existir sem ser visto, de falar sem ser ouvido, de criar sem ser reconhecido. O Jazz, omnipresente no romance, não surge como ornamento, mas como metáfora central dessa condição - uma arte construída a partir da fragmentação, da improvisação forçada, da reinvenção constante do Eu num mundo hostil. O Jazz, em Ellison, é a linguagem do invisível.
O autor René Langel, em "Le Jazz, orphelin de l"Afrique" O Jazz órfão de África", desloca a ferida para outro ponto: interroga a ideia de filiação africana e propõe o Jazz como "órfão", produto de uma diáspora brutalmente privada da sua cultura, mais moldada pelo Ocidente do que herdeira directa de África. A sua tese é polémica, mas tem o mérito de romper com romantismos fáceis. Mas também corre o risco de confundir ruptura histórica com apagamento simbólico. O Jazz pode não ser filho legítimo de uma África intacta - mas é, sem dúvida, descendente de uma África violentamente interrompida. A tese de Langel- embora controversa e contestada por alguns musicólogos, nomeadamente Scott DeVeaux, Ingrid Monson, e especialmente Amiri Baraka, LeRoi Jones, cujo livro fundamental "Blues People: Negro in White America", foi traduzido e editado no Brasil, em 1967, pela Editora Record. A tese de Langel, dizia, sublinha, no entanto, a complexidade histórica das influências que levaram ao nascimento do Jazz.
É aqui que o pianista e educador de Cape Town, Dollar Brand, aliás Abdullah Ibrahim (1934- ), se torna decisivo. A sua obra encarna a resposta musical tanto à invisibilidade de Ellison como à "orfandade" de Langel. No seu piano, o Jazz regressa a África não como nostalgia, mas como consciência. Música de Cape Malay, cânticos islâmicos, hinos cristãos, pulsação dos townships e liberdade afroamericana fundem-se numa estética que não procura provar origens, mas reconstituir sentidos. Dollar Brand não pergunta se o Jazz é africano; ele faz o Jazz soar africano, no presente.
Assim, Ellison descreve a condição, Langel provoca o debate, e Dollar Brand oferece a síntese viva: o Jazz como arte da diáspora que, ao regressar ao continente africano (a África do Sul é o farol do Jazz em África!), deixa de ser invisível e recusa ser órfão. Torna-se, antes, filho da fractura e da memória, espelho sonoro de um continente que ainda hesita em reconhecer, nesta música, uma das suas mais belas heranças modernas.
Ao ignorar o Jazz, a quase generalidade das elites africanas não estão apenas a rejeitar um género musical- estão a recusar uma história- a da violência, da reinvenção, da inteligência estética negra e uma das mais profundas expressões da sensibilidade africana.
Jazz: a arte africana que África insiste em não ver (I)
"De ilusão também se vive" (Fado de Júlia Lopes)
No Jazz, como na vida, falar do futuro sem ouvir o passado é um risco - talvez uma impossibilidade. Desde as suas raízes mais profundas, o Jazz ergueu-se como voz da liberdade, como espaço de resistência e como casa aberta- e acolhedora- a quem nunca teve casa. Foi música que se levantou contra o racismo, que denunciou injustiças, que falou de dor e de força, de luta e dignidade.
Foi também- e continua a ser- palco para afirmar a igualdade de género, para revelar talentos que durante demasiado tempo estiveram escondidos ou subvalorizados. Hoje, ao escutarmos estas canções, de onde o Jazz emergiu, lembramos que cada nota carrega histórias de coragem- de pessoas concretas.
No Jazz, como na vida, falar do futuro sem ouvir o passado é um risco - talvez uma impossibilidade. Desde as suas raízes mais profundas, o Jazz ergueu-se como voz da liberdade, como espaço de resistência e como casa aberta- e acolhedora- a quem nunca teve casa. Foi música que se levantou contra o racismo, que denunciou injustiças, que falou de dor e de força, de luta e dignidade.
Foi também- e continua a ser- palco para afirmar a igualdade de género, para revelar talentos que durante demasiado tempo estiveram escondidos ou subvalorizados. Hoje, ao escutarmos estas canções, de onde o Jazz emergiu, lembramos que cada nota carrega histórias de coragem- de pessoas concretas.

