Este episódio, ocorrido nas últimas horas, é um dos mais violentos entre as forças de segurança de Cuba e cubanos nos EUA exilados, fortemente armados, que se aproximavam da ilha numa lancha rápida matriculada em Miami, Florida, é um dos mais violentos entre os dois países em décadas.
E surge depois de ameaças nítidas do Presidente norte-americano poder ordenar um ataque militar a Havana para mudar o regime comunista que vigora na ilha desde 1959, quando guerrilheiros liderados por Fidel Castro e Che Guevara depuseram o ditador Fulgêncio Batista, um fiel servidor de Washington.
Recorde-se que Donald Trump, depois da operação em Caracas, a 03 de Janeiro, onde o Presidente Nicolas Maduro foi raptado e levado para os EUA, chegou a afirmar que Havana seria o próximo objectivo de mudança de regime e que o seu chefe da diplomacia e Conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, daria um "excelente Presidente de Cuba".
E este episódio sucede ainda numa circunstância em que Washington apertou ainda mais o bloqueio económico a Cuba, impedindo a passagem de petróleo e combustíveis para a ilha caribenha, gerando uma crise aguda que levou ao fecho das zonas turísticas, a principal fonte de receitas do regime de Havana.
E sem o petróleo que a Venezuela deixou de fornecer depois do "golpe" de Washington no início deste ano, o Presidente cubano, Miguel Diaz-Canel, ficou em severas dificuldades para manter o país a funcionar, com quase todos os aviões da Cubana de Aviación no chão e os hotéis encerrados...
Num ambiente em que uma intervenção militar dos Estados Unidos em Cuba é esperada a qualquer momento, depois das ameaças de Trump, este episódio da lancha rápida com exilados cubanos armados - a fazer lembrar a falha invasão da "Baia dos Porcos", em 1961 - está a ser analisado em alguns corredores como um possível rastilho para abreviar essa mesma operação militar de decapitação do regime em Havana.
A "Invasão da Baía dos Porcos", ordenada pelo então Presidente Johen Kennedy, foi uma tentativa falhada de invadir Cuba em Abril de 1961, na qual participaram exilados cubanos anticastristas treinados pela CIA, que se revelou um desastre monumental para as intenções de Washington.
Agora, segundo The Guardian, as forças cubanas mataram pelo menos quatro exilados cubanos que seguiam numa lancha rápida com registo nos EUA, fortemente armados, claramente dentro das águas territoriais exclusivas cubanas e que foram, citando fontes de Havana, os primeiros a abrir fogo sobre a patrulha cubana.
De acordo com o ministro do Interior de Cuba, Lázaro Alberto Álvarez Casas, um general, o grupo abatido pelas forças cubanas era constituído por elementos antigovernamentais, armados com armas automáticas, camuflados militares, explosivos e miras telescópicas, alguns destes "conhecidos das autoridades" em Havana por organização de acções de desestabilização.
Marco Rubio, o secretário de Estado dos EUA, equivalente a ministro das Relações Exteriores, que Donald Trump gostaria de ver como Presidente de Cuba, já veio garantir que não se tratou de uma operação norte-americana e não há quaisquer elementos oficiais de Washington envolvidos.
No entanto, adiantou, ainda citado pelo jornal britânico, The Guardian, estão a ser realizadas investigações para apurar todos os factos a cargo da Embaixada dos EUA em Havana, afirmando que "não serão tiradas conclusões a partir do que Cuba está a dizer" acrescentando estar "confiante de que tudo será devidamente apurado" antes de uma "resposta adequada".
Entretanto, na perspectiva de Cuba, mesmo que nos EUA estejam a correr, especialmente nas redes sociais afectas à oposição cubana radicada na Florida, a possibilidade de ter sido uma "operação de falsa bandeira", onde os cubanos procuram implicar Washington no sucedido, este é um episódio de "terrorismo".
Segundo o ministro Lázaro Alberto Casas, na lancha seguiam dez indivíduos, todos fortemente armados, tendo quatro sido abatidos e os restantes feridos e em tratamento hospitalar ou detidos, tudo indicando que o seu objectivo, de acordo com Havana, era precisamente atacar a patrulha cubana e regressar a Miami.
Alguns analistas lembram que entre os elementos mais radicalizados da oposição cubana em Miami existem grupos que há muito defendem este tipo de ataques e que, ao verem a crescente crispação entre Washington e Havana, procuraram com este ataque "incendiar a pradaria" apressando uma intervenção de larga escala dos EUA sobre Cuba.
O facto de seis dos 10 exilados terem cadastro em Havana, integrando a "lista nacional de indivíduos e entidades ligadas a violência contra o Estado" e que a polícia cubana identificou com nome e idade, aproxima os factos da tese cubana de procura de levar o fogo ao barril de pólvora.
Seja qual for o "húmus" para este episódio "caliente" entre Havana e Washington, as coisas correram claramente mal e dificilmente os EUA se embrenharão numa nova frente de guerra por causa do que sucedeu no Mar das Caraíbas.
Mas os analistas admitem que este episódio venha ainda a ser usado para futuras acções dos EUA em Cuba, o que só deverá acontecer quando Washington tiver resolvido o problema no Médio Oriente com o Irão.











