A necessidade de intervir militarmente surge, segundo Donald Trump, para impedir o regime de condenar à morte os alegados agentes estrangeiros que no terreno propagaram a revolta mas que, na perspectiva de Washington, são manifestantes normais descontentes com o Governo dos aiatolas.

Todavia, que a Mossad e a CIA tiveram um papel na expansão dos protestos para o patamar da violência foi admitido por Mike Pompeo, antigo chefe da CIA e ex-secretário de Estado de Donald Trump, que viu elementos da secreta israelita entre os manifestantes, elogiando a sua coragem e determinação no derrube do regime iraniano.

Isso aconteceu quando, segundo analistas, a intelligentsia israelita e americana aproveitaram os protestos legítimos contra o aumento do custo de vida gerado por uma súbita crise cambial no Rial iraniano para subir a parada para o patamar da contestação ao Líder Supremo, o aiatola Ali Khamenei, e dar espaço a uma nova "revolução colorida".

As autoridades iranianas, dizem, pela voz do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, que tal sucedeu quando grupos de infiltrados a partir de países vizinhos, como a Turquia e o Iraque, promoveram a violência contra a polícia e as instituições iranianas num contexto de manifestações populares legítimas.

Todavia, ainda segundo vários analistas, a crise cambial do Rial, que perdeu mais de 50% no final de Dezembro, teve como origem as sanções pesadas dos EUA e da União Europeia, que limitam a venda de crude iraniano e o acesso a dólares, o que, por sua vez, alimenta a flamejante inflação que deixa as famílias sem poder de compra gerando forte descontentamento popular com a Governação de Khamenei e do Presidente Masoud Pezeshkian.

Por detrás desta vaga de protestos, que atingiu dezenas de cidades no Irão entre 01 e 10 de Janeiro está a estrutura organizacional das conhecidas "revoluções coloridas" que desde 2011 levaram o caos a vários países do Médio Oriente e do Norte de África, como são disso exemplo a Tunísia, o Egipto, a Líbia, a Síria, ou ainda a Bielorrússia e a Arménia.

No entanto, desta feita, ao que tudo indica, tal não sucederá porque, como já o admitiu o ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, e a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, em declarações raras de desalinhamento com os EUA, provavelmente motivadas pela ameaça da Casa Branca de "roubar" a Gronelândia à Dinamarca (Ver links em baixo), "os iranianos podem querer mudar o regime, mas não aceitam que essa mudança seja organizada e planeada no exterior".

Com um número de mortos que vai dos 300 aos 2400, dependendo das fontes, ao longo dos 10 dias de protestos, no início de Janeiro, esta crise iraniana foi uma das mais violentas desde que o regime do Xá Reza Pahlavi foi deposto em 1979 pela revolução islâmica e está a ser aproveitada pelos EUA e Israel para fragilizar e desestabilizar, mais uma vez, o poder em Teerão.

Embora nos últimos dias as ruas onde os protestos cresceram em violência e imagens chocantes que inundaram os ecrãs das televisões e jornais internacionais, estejam agora a ser palco de gigantescas manifestações de apoio ao regime, em Washington o ímpeto de mudança de regime ainda não esmoreceu.

Isto percebe-se pelas últimas declarações do Presidente Donald Trump que, em dois dias, pediu, embora com um desfasamento temporal evidente, já com as ruas ocupadas por milhões de apoiantes do regime, ao povo iraniano para "tomar as instituições do Estado" porque "a ajuda vai a caminho", numa clara alusão a uma intervenção militar.

A essa sugestão de iminente ataque ao Irão, que, em Teerão, que o Presidente Masoud Pezeshkian e o aiatola Ali Khamenei já disseram que terá uma "resposta célere e devastadora" sobre Israel e sobre os interesses norte-americanos no Médio Oriente, seguiu-se a ordem de Trump para que "todos os americanos" no Irão deixem o país de imediato.

A partir do Air Force 1, Donald Trump, questionado pelos jornalistas, avisou o Irão que qualquer condenação à morte de manifestantes, agentes da Mossad e da CIA, segundo as autoridades iranianas, terá consequências devastadoras, ainda mais sérias que as de 22 de Junho do ano passado.

Nessa data, ao fim de 12 dias de guerra entre Israel e o Irão, com ambos os lados a trocarem vagas sucessivas de ataques com misseis e drones de longo alcance, Trump enviou os estratégicos bombardeiros B1 para atacar a infra-estrutura nuclear iraniana, o que colocou um ponto final nas hostilidades israelo-iranianas.

E agora, com Israel na expectativa, mas a par das movimentações americanas, até porque o plano de ataque ao Irão neste início de 2026 foi culminado com a ida do primeiro-ministro Benjamin Netanyhau à casa de Trump em Mar-a-Lago, na Florida, a 29 de Dezembro, onde esteve reunido também com as chefias militares e os secretários da Guerra, Pete Hegseth, e de Estado, Marco Rubio, os EUA voltam a colocar uma intervenção militar no Irão no topo da agenda.

Esse momento, se Trump cumprir a ameaça, pode acontecer quando, segundo os media internacionais, se cumprir a sentença de morte aplicada por um tribunal iraniano a Erfan Soltani, um homem de 26 anos que foi detido, com milhares doutros, no pico dos protestos, em Teerão.

A Amnistia Internacional já veio acusar o regime de estar a acelerar condenações sumárias de forma a impedir que os acusados tenham tempo para organizar a sua defesa, usando esse método para dissuadir a continuação dos protestos, sendo que entre as acusações mais comuns nestes processos está a ligação dos condenados a interesses estrangeiros, desde logo à CIA e à Mossad, ou ainda aos britânicos do MI6.

Entretanto, recorde-se ainda (ver links em baixo), depois de Donald Trump ter decretado tarifas suplementares de 25% para todos os países que mantenham negócios com o Irão, a China já veio dizer que não tolerará a "judicalização extraterritorial" promovida neste caso pelos EUA e que agirá com determinação na defesa dos seus interesses, avisando Washington que não deve interferir nos assuntos internos dos outros países, como determina a Lei Internacional.

Também a Rússia alinhou pelo mesmo diapasão, com o mesmo alinhamento de críticas e acusações a Washington, até porque, depois do ataque à Venezuela, o Irão parece ser o alvo que se segue no mapa dos interesses estratégicos de Pequim e de Moscovo, com destaque para os Estados-membros dos BRICS e ainda no contexto dos planos globais enquadrados nos investimentos chineses da Nova Rota da Seda.

Além disso, no caso deste aparente inevitável ataque acontecer mesmo, o Irão, como sublinha Douglas MacGregor, antigo coronel e conselheiro do secretário da Defesa no primeiro mandato de Trump, estará "muito melhor preparado" que em Junho de 2025, durante a guerra de 12 dias com Israel.

McGregor, um antigo operacional do Exército dos EUA, com várias missões no Iraque e no Afeganistão, sublinha, no podcast The Greater Eurasia, que Pequim e Moscovo não apenas criticarão o ataque como providenciarão apoio técnico e armamento sofisticado a Teerão.

Isso, porque o oficial entende que os EUA estão a atacar interesses vitais e estratégicos da China e da Rússia, lembrando que o Irão é um dos aros fundamentais da corrente de mudança perspectivada pelos BRICS, onde Pequim e Moscovo sustentam boa parte da sua política global.