Estes dois antigos militares, ambos com as mais altas condecorações por bravura em combate, estão, nas últimas horas, em diversos podcasts e artigos nos sites especializados, a tentar chamar a atenção para a catástrofe que esta invasão terrestre representa para os EUA e para o resto do mundo.

O tenente-coronel Daniel Davies, no seu podcast Deep Dive, chama a atenção para o navio de desembarque anfíbio, com 2.000 marines a bordo, que está a caminho da região, de outros três navios de transporte de tropas igualmente a navegar para o Médio Oriente e ainda o anúncio do Pentagono da deslocação de múltiplos helicópteros (Apache) e aviões (A-10) de ataque ao solo a chegar em dezenas de C-17 Glomaster III, gigantescos aviões de transporte de carga e de tropas em plena ponte aérea para a zona de guerra.

O mesmo diapasão está a ser usado pelo coronel Douglas McGregor, que vai mais longe e nota agora que tudo indica que esta escalada no conflito despoletado pela coligação israelo-americana contra o Irão já estava prevista e pensada e faz parte dos planos de maior envergadura de Washington e de Telavive.

Este analista militar, dos mais ouvidos no universo dos media alternativos, sublinha, todavia, tal como Daniel Davies, que tal passo significa que a casa Branca e o Pentagono decidiram como aceitável enviar muitos, talvez milhares, de americanos para a morte, porque "o Irão está a preparar este momento há mais de duas décadas" e o que espera as forças invasoras é "um gigantesco banho de sangue" num "armadilha" longamente preparada..

Por detrás deste movimento que, apesar de tudo, está a surpreender muita gente, incluindo analistas militares, porque o discurso corrente em Washington tem sido de que não existem preparativos para uma invasão terrestre, embora em Telavive seja o de avançar de todas as formas sobre Teerão de forma a mudar o regime, está a urgência agora descoberta por Donald Trump de reabrir "a bem ou a mal" o Estreito de Ormuz.

Invadir sim invadir, não...

Para sossegar a opinião pública, especialmente a sua base eleitoral, simbolicamente definida por MAGA (Make America Great Again), a quem prometia há anos que iria acabar com todas as guerras assim que entrasse na Casa Branca, Donald Trump tem estado a repetir, com estranha intensidade repetitiva, que estas três semanas de bombardeamentos serviram para "destruir toda a capacidade militar do Irão".

Na sua mala gigante de fórmulas hiperbólicas para manter um discurso, o Presidente dos EUA tem referido que o Irão foi "obliterado" na sua capacidade de defesa área, "devastado" no seu poder naval, "esmagado" no seu potencial de lançamento de misseis... de forma a forjar uma imagem para consumo interno de que a entrada por terra naquela vasto país será "um passeio nas dunas".

Porém, como nota outro analista militar com várias obras publicadas sobre conflitos no Médio Oriente, o coronel Jacques Baud, antigo elemento da intelligentsia suíça e das NATO, o Irão, que está à espera deste momento há décadas, tem "o tamanho da Europa Ocidental", são 93 milhões de pessoas, em 2.7 milhões de kms2, cortado por vastos corredores de montanhas historicamente inexpugnáveis...

"Não é um exercício fácil", nota Jacques Baud nos diversos podcasts em que participa diariamente, tentar perceber o que leva os EUA a entrar neste túnel onde não podem ver o fundo nem têm como adivinhar o que vão encontrar, porque mesmo que a ideia seja limitada à tomada da Ilha de Kharg, o ponto focal da exportação petrolífera iraniana no Golfo Pérsico, e a abertura do Estreito de Ormuz, isso será um desastre anunciado...

"Parece muito que os estrategas militares não aprenderam nada com a guerra na Ucrânia", aponta Baud para enfatizar que o Irão é uma potência mundial no uso de drones em ambiente de conflito, como o tem demonstrado na forma como está a atingir a infra-estrutura energética dos países do Golfo protegidos pelas defesas antiaéreas norte-americanas, vistas como as mais sofisticadas do mundo.

Areias, mas movediças"...

Com isto, este especialista militar pretende sublinhar que ao colocar uma força concentrada de alguns milhares de soldados, entre marines e paraquedistas, na Ilha de Kharg, cerca de metade do tamanho da Ilha de Luanda, e ocupar o Estreito de Ormuz, uma extensão de alguns kms e uma ilha com o mesmo nome, igualmente de pequenas dimensões, é deixar milhares de militares à merce dos drones e dos misseis de curto alcance iranianos.

E se há alguma coisa em que estes três analistas militares coincidem na análise é que os EUA, se efectivamente assim o pensam, estão muito errados ao dar o Irão como fragilizado a ponto de uma invasão terrestre ser um passeio nas duas iranianas.

Isso mesmo parece ter querido a liderança militar iraniana dizer a Trump ao surpreender tudo e todos com o envio de um conjunto de misseis sobre a base militar do Reino Unido de Diego Garcia, em pleno Oceano Índico, a mais de 4 mil kms de distância, porque até agora o conhecimento comum era que o Irão possuía apenas misseis com alcance de até 2.000 kms.

Além disso, depois que se começou a perceber que uma invasão terrestre estava a ser preparada, o que é hoje parte maior nas páginas e ecrãs dos media internacionais, onde isso é dado como certo, o Irão colocou em uso os seus mais modernos misseis, que estavam em stand by, como o Khorramshahr-4 e o Sejil, ambos hipersónicos, com vagas sucessivas a serem lançadas sobre Israel, contrariando a narrativa da Casa Branca.

Neste contexto surgem, nos últimos dias, cada vez mais vozes entre a nomenclatura norte-americana a pedir que o bom senso se imponha, como aconteceu com Joe Kent, agora ex-director do Centro Nacional de Contraterrorismo (ver links em baixo) e já hoje, Nicholas Burns, diplomata com 25 anos no Departamento de Estado e actualmente professor-chefe do Departamento de Diplomacia Prática e Relações Internacionais da Universidade de Harvard, que diz "não acreditar sequer que tal possibilidade (invasão) esteja a ser ponderada".

"Este cenário, que seria arriscado de qualquer maneira, só se percebe se se estiver perante uma forma de pressão sobre Teerão de forma a obter resultados diplomáticos, estando prevista e programa a uma saída rápida para evitar o pior", aponta Burns, sublinhando que Trump está a enviar as torpas nprte-americanas para "um passeio sobre areias movediças".

Cessar-fogo? "Nem pensar!"

Tal não parece ser o que vai na mente de Donald Trump, porque também já nas últimas horas, garantiu que não está à procura nem quer qualquer tipo de conversa sobre cessar-fogo com os iranianos, porque "além de ter destruído todo o seu potencial militar, também já não há ninguém com quem falar", referindo-se ás sucessivas mortes de líderes políticos e militares em Teerão.

"Não existe nenhuma vantagem em ir para um cessar-fogo quando estamos a obliterar o outro lado. Nós já destruímos tudo o que havia para destruir no Irão", refirmou.

Além de ser opinião coincidente em grande parte dos analistas de que este optimismo de Trump é extraordinariamente exagerado, embora indesmentível no que se refere aos assassinatos das lideranças iranianas e dos sucessivos bombardeamentos dos centros militares - quase todos vazios segundo diversas fontes - e infra-estrutura energética, o próprio Líder Supremo, aiatola Mojtaba Khamenei, respondeu com severidade a Trump.

O que o novo líder, sucessor do assassinado Ali Khamenei, seu pai, no primeiro dia desta guerra que já está na qua 4ª semana, a 28 de Fevereiro, disse, citado pela televisão pública do Irão, é que esta bravata norte-americana serve apenas para esconder que os EUA sofreram uma pesada e surpreendente resposta, provando que os agressores "calcularam muito mal o poder do Irão".

Nas últimas horas, sucessivos líderes militares iranianos têm repetido, através das duas agências de notícias iranianas, a TASNIM e a FARS, depois citadas pelos media internacionais, que o Irão não teme uma invasão israelo-americana porque é para isso que se está a preparar há décadas.

Além disso, o aviso mais repetido por parte das lideranças militares, e também políticas, como o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Arahchi tem especialmente sublinhado, é que o Irão está especialmente atento aos "lacaios" dos EUA na região e todos os países onde existam bases de Washington serão severamente castigados no manancial de resposta preparada pelos estrategas iranianos.

A memória já nada ensina... na Casa Branca

Na memória colectiva está, seguramente, o que aconteceu na mais recente guerra de longo curso dos EUA no Médio Oriente, no Afeganistão, onde, ao fim de 20 anos de ocupação, combatendo um "exército" de pés descalços, como eram e são os Talibans, os EUA, com centenas de milhares de soldados, com as mais sofisticas armas do mundo, aviação sem paralelo no poder de fogo, foram obrigados a retirar à pressa em 2021 por ausência de alternativas viáveis.

Sem falar no Vietname, os EUA tiveram ainda a experiência dramática do Iraque, onde, ao fim de anos a fio de ocupação, deixaram para trás um país retalhado por organizações terroristas, como a al qaeda e o ISIS, milícias para todos os gostos e feitios e um país gigantesco ingovernável por décadas...

O Irão, não é apenas quatro vezes maior que o Iraque e cinco vezes maior que o Afeganistão, é ainda uma sociedade organizada, milenar, com dos mais altos níveis de escolaridade na Ásia, com uma base industrial tecnológica desenvolvida, apesar das sanções que há décadas esmagam o seu crescimento (e se Teerão sair por cima nesta guerra pode acabar com esta grilheta), e umas Forças Armadas com dimensão superior a 1 milhão de homens e organização e poder de fogo inigualáveis na vasta região da Ásia Central.

Com Donald Trump a enfrentar as complexas e difíceis eleições intercalares de Novembro, onde pode perder a maioria no Congresso, o que abriria a porta, como o próprio o admitiu em público, para um impeachment com base nos desvios constitucionais e no seguimento do escândalo de pedofilia internacional encerrado nos Ficheiros Epstein, onde o seu nome é dos mais citados, e ainda com a crise flamejante na economia do país, muitos são os analistas que admitem que esta guerra pode estar a ser usada para camuflar os problemas que enfrenta internamente.