Este surto, que levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a declarar uma crise global de saúde pública, já fez em escassas três semanas, quase 90 mortos e gerou sintomas em centenas de pessoas que estão a ser investigadas pelas autoridades sanitárias.

A ajudar o Ministério da Saúde da RDC, o Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC-África), da União Africana, e a OMS, com dezenas de técnicos enviados para as províncias de Ituri e Kivu Norte, na parte congolesa, e ainda na região fronteiriça do Uganda, onde já foram declarados contágios e pelo menos uma morte.

Apesar de já ser o 17ª surto epidémico, a evoluir rapidamente para epidemia, como a ele já se referem a generalidade dos media na RDC, nos últimos anos este é o que mais riscos apresenta porque se trata de uma estirpe que não responde às vacinas, como foi o caso das últimas epidemias.

A estirpe mais comum, e também a mais letal, nas epidemias já registadas na RDC, principalmente nas suas províncias do leste, ou no Equador, no oeste do país,mas igualmente em todo o continente, é a Ébola-Zaire, descoberta na província do Equador, RDC, na década de 1970, para a qual já existem vacinas com elevada percentagem de sucesso.

Mas este surto/epidemia, está a ser gerado por uma estirpe que poderá ter origem no Uganda, país onde foi descoberta, por ser ali mais comum, a Bundibugyo ebolavirus (BDBV), que é ligeiramente menos agressiva que as outras quatro mas não tem um tratamento eficaz, através de uma vacina, conhecido.

As outras três variantes do vírus do Ébola, da família Florividae, conhecidas são a Sudan ebolavirus (SUDV), descoberta no Sudão, das mais letais, a Taï Forest ebolavirus (TAFV), Descoberta na Costa do Marfim, até ao momento há registo de um número muito reduzido de casos humanos e a Reston ebolavirus (RESTV), com origem nos Estados Unidos (em macacos importados das Filipinas), que, por enquanto, afecta apenas primatas e outros animais.

Segundo o CDC África, o combate a esta epidemia está a apresentar as mesmas dificuldades de sempre, que é a resistência das populações a procurarem as equipas médicas oficiais, optando antes pelos tratamentos tradicionais, curandeiros e feiticeiros, que são uma das causas principais da dispersão da infecção.

Além disso, apesar das campanhas e das acções de sensibilização realizadas nas anteriores situações, nas comunidades mais ruralizadas, o ritual de tocar nos mortos para se despedirem dos familiares ou amigos dificulta muito os esforços para estancar a infecção.

Nesta situação grave que ocorre no maior vizinho de Angola, com quem existe uma fronteira de 2.500 kms, embora o foco da doença esteja a milhares de quilómetros, e também no Uganda, havendo pelo menos um caso suspeito em Kinshasa, está ainda em evidência as dificuldades criadas pela existência de um conflito armado violento no leste congolês.

E é tanto assim que uma das zonas afectadas está dentro dos territórios ocupados pelos guerrilheiros do M23, apoiados e armados pelo Ruanda, que há anos combatem com as forças regulares da RDC, nas províncias dos Kivu Norte e Sul e no sul de Ituri.

Em Kinshasa, entretanto, as autoridades sanitárias, através do Instituto Nacional de Pesquisas Biomédicas (INRB, sigla em francês), estão a apelar às populações afectadas para seguirem as indicações das equipas médicas, e a procurar criar condições para que o conflito militar não limite os esforços de contenção da doença.

A OMS sublinha que "nenhum país deve fechar as suas fronteiras ou impor restrições às viagens e ao comércio", prevenindo que tais medidas poderiam ser contraproducentes, mas "não devem ocorrer viagens internacionais de pessoas que tiveram contacto com o vírus Bundibugyo ou que apresentaram sintomas da doença , a menos que a viagem faça parte de uma evacuação médica apropriada".

Aos estados com casos detectados é recomendada a realização de triagens transfronteiriças e nas principais vias internas para "garantir que nenhum caso suspeito passe despercebido e melhorar a qualidade das triagens através de uma melhor partilha de informações com as equipas de vigilância", mas "não devem ocorrer viagens internacionais de pessoas que tiveram contacto com o vírus Bundibugyo ou que apresentaram sintomas da doença, a menos que a viagem faça parte de uma evacuação médica apropriada", recomenda a OMS, advertindo que qualquer novo caso suspeito deve ser notificado imediatamente e tratado como uma emergência de saúde pública.