Com a convocação desta conferência, pouco tempo depois da aprovação da citada Resolução, o Ghana mostra que a reparação histórica faz parte das prioridades governamentais do País.
Mostra ainda o seu compromisso na exigência da reparação histórica como princípio de justiça global e pilar central do projecto panafricanista de integração continental.
A iniciativa traduz igualmente o empenho do País liderado pelo panafricanista John Mahama na mobilização do continente, da Diáspora e do mundo para esta causa, reclamada por África e já colocada na agenda mundial.
Como sinal da valorização e prioridade dada ao tema, o "Grande Evento", título atribuído pelas autoridades ghanenses, será presidido pelo Presidente John Mahama, também procurador da União Africana (UA) para as reparações pela escravatura e colonialismo.
No Grande Evento, com o objectivo de delinear a próxima fase da agenda global de reparações, políticos, diplomatas académicos e activistas de África, Diáspora e do resto do Mundo vão discutir e adoptar formas de pôr em prática a Resolução aprovada pela Assembleia Geral da ONU, a 25 de Março passado.
Nesta primeira grande conferência pós-adopção do documento, de acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Ghana, "as discussões estarão centradas em traduzir a histórica Resolução numa estrutura global comum e viável".
O País anfitrião espera que "o Documento Final (da conferência) destaque um esforço colectivo com o objectivo de desenvolver abordagens políticas coordenadas, estruturas institucionais e mecanismos para um envolvimento internacional sustentado".
Espera igualmente que "os resultados da Conferência incluam um conjunto de recomendações e acções prospectivas para orientar os compromissos subsequentes a níveis continental e internacional, bem como para consolidar concretamente o impulso sem precedentes gerado pela Resolução da ONU".
Neste sentido, as autoridades do Ghana que fazem do tema não só um assunto continental, mas uma questão de política interna, estão convictas de que a Conferência servirá para promover uma colaboração mais estreita entre os Estados participantes.
Será uma oportunidade para estabelecer espaços de diálogo com a Diáspora africana e parceiros internacionais, "cujas contribuições continuam a ser cruciais para o avanço da agenda de reparações", lê-se no site governamental ghanense.
Fortalecer a voz colectiva de África em matéria de justiça reparatória, contribuindo para a formação de uma posição coerente e unificada dentro dos sistemas globais, são também expectativas dos anfitriões, de acordo com a publicação nigeriana Premium Times.
Dividida em três grandes painéis, designadamente dois sobre justiça reparadora - um consultivo e outro jurídico - e o terceiro sobre restituição de bens culturais, manuscritos e arquivos nacionais, a conferência colocará frente-a-frente representantes de escravizados e de escravocratas.
Deste encontro, que terá lugar no Juneteenth, no Castelo de Christiansborg, um local histórico que serviu como centro do comércio de escravizados no tráfico transatlântico, espera-se a consolidação da posição colectiva de África sobre justiça reparadora e o aprofundamento da colaboração com a Diáspora africana e parceiros internacionais.
No Castelo de Christiansborg, também conhecido como Castelo de Osu, fortaleza histórica do século XVII, localizada na costa atlântica e construída por dinamarqueses em 1661, os participantes vão certamente constatar a dimensão da brutalidade e da indignidade do tráfico de escravizados.
O local foi também escolhido para homenagear os milhões de escravizados (dos quais cerca de cinco milhões arrancados de territórios angolanos) transportados à força através do Atlântico.
A Resolução da ONU, votada favoravelmente por 123 Estados-membros, teve três votos contra (EUA, Israel e Argentina) e 52 abstenções de países como o Reino Unido, Portugal, França e Espanha, entre outras potências europeias que promoveram esse crime contra a humanidade para desenvolver a economia capitalista.
Atendendo a que as consequências do crime em causa persistem até hoje sobre povos do continente e Diáspora, a Resolução defende a importância de se discutir as injustiças históricas que afectam africanos e afrodescendentes e exige um pedido de desculpas pelo tráfico de escravos, bem como a criação de um fundo de reparações.
Entre as consequências, destaca-se o caso do Brasil, onde mais de metade dos 214 milhões de habitantes são afrodescendentes (maior Diáspora africana) e um legado da escravatura assente em desigualdades estruturais sistémicas.
No País de Pelé, os negros têm menos acesso à educação, possuem menores rendimentos e menos esperança de vida e, de acordo com diversos estudos citados pelos media, 83% dos trabalhadores resgatados em situações análogas à escravatura em 2025 declararam-se negros.
Apesar de não vinculativa, a resolução, apresentada e defendida na ONU pelo País fundado por Kwame Nkrumah, é reconhecidamente o primeiro grande passo global para se exigir justiça reparadora para África e milhões de afrodescendentes das Américas, contra o apagamento da memória.
A exigência de reparações por tão hediondo crime é também uma forma de lutar contra novas tentativas de regresso à escravatura e subjugação de países e povos. É chamar a atenção do mundo para as persistentes e visíveis cicatrizes da escravatura e do colonialismo em África e nas Américas.
A exigência de reparação para as vítimas justifica-se ainda pelas consequências estruturais e sistémicas visíveis a vários níveis, entre as quais o estado de desenvolvimento do continente africano, o racismo e outras formas de discriminação.
Os fundos de reparação defendidos por África e pela Diáspora destinam-se a reparar os danos causados pela escravatura, esclarece o chefe da diplomacia do Ghana, Samuel Ablakwa.
"Estamos a exigir indemnização - e que fique claro, os líderes africanos não estão pedindo dinheiro para si mesmos. Queremos justiça para as vítimas e apoio para as causas, fundos educacionais e de doação, fundos para formação profissional", assegurou Ablakwa.
A Resolução também solicita a devolução urgente de bens culturais, peças de arte e de museu, monumentos, artefactos, manuscritos e documentos de arquivos nacionais. Enfatiza o valor espiritual, histórico, cultural ou de outra natureza para os países de origem, e insta ao fortalecimento da cooperação internacional em relação às reparações por quaisquer danos causados.
Igualmente sublinha que essa medida conduz à promoção da cultura nacional e ao pleno exercício dos direitos culturais pelas gerações presentes e futuras. Por isso mesmo, na Conferência de Accra, este tema, enquadrado na justiça reparadora, é prioritário.
O Grande Evento, para além de comemorar a adopção da Resolução pela ONU como feito histórico, dá continuidade ao debate levantado a nível global sobre reparação histórica e que não pode ser ignorado.

Também recorda ao mundo, sobretudo àqueles que fazem da chamada ajuda ao desenvolvimento forma de continuar a dominar economicamente o continente africano, de que "o colonialismo e as suas atitudes morrem com dificuldade, como as atitudes da escravatura", como dizia Kwame Nkrumah.