Dmitri Medvedev, num discurso para parlamentares jovens feito esta semana, pretendeu claramente com esta afirmação sublinhar que se a Rússia for demasiado encostada às cordas pela pressão ocidental, não deixará de fazer valer o seu gigantesco arsenal nuclear.

Quase em simultâneo, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, que é conhecido por medir bem as palavras, o que não se pode dizer de Medvedev, veio avisar que os europeus e norte-americanos estão a colocar Moscovo perante um ultimato.

O chefe da diplomacia russa avisou, em entrevista à Agência TASS, que Moscovo "nunca aceitará um ultimato" referindo-se à recente proposta de cessar-fogo encabeçada pelos EUA e pelos três "gigantes" europeus, França, Alemanha e Reino Unido.

Isto, porque o experimentado diplomata nota que o que os ocidentais pretendem é que a Rússia aceite tréguas sem que nenhuma das suas exigências sejam respeitadas, desde logo a questão territorial, ao mesmo tempo que essa pausa abriria espaço para enviar tropas da NATO para a Ucrânia.

"Um cenário em que tropas de países da NATO entram na Ucrânia antes de qualquer negociações efectiva entre Moscovo e Kiev é um evidente ultimato que a Rússia não aceitará em nenhuma circunstância", apontou Lavrov.

O velho diplomata de Moscovo, na mesma entrevista à TASS, sublinhou que esse cenário "congelaria o conflito deixando o regime nazi no poder em Kiev, sem que os países ocidentais reconhecessem que os territórios que escolheram ser parte da Rússia em referendo são efectivamente russos"

Sergei Lavrov, menos incisivo e ameaçador que Medvedev, não deixou de lembrar que os membros da NATO mantém uma "feroz guerra de proximidade com a Rússia através da Ucrânia ao fornecer financiamento e armas tecnologicamente avançadas a Kiev".

Além disso, o chefe da diplomacia russa apontou que aliando este contexto ao apoio que os oposicionistas russos no exterior recebem dos países ocidentais, "está criado uma situação perigosa sem precedentes".

Estas palavras de Lavrov não surgiram no mesmo dia em que Medvedev, enquanto vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, deixou mais um aviso ao Ocidente para o risco de estar a incendiar a savana com capim nuclear seco mesmo sabendo que em Moscovo se sabe muito bem o que pretendem.

"O nosso desafio comum é preservar o país, a sua soberania e integridade e a única forma de o garantir é com uma vitória na Ucrânia" referindo-se a essa guerra como a operação militar especial, que é a sua designação oficial entre os russos.

E deixou o mesmo tipo de aviso que Lavrov ensaiou também: "O Ocidente está a usar a Ucrânia como proxy para fustigar a Rússia com a intenção de provocar a sua queda", acrescentando que tal "jamais sucederá".

O que surge em linha com o que o próprio Presidente Vladimir Putin já tinha dito dias antes, quando, na segunda-feira, 27, numa intervenção no Parlamento, enfatizou que "ninguém nem nenhum poder poderá alguma vez vergar o povo russo".

"Isso nunca aconteceu nem acontecerá porque as instituições russas e o seu sistema político estão totalmente prontos e empenhados para repelir quaisquer acções hostis", disse Putin, explicando que assim será sejam quais forem esses acções, no campo de batalha ou actos de terrorismo.

"Os ocidentais falharam em prejudicar a Rússia infligindo, ao invés, grandes danos à economia europeia e nos países que os apoiaram nesse esforço", concluiu.

Embora essas declarações tenham vindo a rarear com o passar do tempo, a generalidade dos líderes europeus e norte-americanos têm repetido que o objectivo é levar a Rússia a uma derrota estratégica neste conflito com a Ucrânia, e a presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, disse em várias ocasiões que a ideia era e é "levar a Rússia a pedir perdão de joelhos".