As palavras de Tom Hanks, actor que encarna a personagem do comandante Chesley «Sully» Sullenberger, dão a exacta dimensão do "acto heroico" do comandante do Airbus A320, que no dia 15 de Janeiro de 2009, ficou sem os dois motores, após ser atingido por um bando de gansos-do-canadá, escassos minutos depois de ter descolado do aeroporto de La Guardia, em Nova Iorque.
O comandante Sully teve 208 segundos para decidir o destino das 155 pessoas a bordo. E fê-lo com a sabedoria de quem tem atrás de si 40 anos de experiência em pilotagem, a maior parte dos quais ao serviço da Marinha norte-americana, e a frieza necessária para, com base nos seus instintos, saber qual a melhor decisão naquele momento e naquelas circunstâncias.
Com a perda de dois motores em tão baixa altitude, Chesley, na altura com 54 anos de idade, teve três minutos e 46 segundos para decidir o que fazer, numa operação nunca testada e que estava fora de tudo aquilo que os manuais de pilotagem indicavam.
Sem os dois motores e sem altitude suficiente para voltar atrás, Sully direccionou os comandos para o Rio Hudson, evitando colocar o avião numa trajectória que o fizesse despenhar sobre uma das metrópoles com maior densidade populacional do mundo, caso o aparelho não conseguisse chegar a local seguro.
A partir do momento em que as aves colidiram, o comandante Chesley Sullenberger teve 208 segundos para decidir o que fazer, sabendo que entrava numa contagem decrescente fulminante, que não lhe deixava margem para consultar manuais de procedimento (de uma manobra nunca antes tentada) e conferenciar com a torre de controlo sobre a melhor solução a tomar.
O momento exigia uma decisão imediata e Sully tomou-a, com a concordância do seu coo-piloto, Jeffrey B. Skiles, de 49 anos. Com a voz mais calma e confortante possível, anunciou à tripulação e aos passageiros para se prepararem para o impacto. As hospedeiras seguiram as instruções e o aparelho aterrou no Rio Hudson, sem causar qualquer vítima. Um acto "heroico" até aí impensável. Por isso, a versão portuguesa do filme realizado por Clint Eastwood, que estreou esta quinta-feira, em Portugal, tem o título "Milagre no Rio Hudson".
Na versão original, Eastwood, que nos habituou a escarnar a sociedade americana, os seus heróis e anti-heróis, optou apenas por «Sully», esse herói que recusou sempre o estatuto.
O que está em causa neste filme não é apenas o feito heroico do comandante Chesley - esse toda a gente conhece e por causa dele toda a tripulação do Airbus da US Airways foi condecorada - mas a reacção da comissão de inquérito à decisão do piloto.
Sully e o seu co-piloto salvaram 155 vidas e muitas mais que podiam ter sido roubadas caso o avião se despenhasse sobre Nova Iorque, mas foram acusados de irresponsabilidade no inquérito oficial, por não terem tentado voltar atrás para aterrar em La Guardia ou numa das outras pistas indicadas pela torre de controlo. A tripulação foi confrontada com simulações que mostravam que isso era possível. Sully teve de mostrar que os computadores estavam errados e que naquele momento era mais importante o "factor humano". "Não era possível, eu senti a avaria", diz a personagem interpretada por Tom Hanks, no trailer do filme, em resposta a um dos investigadores.
"Mais de 40 anos no ar, mas, no final, serei julgado por 208 segundos", diz Sully no filme de Clint Estwood, que retrata a angústia vivida pelo piloto, após a amaragem, em busca de certezas, que eliminassem a dúvida sobre se tomou a decisão certa. "Eu fiz tudo o que podia!", exclama num dos diálogos ao telefone com a mulher. "Sim, salvaste 155 pessoas", responde ela.
O feito de Sully no Rio Hudson abriu um novo capítulo na história da aviação comercial e os procedimentos que adoptou são hoje estudados pelos pilotos em todo o mundo.
Para Tom Hanks, o actor que lhe deu vida, o heroísmo do comandante Chesley consistiu em "seguir os seus instintos". Pena que ele tenha sido julgado, não por ter conseguido salvar vidas, mas por ter tomado a decisão "mais difícil que alguém tem de tomar". Em escassos 208 segundos.
