Nesse tempo do "orgulhosamente sós", a taxa de analfabetismo rondava os 30%, a esperança média de vida não ultrapassava os 68 anos, apenas 5% dos portugueses tinham o ensino secundário e cerca de 68% das casas não tinham água canalizada.
O êxodo em massa para o estrangeiro, principalmente para França, para fugir da pobreza e do regime político securitário e totalitário, era uma realidade quotidiana. Entre finais dos anos 50 e o início da década de 70, cerca de um milhão de portugueses emigraram para França.
A censura prévia e a mordaça nos media eram outra realidade sinistra. O "lápis azul" proibia a divulgação de qualquer informação crítica ao regime, nomeadamente as perdas do Exército português e as barbaridades coloniais em Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe.
Para cumprir a missão securitária, a PIDE, polícia política do regime, tinha carta branca para vigiar, perseguir, prender, mandar torturar e matar opositores em Portugal e nas colónias, principalmente os combatentes pela liberdade. As centenas de presos e exilados políticos e a miséria constituíam o postal de visita de Portugal, um dos países mais atrasados da Europa.
A ditadura portuguesa organizava eleições de fachada, controladas e fraudulentas, assim como falsificava os seus resultados, como fez nas presidenciais de 1958, com Humberto Delgado, conhecido como "general sem medo", que, com apoios transversais (desde republicanos a comunistas), concorreu contra o candidato da União Nacional, Américo Tomás.
É neste contexto de miséria, opressão e de repressão, de fracasso das tentativas de acabar com a ditadura por via pacífica e de extrema pressão pelos avanços dos movimentos de libertação em África, particularmente na Guiné-Bissau, onde tinham muitas baixas e o PAIGC já tinha proclamado unilateralmente a Independência, que se dá o golpe de Estado e a "Revolução dos Cravos", que retirou Portugal da miséria e modernizou o País.
Em Angola, 50 anos depois da Independência, políticos do poder replicam a fórmula do ditador Oliveira Salazar, fazendo da miséria das populações a base dos resultados da governação e do medo o factor decisivo da execução do projecto de manutenção no poder que transforma o País num centro africano de exposição da miséria a céu aberto.
Tal como na ditadura portuguesa, em Angola, onde se aplica cegamente a receita de capitalismo selvático para agradar aos ocidentais, a manutenção do regime e, consequentemente, das benesses da elite do poder justificam a existência de presos políticos, perseguição, detenção e morte de críticos e de manifestantes contra a governação.
São disso exemplos os massacres desencadeados pelas forças de segurança em Luanda, em Julho do ano passado, em que assassinaram mais de 30 angolanos, maioritariamente jovens que se manifestavam contra o elevado custo de vida, e, em 2021, em Cafunfo, região diamantífera da Lunda-Norte, onde, relatam fontes de associações cívicas, mataram cerca de 100 pessoas, na sequência de uma manifestação convocada pelo Movimento do Protetorado Português da Lunda Tchokwe (MPPLT).
Nessa empreitada opressiva, repressiva e de miséria, a corrupção e impunidade, a falta de ética e moral, a prostituição, incluindo política, escândalos sexuais, obscenidades e a coisificação do corpo e da sexualidade das mulheres como instrumento de campanha política, encontram "bar aberto".
De acordo com a "World Poverty Clock", plataforma que actualiza e monitoriza dados internacionais sobre a pobreza, em Angola (terceiro maior produtor de petróleo e segundo de diamantes de África), nos últimos anos, a pobreza extrema cresceu 82%. Passou de 6,4 milhões de pessoas (22% da população), em 2016, para 11,6 milhões no início de 2025, ou seja, 31% da população.
Neste Estado, entre 2016 e 2025, relata o Índice da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, a fome aumentou de tal forma que colocou o País entre os 13 piores do mundo, acompanhado de regiões como Gaza (Palestina), vítima do genocídio desencadeado por Israel, que faz da fome arma de guerra ou o Sudão, que, desde 2023, enfrenta uma guerra que já provocou 14 milhões de deslocados.
Fome que passou de crise a problema estrutural, mostrando como a pobreza extrema, que afecta grande parte das populações, é responsável pelo atraso do crescimento de quase metade das crianças angolanas (47,7%) e pela subnutrição de pelo menos 40% de outras, revela a UNICEF.
Neste País, assente em desigualdades económicas, políticas, sociais e regionais, entre 2016 e 2025, o número de crianças fora do sistema de ensino mais que duplicou. Passou de 2,5 milhões para mais de cinco milhões, correspondendo a mais 35% das crianças em idade escolar, situação resultante dos constantes cortes do orçamento da Educação, sector fora das prioridades dos governantes.
No entanto, a elite do poder esbanja milhares de milhões de dólares em luxos, gastos supérfluos e fúteis, ignorando que a Educação, para além de um direito humano elementar, é o primeiro passo para a cidadania, um instrumento de combate à pobreza e à criminalidade.
No País com elevado índice de criminalidade infanto-juvenil, essa elite governamental fora da lei deixa sem escola 40% das crianças entre os 5 e os 11 anos, pertencentes à fase em que a escolaridade é obrigatória, de acordo com as leis que o próprio Executivo cria, lembra o semanário Expansão.
Sem educação nem aposta nas pessoas, no Índice de Chandler 2025, que avalia a boa governação no Mundo, entre 35 países africanos, Angola (pior classificada da região da SADC) ocupa um dos quatro últimos lugares, acompanhada da Serra Leoa, RDC e Tchad.
Sem surpresa, a revista francesa Jeune Afrique coloca o País, que se transformou em joguete das potências ocidentais, muito longe dos 20 africanos com melhor desempenho económico em 2025, numa avaliação liderada por três Estados da SADC: África do Sul, Maurícias e Namíbia, e que integra ainda outros três países da região, designadamente Botswana, Tanzânia e Moçambique.
Avaliação baseada na solidez da governação, atractividade de investimento estrangeiro e transição versus inovação, dissecadas a partir do clima de negócios e de governação, infra-estruturas, vias de comunicações, capital humano e influência regional.
Com o desemprego actual perto dos 29% e uma taxa média do desemprego juvenil no período 2018-2025 acima dos 55%, atingindo o máximo histórico de 63% no primeiro trimestre de 2024, segundo a Trading Economics, é natural que emigrar, principalmente para Portugal, fugindo da miséria opressiva, configure a única saída de sobrevivência para milhares de jovens angolanos.
De tal forma que, entre 2017 e 2024, o número de angolanos residentes em Portugal cresceu cinco vezes, passando de pelo menos 17 mil para mais de 92 mil, tornando-se na terceira maior comunidade imigrante neste País, segundo dados da Agência (portuguesa) para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), censurados pelas autoridades e pelos capturados media de capitais públicos angolanos.
No quadro dessa censura generalizada, esses media só estão autorizados a mostrar narrativas favoráveis ao poder, como se percebe no recente estudo da associação angolana Movimento Cívico Mudei.
De Agosto de 2024 a Dezembro de 2025, a citada associação angolana analisou mil horas combinadas de rádio e TV (TPA, RNA, TV Zimbo) e centenas de milhares de centímetros quadrados de capas do único diário angolano, o Jornal de Angola.
Do trabalho, o Executivo/Governo centraliza consistentemente entre 52% e quase 70% de toda a cobertura mediática nobre. Enquanto isso, os partidos políticos na oposição dividem migalhas (raramente passando de 4% a 7% do tempo total) e a "sociedade civil real" é reduzida a meros 0,7% a 3,8%.
Se, por um lado, os dados de organizações internacionais e nacionais provam que a falta de liberdade e dignidade em Angola comprometem o presente, por outro, mostram a urgência na mudança de regime, sob pena de, no futuro, o País se tornar irremediavelmente um Estado falhado.
Tunda Mu Njila: Crónica de um país inviabilizado
Antes do golpe de Estado militar e consequente Revolução de Abril de 1974, o Portugal colonial-fascista e fundador da NATO destacava-se pela fome, pobreza, atraso e opressão.
