Ao Novo Jornal, o deputado da UNITA, Joaquim Nafoia, diz que passados 23 anos de paz, o processo de reconciliação nacional e a consolidação da democracia em Angola estagnou.

"Não temos paz espiritual e social em Angola. O processo de reconciliação estagnou. A paz não pode resumir-se apenas ao calar das armas", notou o também vice-presidente da segunda comissão da Assembleia Nacional, que trata dos assuntos de defesa e segurança.

"Enquanto as instituições do Estado continuarem ao serviço do partido no poder, não teremos paz em Angola. Milhares de angolanos comem nos contentores de lixo, só os jovens do partido no poder é que têm privilégio de um emprego", acrescentou.

Na sua opinião, enquanto existirem confrontos ("minimizados pelo Governo"), entre as Forças Armadas Angolanas (FAA) e a FLEC em Cabinda, Angola não tem paz.

"Centenas de garimpeiros são mortos nas Lundas pelas forças da ordem e segurança. Os casos são investigados, os culpados nunca são encontrados", acrescentou o deputado, que defende o diálogo como forma suprema de solução dos problemas que os angolanos, de Cabinda ao Cunene, enfrentam.

O secretário-geral do Bloco Democrático (BD), Muata Sebastião, diz que em 2022 foi apenas o calar das armas, e, de lá para cá, a situação dos angolanos inspira cuidados.

"Os angolanos continuam a viver uma grave crise política, judicial, económica e financeira. O partido no poder não promove o processo de reconciliação interna em Angola", lamentou, defendendo que os políticos angolanos continuem a dialogar com o Governo para que este cumpra os assuntos pendentes dos acordos de paz.

O seu homólogo do PRS, Rui Malopa Miguel, reconhece alguns avanços no País no que diz respeito à paz, destacando a livre circulação de pessoas e bens e a construção de algumas infraestruturas.

"São notórias algumas acções do Executivo que já beneficiam muitos cidadãos, mas estamos preocupados com a crise social e económica, que obriga milhares de angolanos a comer nos contentores de lixo, o que não dignifica a vida do cidadão", apontou.

O porta-voz da FNLA, Ndonda Nzinga, diz que para fazer face à crise social e económica que o país atravessa, o Executivo deve apostar na agricultura e na agro-indústria, como forma de diversificar a economia e reduzir a dependência do petróleo.

"23 anos de paz é tempo suficiente para o Executivo alterar o quadro. Subsistem desigualdades e muitas famílias sofrem grandes carências, o Executivo deve criar as condições para lhes reduzir o sofrimento, criando programas de apoio e adoptando políticas para melhorar as condições de vida da população em geral", sugeriu.

O presidente da CASA-CE, Manuel Fernandes, entende que a paz verdadeira passa pela cura das feridas deixadas pelo conflito e a promoção da verdadeira reconciliação nacional.

"Todos os angolanos devem reflectir sobre a importância da paz e obrigar o Executivo a cumprir totalmente os acordos de paz e de reconciliação nacional", referiu, frisando que o Executivo deve "urgentemente" traçar políticas para aliviar a vida das famílias carentes.

Refira-se que o município do Luau, província do Moxico Leste, acolhe o acto central dos 23 anos da paz em Angola, a assinalar-se esta sexta-feira, 4 de Abril, sob orientação da vice-presidente da República, Esperança da Costa

Angola celebra o Dia da Paz e Reconciliação Nacional nesta data porque foi no dia 4 de Abril de 2002 que as chefias militares das Forças Armadas Angolanas (FAA) e das ex-forças da UNITA (FALA) rubricaram o Memorando de Entendimento do Luena, complementares aos Acordos de Lusaka, colocando fim a 27 anos de conflito armando.