Além do acesso ao Mar, vital para a sua economia, uma das mais vigorosas do continente, a Etiópia, que conta com a segunda maior população do continente, 139 milhões de habitantes, enfrenta uma dura batalha, por enquanto política com os vizinhos Sudão e Egipto devido à gestão das águas do Rio Nilo Azul.
Isto, porque a Etiópia ergueu neste curso de água, que nasce nas suas montanhas e que, ao juntar-se ao Nilo Branco, já no Sudão, se transforma no Rio Nilo, a "veia" da vida no Egipto há milénios, a Barragem da Renascença, a maior represa africana, ameaçando o caudal vital para os países a jusante.
Para analisar esta nova situação, e quando a Etiópia assiste ao regresso do conflito militar nas regiões de Tigray e Amhara, os países vizinhos da Etiópia, Egipto, Sudão, Somalia e Eritreia, reuniram este Domingo em New Alamein, no Egipto, provocando a fúria etíope com Adis Abeba a acusar aqueles quatro países de conspirar contra si e apoiarem directamente os rebeldes de Tigray.
Esta situação, que alguns analistas dizem ter os elementos mínimos necessários para se considerar ser de pré-conflito, levou o primeiro-ministro Abiy Ahmed a emitir um aviso regional onde garante que ao Etiópia não abdica da defesa dos seus interesses estratégicos.
Neste alerta, divulgado através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Abiy Ahmed, antigo Prémio Nobel da Paz, garante que tanto no acesso ao mar como na gestão da Barragem da Renascença, assim baptizada para sinalizar o "renascimento da força etíope", os interesses vitais do país serão assegurados "de uma maneira ou de outra".
O que surge bem claro nas suas declarações recentes onde defende que, "baseado no princípio do deve e do haver, a Etiópia trabalhará de forma diligente para garantir uma rota segura e perpétua de acesso ao mar".
Mas este caminho que parece cada vez mais consolidado rumo a um conflito regional de grandes proporções, tem vindo a ser trilhado há anos, tendo crescido de forma exponencial com o eclodir do conflito em Tigray, em 2020 (ver links em baixo), com Adis Abeba a acusar a Eritreia, o Egipto e o Sudão de apoiarem então e agora os rebeldes separatistas daquela região do norte etíope.
Ao mesmo tempo, a Eritreia tem vindo a aumentar o volume acusatório contra a Etiópia - as relações entre ambos nunca foram boas desde a independência eritreia em 1993 - por entender que Adis Abeba se prepara para abrir caminho para o mar à força através do seu território.
E para piorar a situação, já de si extremamente tensa, uma solução que estava na agenda de Abiy Ahmed surge cada vez mais longínqua, que seria obter esse acesso ao mar através da Somalilândia, a região separatista do norte da Somália.
Porém, essa possibilidade parece ter menos tracção a cada dia que passa, a pesar de Israel, um aliado antigo dos etíopes, ter reconhecido a sua "independência", porque todos os países da vasta região do Corno de África, e quase todos do continente africano, se opõem à divisão somali.
Face a este nó geoestratégico, quando Egipto e Sudão ameaçam pegar em armas para garantir o caudal vital para a sua subsistência no Nilo Azul, e a Etiópia responde que a energia não pode parar de fluir da Barragem da renascença para a sua economia, e com a Etiópia a levantar a questão do acesso ao Mar Vermelho como vital...
... organizações como a União Africana, as Nações Unidas ou mesmo países como Estados Unidos, Rússia e China, emergem cada vez mais como actores secundários, porque todos eles têm interesses nesta região em pré-conflito, e nem todos claros...
... sejam os EUA e a China pelo acesso aos minerais vitais do Sudão e os seus portos/bases militares no Djibuti, seja a Rússia pelo projecto em curso de criar uma das suas primeiras bases militares em todo o mundo na costa sudanesa de Port-Sudan, misturando neste já denso caldo geoestratégico, a guerra civil no Sudão e também no Sudão do Sul.
Perante os apelos e os esforços diplomáticos da ONU e da União Africana, alguns passos, embora tímidos, começaram a ser dados para evitar o pior, com o Presidente somali, Hassan Mohamud, a publicar uma nota no X onde diz estar "disponível para se encontrar com o primeiro-ministro Abiy Ahmed".
Nesta nota no X, Mohamud diz ser sua vontade "fortalecer as relações com a Etiópia e dar passos seguros para garantir a paz e a estabilidade regionais", ao mesmo tempo que se assegura que ninguém trava a "prosperidade de cada um dos povos do Corno de África", o que permite antever que Mogadíscio não impedirá uma solução negociada para o acesso etíope ao mar através do seu território.
Todavia, é claro que este desenlace positivo depende muito do que for a evolução do conflito no Tigray, se os apoios estrangeiros à sublevação terminarem, se houver um entendimento quanto ao caudal mínimo no Nilo Azul e do desfecho da guerra civil no Sudão...














