Embora, tenha regressado definitivamente à minha terra de nascença, mantenho as minhas conexões com o país adoptivo, fazendo visitas constantes, passando, por consequência, frequentemente por Lisboa, acabando por matar as saudades com a cidade que me marcou profundamente. Assim que, sempre que passo por essas localidades, noto uma alteração em alguma coisa, até mesmo na maneira de agir das pessoas. Entretanto, quando comparo essa realidade com a das sociedades africanas em geral, em particular a angolana, fico com a impressão de que as coisas nunca mudam, fazemos tudo sempre como no antigamente! A pergunta que me ocorre é: por que razão as sociedades permanecem presas a padrões de comportamento, mesmo quando esses padrões produzem resultados insatisfatórios? Pretendo, neste artigo, reflectir sobre a cultura da repetição versus a cultura da aprendizagem, trazendo a minha já longa experiência de vida, absorvida, como referi, em três continentes por onde vivi e trabalhei.
Conceptualmente, a cultura da repetição é aquela em que a experiência não se transforma em aprendizagem. Faz-se de novo porque "sempre foi assim", mesmo quando os resultados evidenciam falhas. Por outro lado, a cultura da aprendizagem é aquela em que a experiência é observada, avaliada, interpretada e convertida em mudança de comportamento, de métodos e de instituições. Na perspectiva conceptual, quer a cultura da repetição, quer da aprendizagem, podem ser vistas em três níveis: i) ao nível individual - hábitos, medo do erro, conformismo, comodismo, resistência à mudança; ii) ao nível organizacional - ausência de avaliação, burocracia, rotinas rígidas, liderança defensiva, punição do erro, em vez de aprendizagem com o erro; iii) a nível institucional/social - normas, mentalidades, incentivos e estruturas que fazem com que a sociedade reproduza práticas antigas, mesmo quando estas bloqueiam o desenvolvimento. É frequente depararmo-nos com afirmações no local de trabalho que isso ou aquilo "foi sempre feito assim", pelo que, "não me venhas aqui com ideias"! Ouvi, há dias, um analista político a defender o facto de que no seu partido, o apoio ao líder deve ser declarado porque "foi sempre assim", e porque tal decorre da disciplina partidária, tendo mesmo comparado ao que se fazia no defunto Partido Comunista da União Soviética.
Já na perspectiva epistemológica, o ponto central é ainda mais profundo; como é que uma sociedade aprende? A cultura da repetição parte de um conhecimento fechado, acredita que já sabe, por isso não questiona. Confunde tradição com verdade, autoridade com razão, experiência acumulada com sabedoria. Em contrapartida, a cultura da aprendizagem parte de um conhecimento aberto, reconhece que o saber é provisório, passível de correcção e de aperfeiçoamento. O erro deixa de ser apenas um fracasso e passa a ser fonte de conhecimento. Nessa perspectiva ninguém se pode arrogar ser dono da verdade absoluta. Uma sociedade presa à cultura da repetição transforma a experiência em hábito. Pelo contrário, uma sociedade orientada pela cultura da aprendizagem transforma a experiência em conhecimento.
Diz-se que errar é uma condição da natureza humana; porém, repetir sistematicamente o mesmo erro é um sintoma da ausência de aprendizagem. Quando essa repetição deixa de ser individual e passa a caracterizar organizações ou sociedades, o problema deixa de ser apenas humano e torna-se cultural e institucional.
Verifico, recorrentemente, que muitos dos erros institucionais cometidos quando ainda estava na minha mocidade, repetem-se, ou tendem a reproduzir-se numa escala maior. Os danos causados por estes erros são, por consequência, também maiores. No caso concreto de Angola devemos perguntarmo-nos por que razão, apesar de tantos diagnósticos, discursos e planos, muitas práticas sociais, administrativas e institucionais continuam a reproduzir os mesmos resultados? Ouvimos falar, em tom de regozijo pelo êxito alcançado na transformação estrutural da economia de Angola, em que se diz o peso do Produto Interno Bruto (PIB) do sector não petrolífero ter superado o PIB do sector petrolífero, exactamente o que fora dito, em bom tom quando da crise económica e financeira internacional de 2008, o discurso oficial foi que a crise não iria impactar a economia de Angola. Configurando os dois factos, a cultura da repetição, que não questiona, limita-se a repetir.
Efectivamente, a cultura da aprendizagem começa quando uma sociedade tem coragem de perguntar, o que devemos abandonar para que algo novo possa nascer? O que devemos fazer de forma diferente daquilo que sempre fizemos para que as coisas mudem para o bem de todos? Tenho repetidas vezes referido que não se pode ter bom sono, quando o vizinho da porta a seguir passa fome. A realidade do empobrecimento da sociedade angolana, obriga-nos que aprendamos com os outros que superaram a situação de pobreza. Como? Envolvendo todos no processo, aprendendo uns com os outros, como referi no artigo sobre a responsabilidade que os alforriados da pobreza têm para com os seus concidadãos pobres. A situação de pobreza prevalecente no nosso país é insustentável, não podemos continuar a tomar as mesmas decisões e esperar que a situação de pobreza se altere.
Frequentemente, sou interpelado por jovens que me perguntam como podem superar os desafios que a vida se lhes têm colocado. Em contrapartida, pergunto o que o jovem ou a jovem estava a fazer para enfrentar este mundo frágil, marcado por elevados níveis de ansiedade, não linear, incompreensível (FANI), volátil, incerto, que está mudar a uma velocidade quase supersónica? A resposta, invariavelmente, é "Não vejo nada em vista" ou "Não vejo nenhuma luz no fundo do túnel"! Outros dizem: "Estou a espreita de uma oportunidade, vinda não se sabe de onde"! Em suma, acabam por entregar o seu destino à sorte. Como referiu o filósofo romano Séneca "a sorte acontece quando a preparação encontra a oportunidade". Pese a tempestade em que vivemos, devemos assumir o controlo do nosso destino, orquestrando a nossa trajectória, aprendendo com quem sabe um pouco mais do que nós.
O que se diz relativamente à capacidade das organizações quer quanto à cultura da repetição ou de aprendizagem? Contrariamente ao que se assiste nas economias dos países desenvolvidos, as organizações tendem a absorver rapidamente as alterações do advento tecnológico ou de outras índoles, sob o risco de serem excluídos do mercado. Estou recordado no Canadá, empresas centenárias como a SEARS, Zellers, Hudson"s Bay, sucumbiram ao advento do comércio digital (e-commerce) por não terem conseguido adaptar-se, em tempo útil, às profundas transformações do mercado. As organizações tendem a adoptarem rapidamente as mudanças que ocorrem nos seus nichos de mercado, sob pena de serem excluídas do mercado. Contrariamente, nas sociedades africanas denota-se a ausência de introspecção, envolto de excessiva burocracia, prevalência de rotinas rígidas, lideranças extremamente inflexíveis e defensivas, que punem o erro em vez de estimularem à aprendizagem com o erro. O resultado é o que assistimos: perda de competitividade, fraco desempenho organizacional e, em muitos casos, a falência técnica da maior parte das empresas públicas.
Institucionalmente, deparamo-nos com normas desajustadas a realidade, defendidas pelas elites políticas dominantes, em defesa dos seus próprios interesses. Prevalece uma mentalidade retrógrada que, de boca para fora, defende uma linha de pensamento, mas que, na prática, adopta comportamentos contrários aos princípios que proclama. Verifica-se, igualmente, a falta de incentivos e estruturas capazes de promover a mudança, o que faz com que a sociedade reproduza práticas antigas, mesmo quando elas bloqueiam o desenvolvimento. Na verdade, o problema não é apenas fazer mal; é fazer mal, reconhecer que está mal, sofrer as consequências, e, ainda assim, repetir o mesmo método. Portanto, não podemos esperar resultados diferentes se continuamos a fazer as coisas da mesma maneira, devemos inculcar a cultura de aprendizagem, em vez da cultura da repetição.
*Economista
