Com cerca de um milhão de habitantes, Bunia é uma das cidades mais densamente povoadas dos Grandes Lagos e é uma das que albergam, nas suas redondezas, mais campos de refugiados gerados pelos conflitos interétnicos de décadas nesta região.

Nm cenário de aumento de casos confirmados e suspeitos, mais de 200 mortes já registadas, centenas de doentes em tratamento e, provavelmente, milhares fora das unidades médicas oficiais, o Governo da RDC está obrigado a tomar medidas drásticas.

E uma delas é o isolamento do local que se considera ser o epicentro desta epidemia que está a evoluir a grande velocidade, a cidade de Bunia, provavelmente uma das capitais provinciais das RDC com maior défice de infra-estruturas médicas e de saneamento.

Para isso, além de o vizinho Uganda já ter fechado a fronteira, o Governo de Kinshasa fechou o espaço aéreo, e as forças militares integradas na Missão das Nações Unidas para a RDC (MONUSCO) estão a ser colocadas nos limites da urge para conter saídas e entradas.

Estas medidas severas emergem de um contexto em que tanto a Organização Mundial de Saúde (OMS), como o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC), da União Africana, já falam numa situação de extrema gravidade para a saúde pública regional e global.

E isso resulta do facto de a estirpe activa na génese desta epidemia, a Bundibugyo, uma das cinco conhecidas, não tem vacina nem tratamento conhecido, sendo que é das de mais fácil transmissão embora não seja a de maior letalidade, ficando em cerca de 50%.

Além disso, esta região de Bunia é, como noutras geografias africanas, culturalmente muito resistente a aceitar as indicações das equipas médicas enviadas para conter a doença e isso leva a que muitos dos corpos das vítimas desta severa febre hemorrágica sejam "roubados" pelos familiares e amigos para serem sujeitos aos rituais tradicionais.

Com isso, além de estarem a ajudar á dispersão do vírus, que se transmite através do contacto com os fluídos corporais das vítimas, muitas das vezes ocorre a destruição violenta dos equipamentos médicos criados para combater esta infecção mortal.

O que está a contribuir largamente para que o vírus já esteja em deslocação para os vizinhos Uganda, onde já morreram pessoas, e Ruanda, com casos suspeitos, além de que nas províncias próximos dos Kivu Norte e Sul também já estão identificados casos.

Face a este cenário, onde a OMS tem subido quase a ritmo diário a gravidade dos alertas de risco local, regional e global, foi esta quarta-feira, 27, divulgado pelo media congoleses que os voos de e para Bunia estão suspensos.

A decisão foi tomada pelo ministro dos Transportes congolês como "medida de precaução" embora seja claro, como vários especialistas já avançaram, que as autoridades nacionais estão empenhadas em garantir que a infecção não chega a Kinshasa.

Fora desta ordem de restrição estão apenas os voos operados pelas equipas sanitárias e organizações empenhadas no combate à epidemia, embora apenas com autorização prévia do Governo central.

É que, devido à distância, quase 3 mil kms por terra e cerca de duas horas e meia de avião, as viagens aéreas são a forma mais comum de as populações locais chegarem à capital do país, onde, a todo o custo, as autoridades nacionais querem garantir que o vírus não chega.

Isto, depois de um susto resultante de rumores de que tinham sido detectados casos suspeitos na capital da RDC em indivíduos oriundos das zonas afectadas pela epidemia de Ébola.

Apesar do impacto económico gigantesco do fecho do aeroporto de Bunia e da fronteira com o Uganda, esta medida é vista como essencial para conter a dispersão da doença que está a ganhar dimensão de crise mundial a cada dia que passa.

Segundo dados oficiais, sem contar com inúmeros casos que existem fora do sistema, esta epidemia já provocou 220 mortes e há 940 casos suspeitos no leste congolês.