Para este avanço rápido da epidemia, que levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a lançar um alerta internacional de crise de saúde pública, estão a contribuir factores como a inexistência de uma vacina ou tratamento para a estirpe activa no leste do Congo.

A estirpe Bundibugyo, que foi pela primeira vez identificada no Uganda, é uma das cinco existentes, com uma taxa de mortalidade superior a 50%, mas não tem, ao contrário da mais comum, a Zaire, vacina ou tratamento conhecidos.

Esta epidemia começou na província de Ituri, uma das três do leste da RDC, junto à fronteira com o Uganda, onde o vírus já entrou, e o Sudão do Sul, onde também há casos suspeitos, e já está também no Kivu Norte e Kivu Sul, com fronteira com o Ruanda e Burundi.

Todos os países limítrofes fecharam as suas fronteiras para reduzir as vias de possível avanço do vírus, mas a OMS já veio alertar que se pode estar perante uma situação de maior gravidade que aquilo que se pensava inicialmente devido ã existência de mais casos até agora desconhecidos.

E a razão é a mesma de quase sempre, que é a resistência das populações a aceitar o tratamento e os meios de diagnóstico implementados pelas equipas da OMS, ou de outra organizações internacionais, além das equipas que as autoridades congolesas enviaram para o local através do Instituto de Pesquisa e Ciências Biomédicas (INRB) congolês.

Pelo contrário, além de se oporem, em muitos casos, como sucedeu na semana passada em Rwampara, perto de Bunia, Ituri, grupos de populares enfurecidos destroem infra-estruturas criadas para combater a epidemia.

Este incidente aconteceu no Hospital Central de Bunia, onde familiares e amigos de uma criança que morreu com Ébola exigiram a devolução do corpo à família para a prossecução dos rituais fúnebres tradicionais e ao verem esse intento recusado incendiaram uma ala nova de isolamento para casos confirmados.

O problema é que estes rituais são um factor relevante para o alastramento da infecção porque exigem que o cadáver das vítimas seja tocado, sendo que é precisamente nesteds momentos em que as vias de transmissão desta febre hemorrágica agressiva estão mais activas.

Até ao momento já foram registadas 205 mortes confirmadas, há perto de 110 casos com registo laboratorial positivo e mais de 900 suspeitos em análise, embora todos os especialistas comecem a coincidir na opinião de que a verdade será muito mais severa devido aos casos mantidos fora dos centros oficiais de tratamento e diagnóstico.

A contribuir para a dispersão desta infecção está ainda a situação de insegurança generalizada na região leste da RDC, especialmente por causa da guerrilha ruandesa do M23 e das ADF oriundas do Uganda.

Isso mesmo foi dito pelo director-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, numa publicação no X, onde, além da questão dos conflitos, enfatizou a existência de centenas de milhares de pessoas em campos de refugiados (ver foto), uns recentes, outros com décadas, o que, no conjunto, dificulta seriamente o trabalho das equipas médicas.

Apesar de estarem em curso esforços para criar uma vacina para esta estirpe, esse tratamento só deverá estar disponível dentro de muitos meses, visto que ainda nem sequer está em fase de testes.