A minha primeira recordação vem de 1982. Tinha cinco anos e pouco entendia do jogo. Mas lembro-me da Hungria a marcar dez golos a El Salvador. Dez. Para uma criança, aquilo parecia impossível. Não me recordo de quase mais nada desse Mundial, mas aquela goleada ficou gravada na memória como uma dessas histórias que os mais velhos contam e que nunca mais nos abandonam.
Em 1986, no México, vi finalmente um Mundial a sério. Foi o Mundial de Maradona.O Mundial da Mão de Deus e do génio. Naquele tempo, acreditávamos que os grandes jogadores eram capazes de mudar o destino dos povos. Maradona parecia fazê-lo. Ainda hoje me recordo do penálti falhado por Zico contra a França e da defesa extraordinária de Joel Bats.
Em 1990, África começou a sonhar mais alto.Roger Milla e os Camarões mostraram-nos que os gigantes podiam cair. Ainda hoje sinto a dor daquela derrota por 3-2 diante da Inglaterra. Foi uma das primeiras vezes que percebi que o futebol podia partir o coração.
Em 1994, nos Estados Unidos, chegou o tetra brasileiro. Quando Roberto Baggio enviou a bola por cima da baliza, numa das imagens mais famosas da história do futebol, nós, os miúdos do Cassenda, explodimos de alegria. Corremos para a Rua 10, junto às instalações da Astaldi, empresa italiana para vibrar e festejar a vitória brasileira bem na cara dos italianos que até asfaltavam estradas.Pura crueldade juvenil.
Quatro anos depois, em França, vi Zidane elevar-se duas vezes para decidir uma final. A França parecia imparável. Apenas a magnífica Croácia de Davor Šuker conseguiu fazê-la vacilar. Mas Lilian Thuram apareceu quando ninguém esperava e abriu-lhes as portas da glória.
Em 2002, a final foi jogada ao meio-dia.
Vi-a na companhia daquela que era então minha namorada e colega de faculdade e que hoje é minha esposa, Carla Chipesse. O Brasil conquistou o pentacampeonato e eu guardei mais uma memória para o arquivo sentimental da vida.
Mas nada me prepararia para 2006.Esse não foi apenas um Mundial.Foi o nosso Mundial.O Mundial de Angola.
Ainda hoje me emociono ao recordar aqueles dias. O jogo contra Portugal, com a casa coberta pelas cores da bandeira nacional. O empate com o México visto no Jango Veleiro, na Ilha de Luanda. O jogo com o Irão acompanhado em Lisboa, na Associação das Comunidades dos PALOP do Lumiar. E, claro, o golo de Flávio. Há golos que valem títulos e há golos que valem memórias eternas. Aquele pertence à segunda categoria.
Nesse Mundial percebi uma coisa importante: o meu coração futebolístico tinha encontrado finalmente a sua pátria.
Até então, tinha amado muitas selecções. A partir dali, o meu compromisso emocional passou a pertencer exclusivamente aos Palancas Negras.
Em 2010, o Mundial chegou finalmente a África.
Ainda hoje me arrependo de não ter atravessado a fronteira para viver aquela festa de perto. Encantei-me com a Espanha campeã e sofri com o drama de Gana diante do Uruguai. Durante alguns minutos, acreditámos que uma selecção africana podia chegar onde nenhuma tinha chegado antes.
Em 2014 veio o inesquecível 7-1 da Alemanha sobre o Brasil. Um daqueles resultados tão improváveis que parecem ter sido inventados por um romancista.
Em 2018, tive a felicidade de assistir em Paris ao extraordinário França-Argentina. Foi ali que vi Mbappé transformar-se de promessa em fenómeno diante dos meus olhos. A admiração que já sentia pela selecção francesa tornou-se ainda maior.
Em 2022, no Catar, Messi completou finalmente a sua obra. A exibição contra a Croácia continua a impressionar-me. Foi uma demonstração de talento, inteligência e liderança que ficará para a história.
E agora chegamos a 2026.Tenho 49 anos e doze mundiais vividos intensamente. Doze capítulos de uma mesma história.
É verdade que Angola não estará presente. Vou puxar pela a RDC, a França, o Brasil, Portugal, Cabo Verde, Senegal, Costa do Marfim e outras selecções. Mas sem a paixão absoluta dos tempos antigos. Essa paixão ficou reservada para os Palancas Negras.
No final, o sentimento que permanece é simples: gratidão.
Gratidão por quase quarenta e cinco anos a viver futebol. A sonhar, sofrer, celebrar e construir memórias.
E gratidão por poder assistir agora aos meus filhos, Lutuima e Lukeni, a viverem o jogo com a mesma intensidade com que eu o vivi. Talvez eles ainda não compreendam a dimensão destas histórias. Talvez um dia compreendam.
Mas quando os vejo vibrar diante de um golo, reconheço neles aquele mesmo brilho que um dia iluminou os meus olhos de criança.
E percebo que o futebol, afinal, é isso.
Uma herança invisível que passa de geração em geração, uma forma de medir o tempo, uma maneira de sermos felizes.
Viva o futebol.
Que vença o melhor.
*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga
Lei em campo: Viva o Futebol
De quatro em quatro anos, o mundo abranda um pouco para caber dentro de uma bola. No meu tempo de infância, lá no nosso Cassenda, nós não contávamos os anos como as outras pessoas. Medíamos a vida pelos Mundiais. O tempo não era feito de calendários, mas de campeonatos do mundo. Dizíamos coisas como: "Oito anos não é nada, só faltam dois Mundiais." E isso parecia uma eternidade e um instante ao mesmo tempo.
Agora, às portas de mais uma edição, dou por mim a percorrer quase meio século de memórias. Como quem folheia um velho álbum de família onde, em vez de fotografias, há golos, derrotas, lágrimas e celebrações.
Agora, às portas de mais uma edição, dou por mim a percorrer quase meio século de memórias. Como quem folheia um velho álbum de família onde, em vez de fotografias, há golos, derrotas, lágrimas e celebrações.
