Luanda comemora, neste domingo, 450 anos. Na qualidade de antigo governador, como vê a cidade hoje e qual é o seu sentimento?

Um sentimento de saudades. Fui governador de Luanda por mérito do meu partido e do então Presidente José Eduardo dos Santos, que, naquela altura, devido à situação que a capital atravessava, viu, dentro do leque de diferentes quadros formados pelo próprio partido, aquele que reunia as melhores condições para assumir o cargo. É desta feita que sou nomeado governador num momento muito difícil por que passava a nossa capital. Era um período em que parte da população saía do interior do País, fugindo da guerra, procurando refúgio e segurança.

Portanto, como podem imaginar, eram momentos difíceis. Também se punham questões institucionais. Havia muita interferência na gestão de Luanda. Não se sabia por onde começavam as balizas de um e do outro poder, ou seja, onde terminava o poder central e por onde começava o poder local. Foi uma situação totalmente contrária.

Apesar disso, conseguiu resolver muitos problemas que afligiam Luanda?

Apesar de tudo, conseguimos pôr mãos, conseguimos trabalhar afincadamente e resolver alguns desses problemas. Hoje, Luanda está rejuvenescida, tem mais gente e, obviamente, mais problemas. Mas eu estou convicto de que, tal como pudemos mostrar que era possível transformá-la numa casa comum, estou hoje bem certo de que, se apoiarmos os grandes esforços que estão em curso para se resolverem os problemas de Luanda, podemos ter uma cidade melhor para todos nós.

Como chega a governador, a convite pessoal do Presidente Eduardo dos Santos ou por proposta de alguém?​

Depois daquele percurso (Zaire e Uíge), estava no Ministério da Administração do Território e fui exonerado sem saber o porquê. Na tomada de posse como governador, o Presidente José Eduardo dos Santos perguntou-me: "Camarada Aníbal, alguém lhe explicou por que foste exonerado da Administração do Território e o nomeei para governador de Luanda"? Eu respondi-lhe que ninguém me tinha explicado. E continuou: "Como sabe, a prioridade no País é a paz, e temos de dar o enquadramento legal ao processo de paz. Tínhamos uma ministra sem pastagem, mas não dava sustentabilidade nem confiança institucional". E dizia ele que, devido às reflexões que eu naquele tempo como ministro fazia sobre Luanda, por um lado, e, por outro, devido ao perfil que reunia, então nomeou-me governador de Luanda.

Depois, surpreendentemente, ele tirou um bilhetinho do bolso e disse-me: "Camarada Aníbal, eu estive toda a noite a pensar sobre Luanda. Tenho aqui uma cábula (entregou-me o bilhetinho), que são treze tarefas. São compromissos meus para com a população de Luanda. Esses compromissos estão nas mãos de alguns ministros. Sei que não vai ser muito fácil conhecer esses compromissos, mas nós estamos aqui para ajudá-lo".

Entre as várias tarefas, havia o saneamento básico de Luanda e os problemas da água. Concretamente, tinha a ver com a junção dos dois grandes rios (Kwanza e Bengo), que deviam juntar-se à estação da Maianga e pôr água naquele canal que, em 1978, foi construído por búlgaros. E quem estiver atento sabe que o canal esteve muito tempo à espera do precioso líquido. Então, foi assim que conseguimos de um afluente do rio Kwanza fazer a bombagem por elevação dessa água e depois nos permitiu fazer a estação de bombagem do Kikuxi. Então, mandámos a água primeiro para o Golfo e depois para a Maianga.

Outra questão tinha a ver com o realojamento das populações que viviam precariamente nas barrocas da Praia da Boa Vista. Queríamos ver a expansão de Luanda para Sudeste. Bom, aí encontramos já um caminho meio andado. Havia sido já constituída a EDURB. Nós completámos o pacote legal com a ajuda do Secretariado do Conselho de Ministros. Então, começámos a desenvolver esta parte. Primeiro, o confisco e a solução dos problemas com os camponeses, cujas lavras circundavam aquela área. Era uma área que no tempo colonial servia a grande empresa Gomes & Irmão, que fornecia gado para a população de Luanda. Grosso modo, foi isso.

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