E foi isso que fez quando esteve na Argélia, onde chegou no dia 13, e depois nos Camarões, onde esteve nos últimos dois dias e meio antes de chegar hoje às capital angolana, no que parece ter sido uma alteração ligeira no conteúdo das suas mensagens pensadas para o continente e para o mundo.
É que, mesmo antes de sair de Roma para Argel, o Papa ouviu o seu conterrâneo e Presidente dos Estados Unidos a encher a boca de impropérios contra si apenas porque se permitiu usar a sua condição de Pontífice para defender a paz no lugar da guerra que há mais de um mês consome as "energias" do mundo e do Médio Oriente.
Ouviu mesmo Donald Trump acusá-lo de "gostar de terroristas" e de "amar bombas nucleares" nas mãos dos iranianos, apenas porque disse que o diálogo devia ser a base de todas as fórmulas para acabar com o conflito e não, como este disse na sua rede social, referindo-se ao Irão, que se estava a preparar para "matar uma civilização" para "nunca mais regressar", no que foi uma alusão evidente ao uso de bombas atómicas.
Desde que reagiu aos ataques de Trump, ainda no ar, entre Roma e Argel, o "leão" do Vaticano optou por não voltar a referir-se a si pelo nome, mas não deixou de pensar nele e na sua entourage em Washington quando, já nos Camarões, afirmou que "há um punhado de tiranos" que devastam o mundo com as suas guerras, cobiça e corrupção.
Tanto na Argélia como nos Camarões, entre apelos à paz e à reconciliação, mais em Yaounde que em Argel, onde apontou a palavra ao econumenismo e à sã convivência inter-religiosa, o chefe da Igreja Católica manteve sempre o olhar igualmente na urgência de acabar com a pobreza, um tópico que parece não o abandonar desde que passou, como bispo, longos anos na América Latina.
Em Luanda, tal como nos Camarões, encontrará um país com uma maioria da população cristã e, na parcela mais lata, católica, em forte crescimento, quase três vezes mais que quando o seu último antecessor a pisar o chão angolano, Bento XVI, encontrou em 2009 - João Paulo II já o tinha feito em 1992 -, mas com um mesmo problema, bem identificado pela Conferência Episcopal, que é o ainda por concluir processo de reconciliação nacional após o fim do conflito armado em 2002.
Não é por acaso que a CEAST escolheu, com o Vaticano, como mensagem angular para esta passagem por Angola do Papa na sua jornada africana de 11 dias, a questão, precisamente, da reconciliação sob o lema "Peregrino da Esperança, da Reconciliação e da Paz", o que é uma base alargada quanto baste para nela assentar a repetição das palavras que deixou nos Camarões, sobre a boa governação e o empenho dos governantes na resolução dos problemas dos mais desfavorecidos.
Seguramente não deixará de o fazer de novo nestes cerca de três dias de estadia por terras angolanas, onde passará por três províncias, Luanda, Icolo e Bengo, na sua deslocação à Muxima, e a Saurimo, na Lunda Sul, com um pormenor que se afasta do peso das suas intervenções, seja nas homilias, seja nos discursos preparados para encontros com autoridades e organizações da sociedade civil e diplomatas, que é em, no fim, vai ficar com a "medalha" de ter garantido a maior missa campal ao Papa.
Com a Argélia fora deste "campeonato", porque os cristãos católicos são uma minoria, "vibrante" como o próprio a ela se referiu, mas sem esse potencial, os Camarões, para já, colocaram a fasquia lá no alto, com uma missa ao ar livre em Douala, com mais de 120 mil pessoas, o que será um desafio gigantesco para a missa desde Domingo no Kilamba, em Luanda.
Mas se Angola tem uma maioria católica entre a sua população de 35 milhões de habitantes, com mais de 50% entre os 90% de cristão, tal como os Camarões, com 30 milhões de habitantes e cerca de 37% de católicos e mais de 65% de cristãos, com uma população muçulmana também relevante, na Guiné Equatorial é um caso raro em África com 90% da população cristã e mais de 80% desta católica.
O que, neste campeonato da maior missa campal, pode ser relevante. Mas estas contas só no final se podem fazer.
Para começar, o "chefe" dos mais de 1,4 mil milhões de católicos em todo o Planeta, vai começar assim que chegar por uma deslocação ao Palácio Presidencial, para uma visita de cortesia ao Presidente da República, e onde vai reforçar "a importância do diálogo institucional, da promoção da paz, da justiça social e do desenvolvimento integral da nação", segundo a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé.
E não é de se pensar que Leão XIV não terá em Angola tempo e espaço para repetir o discurso que fez nos Camarões, onde apontou em tom crítico o facto de uma grande parte da população deste país viver em "pobreza material e espiritual", referindo-se não apenas à pobreza bem vincada nos relatórios da ONU, mas também à enorme fragmentação dos cultos e seitas de várias índoles que também ali começam a emergir do desespero e da falta de esperança.
O que o levou a pedir aos "crentes" para não desesperaram e cederem à descrença e desencorajamento", antes pelo contrário, para se baterem pela verdade e pela justiça rejeitando a violência.
Perceber como estes temas serão tratados pelo chefe dos católicos em Angola, onde não vão faltar ocasiões para a eles se referir, seja nos encontros mais formais com autoridades nacionais, corpo diplomático e sociedade civil, seja junto ao povo quando chegar à Muxima, quando estiver a conduzir a missa campal no Kilamba, ou quando passar por Saurimo, a terra onde os diamantes poderiam brilhar mais se não fossem ensombrados pela pobreza e falta de infra-estruturas sociais e económicas.















