E, com efeito, o Irão parece ter aprendido com Donald Trump, visto que há longos meses que o Presidente dos EUA tem insistido em manipular os mercados com os seus avanços e recuos nas ameaças contra o Irão pouco antes da abertura dos mercados ou do seu fecho.

E desta feita foi assim que aconteceu com a vaga de misseis iranianos a chegar ao norte de Israel pouco antes de abrirem as "praças" do sobe e desce da energia global, com esta segunda-feira, 08, a começar com uma subida, como se esperava, acentuada.

Com efeito, logo na abertura, o barril de Brent, a referência principal para as ramas exportadas por Angola, disparou mais de 4%, estando, perto das 09:30, hora de Luanda, a valer 97,2 USD, uma subida de 4,5 % face ao fecho de sexta-feira.

Segundo se percebe das primeiras análises do dia, esta subida só não está a ser mais acentuada porque Trump - será parte da contra-manipulação? - tem insistido nas redes sociais que está a fazer tudo para travar o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, pedindo-lhe para parar os ataques.

Isto, porque Trump diz que um acordo de paz com o Irão está iminente.

A desconfiança sobre as intenções reais de Trump resulta do facto de ser conhecido que Israel, sem autorização dos EUA, não tem como lançar os seus misseis sobre o Irão, visto serem apenas os norte-americanos que dispõem dos aviões-cisterna que permitem reabastecer os F-35 em voo e estes não têm raio de acção que lhes permita chegar ao Irão autonomamente.

Todavia, com o calendário a alongar-se sobre este conflito e o Estreito de Ormuz fechado há mais de três meses, deixando encalhados cerca de 15% do crude consumido diariamente em todo o mundo, a crise começa a sair do Golfo deixando os petroleiros para trás.

É que no horizonte os analistas já não se debruçam apenas sobre os barris que não chegam actualmente aos mercados, o problema maior começa a ser o tempo que se tem pela frente para poder normalizar a situação... e isso já vai em meses.

Além disso, outra preocupação que começa a sair pelos cantos do Golfo Pérsico é que em breve as reservas estratégicas mundiais que estão a evitar o mal maior, como sucedeu em 2008, quando o barril chegou aos 147 USD, chegarão a limites críticos e não poderão continuar a diluir a crise como até aqui.

Face a este cenário, a OPEP+ já anunciou um aumento das quotas de produção para Julho em mais 188 mil barris por dia, mas é pouco, muito pouco, comparado com os milhões que permanecem arrolhados no Golfo Pérsico.

E o Irão já fez saber que não abdica de manter um controlo claro sobre esta estratégica passagem entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, obrigando a um refazer quase geral das normas que durante longas décadas regiam a saída do petróleo e gás da Arábia Saudita, Catar, Kuwait, Bahrein ou Emiratos Árabes Unidos...

Outro imbróglio, entretanto, pode estar ao viar da esquina do tempo, porque os Houthis, do Iémen, como já fizeram no passado, voltaram a ameaçar fechar o Estreito de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho/Canal do Suez ao Mar de Omã/Oceano Índico, o que seria um acrescento de dimensão incalculável à actual crise energética.

Perante a imprevisibilidade deste contexto, como todos os países exportadores e com economias petrodependentes, Angola está numa natural expectativa para ver como correm os dias, ou horas, que se seguem.

Angola soma ganhos, mas..

O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara ainda com os actuais 97, 5 USD, no caso do Brent, perto de 35 USD acima do OGE do ano corrente.

O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.